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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A discussão da racionalidade e os animais (não humanos)

Em um de seus polissêmicos ensaios dizia Sr. Michel de Montaigne, o aristocrata francês lendariamente encerrado em sua torre, que como nós, os animais não humanos são dotados de paixões, sentimentos de solidariedade e mesmo a capacidade de inferir. Entre um de seus exemplos, recitava o do célebre cachorro que, tendo de escolher um entre três caminhos para perseguir um criminoso, precisou cheirar apenas dois para decidir-se pela terceira – e não farejada – rota. O comportamento do cão ilustra o uso de uma forma de tirar conclusões de premissas. Imediatamente surge a ideia de que o bicho não está preso a representações parciais e contingentes do instinto, mas pode explorar padrões de generalidade, abstraindo o conteúdo da representação. Dessa ideia alguém poderia sugerir que desvalorizamos os cães. Mas Montaigne é um ensaísta cínico e por mais apreço aos animais que tivesse, suspeito que estava menos interessado em aumentar-lhes o valor que em humilhar a nossa vaidade de “animal racional”. Confesso uma inclinação a compartilhar com ele deste interesse. A lógica é superestimada: o modo como formalizamos um argumento não necessariamente corresponde a um padrão de economia imutável, um reino ideal de arquétipos. Há provavelmente sempre mais do que uma maneira de resolver o mesmo problema e ainda quando há uma mais econômica solução – a mais lógica – há outras maneiras de se formular o problema que a tornam um pouco menos fundamental. A nossa concepção egoísta de racionalidade provém dos quebra-cabeças que nos impomos e, é preciso dizer, o homem foi até hoje um mestre pelo menos em construir labirintos particulares capazes de limitar sua experiência a um padrão de formas fixas. Quem não sabe “ver” dessa maneira é tido como burro, ou irracional. Vão mais longe e dizem: lhe falta espírito, lhe falta deus. Mas o que é deus senão a invenção metafísica que expressa o crédito total de um tipo de experiência? Com essa ideia  o homem fecha o círculo de sua experiência e a glorifica finalmente como Cultura. Pode parecer difícil sair desse círculo e abri-lo a outras espécies. A própria natureza dos órgão vocais, a incapacidade de articulação linguística, parecem desafiar essa ambição. Isso não significa muito, entretanto, uma vez que a mera presença de um gato ou um cachorro dentro de uma casa automaticamente o investe com uma espécie - ainda que pouco pronunciada - de papel subjetivo; muitas vezes o papel dominador. Quem permanece voluntariamente surdo à voz dos animais no mundo, com ou sem verbo, logos, forma, não passa de um procrastinador, muitas vezes oportunista.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sr Pablo Neruda e as reflexões que ele me inspira

Sr Pablo Neruda é outro grande escritor que me ajudou a sedimentar a confiança em uma das teses diletantes que acalento com mais carinho. Porque é uma tese, e porque digo que é minha, não se segue que é original. A presunção da originalidade é só uma expectativa serpentina, que serve para desanimar as ambições modestas. Dar o crédito a quem falou primeiro por um lado é impossível e, por outro, enganoso: isso acontece porque a ideia foge do autor e tem a peculiaridade de se expor ao acesso por meios intuitivos independentes da sensibilidade particular de um único homem. Lembremos que pirâmides foram construídas no Egito, mas também no México, embora seja difícil de acreditar que o paradigma cientifico de um único homem tenha ensinado e orientado os preceitos da edificação de ambas – a menos, obviamente, que algum genial ET tenha escrito uma geometria mais fundamental que a de Euclides e divulgado pelos quatro cantos da terra nas eras antigas.
Mas vamos à tese. A prosa (sim, não a poesia) de Pablo Neruda é um verdadeiro milagre da forma, que realmente eleva a literatura ao estatuto de beleza atingido pela pintura e a faz rivalizar com a própria música. Isso me leva a pensar que a linguagem é uma arte de imagens e que a estrutura primitiva das combinações simbólicas não obedecem a um padrão gramatical fixo e nem a um esqueleto lógico canônico. A tradução entre as línguas naturais não se dá pelo emparelhamento justaposto entre sintagmas, proposições, sentenças, etc. Se dá, quando se dá, pela possibilidade de, através de símbolos, lapidar as margens da paisagem intuitiva, selecionando regiões da experiência e dando a povos diferentes, diferentes visões. 
O que lamento é que os gramáticos já tentam (há muito tempo) subsumir essa maneira improvisada e livre de distribuir o peso e graduar a substância do visível, praticado por mestres como Neruda, a regras de sua ciência de velhos enrugados sem criatividade. Fazem então um inventário do que chamam de “imagens do estilo”, as metáforas, metonímias, eufemismos, hipérboles, etc. Assim as tratam como anomalias cobertas pelo seu complexo de regras, inofensivas se utilizadas nos limites da licença poética. Isso pode ser muito útil para cientistas da língua sem talento e nem emoção, porém, esconde a perspectiva do fato de que a essência mesma da língua está aí (e essas imagens não são, portanto, um conjunto de exceções usadas por boêmios ociosos e poetas): a sintaxe outra coisa não é que a distribuição de peso pela estrutura seletiva que administra a relevância significativa. O vem depois é semântica - mas os dicionários são um feto tardio, completamente dependente do pai sintático que lhe nutre, lapida e decide a forma. Esta predominância da sintaxe sobre a semântica está presente tanto nos hieróglifos que combinam imagens de homens com bicos de papagaio, até na linguagem do cinema, que seleciona os ângulos para marcar o passo da argumentação narrativa. E isso não é uma simples questão de imaginação gratuita; mas sim de estilo. O estilo disciplina a imaginação. 
Ora, de que outra maneira isso seria feito melhor do que pelo modo de Neruda e Guimarães Rosa? São os mestres do estilo os verdadeiros pais da cultura, os juízes das perspectivas e inclusive da ciência – que só surge depois, como um corolário da metafísica e sua respectiva tentativa de colonizar a linguagem ordinária, lhe roubando a riqueza e a ambigüidade enquanto a torna rígida e precisa até o limite do matemático. Porém, mesmo os cientistas se enroscam com suas ambigüidades periódicas, e novamente são os bruxos do estilo que vêm para lhes salvar.  
Essa é a tese que sustento, que não é lá muito original, mas não importa: pois embora me ocorra o nome de um ou dois autores que lhe dariam suporte, não sei até onde esse suporte seria integralmente tolerante como é o amor de mãe e prefiro, dessa forma, ficar com a responsabilidade do que digo toda para mim. Quanto ao mestre Neruda, que me inspirou essa postagem e reflexão, vai aí uma citação que mostra a voracidade de sua criatividade estilística e a abismal energia de suas imagens. É uma tradução para o português, mas a construção não perdeu muito. Trata-se de um prefácio a Juan Rejano, onde faz uma homenagem a este cujo teor eu, coitado, gostaria de imitar para fazer a ele:
“Quando se refizerem as medalhas destruídas pela noite pestilenta destes tempos, só malferida pelas marcas valorosas da batalha espanhola e da eslava, recolheremos entre lodo e cinzas as lágrimas desta poesia, sua cauda de cristais, de tal maneira que estaremos orgulhosos pensando como passou a gaivota deixando uma estrela de platina sobre o céu escuro da tempestade terrestre, e escarvaremos essa minuciosa moeda,  flagrância estrita e esplendor, como um documento de antigos heróis, de muita idade, de muita aflição, de muita primavera também: sonetos, canções, edificados na pedra fresca do tempo ensangüentado. (...) Esta poesia não começa: havia um expectante lugar em nosso idioma para a sua diamantina estrutura.”(Neruda, 2002. P. 27)
E não haveria um lugar expectante na cultura também para as ondas de tons subsistentes propagadas por Pablo Neruda?

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O antídoto da filosofia

               O caráter dogmático, perseverante, radicalmente abismal e dramaticamente insolúvel das aporias filosóficas que vigem no mundo desde os gregos – e que talvez encontrem um ou outro análogo circunstancial nas doutrinas orientais como o budismo (e outras com as quais não sou familiar) – por mais que também a mim irritem profundamente, têm a seu favor pelo menos um indisputável fato: são as que mais afiadamente penetram a estrutura das questões e problemáticas. Matem-me também antes de me incomodar com a barba e as unhas ancestrais que não param de crescer no interior das tumbas dos grandes e milenares filósofos: Platão, Aristóteles, Kant, etc. E eu serei o último a mudar meu voto pela não exumação de seus cadáveres! Deixemo-los lá, aproveitando o sono da sesta irreversível. Mas, quando vejo como se debatem os professores e especialistas para entender sua própria época, repetindo fórmulas e sem a mínima compreensão de como administrar o envolvimento pessoal com os problemas, não tenho dúvida: ressuscitem os filósofos! Já é tempo.  Se possível, treinem novos filósofos, ou alguma espécie ligeiramente equivalente a eles adaptada aos novos tempos.
                Não prego aqui nenhuma anacrônica volta a questões muito cerimoniosas, como a do ser, de deus, da alma ou da liberdade. Refiro-me ao fato de que hoje a grande massa de acadêmicos e pretensos críticos não sabem senão repetir jargões desgastados, que já perderam há muito tempo qualquer vestígio de conexão com uma região da experiência. Já não afetam o homem, e este já não sofre por elas, não as compreende intimamente e não as integra à sua vida, de modo que não passam de passatempo de jornalistas e de acadêmicos ociosos.
           É normal culparem-se os bancos, o governo, ou o sistema econômico, pela atual crise. Mais de uma vez, no entanto, os analistas procuram definir melhor os fundamentos doutrinários que solidificam suas interpretações. Essa "descida aos primeiros princípios" não vêm com a carga de uma curiosidade metafísica, mas simplesmente o interesse, muito comum, em incrementar a credibilidade de suas teorias. Tenta-se achar, assim, o fundamento das leis econômicas e, como num círculo ao infinito, culpa-se então a psicologia de massa e, com diferenças na margem de atraso, chegam enfim à sociologia. Ou apelam para o conjunto misterioso de pressupostos – econômicos, psicológicos, metafísicos, etc – contidos na famigerada palavra “capitalismo”. E todos vão muito satisfeitos de terem entendido os mecanismos da inflação, enraizados em valores subentendidos na moral ou em erros institucionais, como o sistema bancário. Todos sabem tão firmemente a solução que o verdadeiro escândalo é, de fato, o problema nunca se dissolver. Já vi até mesmo dizerem que o problema é o papel-moeda, pedindo pela anulação dessa nefasta instituição: como se o problema do tempo, da historicidade da experiência, e todos os outros dos quais o dinheiro não é senão uma expressão circunstancial – na medida em que através dele administra-se justamente o atraso e o adiantamento das negociações humanas – pudessem magicamente sumir se alguém resolvesse voltar à instituição do ouro (ou à troca de mercadorias). 
                E a advertência que lanço aos últimos ingênuos, a lanço também aos preguiçosos intelectuais que usam o “capitalismo” como recurso metodológico ad hoc para explicar seja a regra, seja a anomalia. São posturas diferentes, mas a ingenuidade é a mesma, provém da mesma raiz. Naturalmente, não me refiro aqui ao gênio de K.Marx que, por bem ou por mal, pertence ao gênero dos filósofos aludidos no início desse post, e vinha de uma problematização radical e filosófica da economia – herdada de Hegel – que os economistas, sociólogos e historiadores de hoje não conseguem, malfadado esforço de cegos, sequer começar a visualizar. 
                  Nesta impossibilidade, comum aos mais dispersos setores acadêmicos – inclusive o departamento de filosofia – encontra-se a primeira fase da cadeia de obstáculos que precisa ser superada: a cegueira completa do cientista, do acadêmico e do pensador (mesmo o cronista e o boêmio) moderno a respeito da raiz filosófica subjacente a suas crises metodológicas. Enquanto a ciência carregar esse ar doce, esse sorriso infantil no rosto plácido, todos estarão sujeitos à opressão das teorias técnicas e suas soluções oportunistas e ocasionais, válidas até onde vai o paradigma. Mas a reconciliação da ciência com a problematização da metafísica, do alcance da razão, é justamente a reconvocação da problematização filosófica, e fico em dúvida se para isso temos saúde. Para isso dependemos de um novo filósofo, uma espécie de modesto messias. Permaneço em dúvida sobre se é possível treinar as próximas gerações para não serem estultos – como nós ficamos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O caso (nunca encerrado) do Naturalismo

Nós, homens, invariavelmente ficamos velhos e com a velhice, moderamos nossa opinião. Porém, nem sempre é saudável guardar cancerigenamente um juízo que anseia por sair radical e pesado, com a força incidente de uma pedrada. Há algumas vertentes teóricas vivas atualmente que chegam a gastar o fundo do bolso da minha paciência, principalmente porque guardam um ar pacífico e descansado, como se houvessem arrumado ingresso para alguma Shangri-la ficcional muito disputada. Na verdade, são versões novas do famigerado naturalismo. Ademais, porque são baseadas em desencaminhamentos de leituras, pecado que só os leigos têm a desculpa de cometer. A nova discussão da neurociência a respeito de problemas como o da “consciência” e do “espírito” é o exemplo disso. Arrumaram um jeito de reavivar essa discussão milenar, e com ar muito satisfeito de quem tem um ponto de observação privilegiado – proporcionado talvez pelos progressos da ciência – acreditam que podem por um golpe de tinta ou da tecla “enter” decidir e resolver esse que, mais que um problema, é um embaraço metafísico insolúvel. As críticas que poderia fazer a eles são muitas, mas, francamente, não acredito que eles mereçam a homenagem de uma discussão moderada e séria. Isso diminuiria a pedra de escândalo que eles representam. Basta lhes lembrar Tolstói, em uma citação que já usei para outros propósitos nesse mesmo blog: “Não há alma nem liberdade, porque a vida de um homem se traduz no movimento dos músculos e os movimentos destes estão submetidos às atividades dos nervos. Eis o que dizem, escrevem, imprimem sem suspeitar que há mil anos todas as religiões e todos os pensadores não só reconheceram  como nem sequer se lembraram de ter negado essa mesma lei da necessidade que com tanto zelo tratam de demonstrar agora por meio da fisiologia e da zoologia comparadas. (...)A pergunta de como se pode concordar a lei da necessidade[natural] com a lei da liberdade [cultura] não pode resolver-se através da filosofia nem da zoologia comparadas (...) Os naturalistas e seus adeptos que esperam resolver esse problema fazem-nos lembrar pedreiros a quem tivessem mandado rebocar um dos lados da parede de uma igreja e, aproveitando a ausência de contramestre, num excesso de zelo, rebocassem as janelas, as vigas, as imagens e as paredes (Tolstoi, Guerra e Paz, 2007, p.1466/67).” O tom do autor me agrada enormemente, pois não se humilha a um diálogo de igual para igual, e mantém a altura, tratando de ridicularizar e expor o que é ridículo. Eu, de minha parte, não almejo mobilizar uma campanha para que cientistas fossem estudar livros de metafísica, ou pelo menos sobre a história da epistemologia. Não, nem iria tão longe. Seria mais fácil apenas apontar para o fato de que, quando um neurocientista escreve um tratado reducionista e naturalista defendendo que “a cultura e a consciência não passam de secreções do cérebro”, esquece a obviedade de que essa mesma teoria científica – elaborada por uma lógica e uma metodologia – são produtos da consciência e da cultura e, portanto, seguindo sua mesma regra, são redutíveis a “secreções do cérebro”. Ora, fiel à mesma regra, o seu próprio livro e todos os seus artigos acadêmicos não são senão “secreções do cérebro”, e sua contribuição cultural e acadêmica é nula como a nutrição de um vegetal. Por que, então, o "pequeno gênio" se dá o trabalho de escrevê-las, pensá-las, examiná-las e avaliá-las? O fato de que ele a escreve conscientemente e com uma pretensão de verdade, com uma lógica e um valor metodológico, entra em direta contradição com sua própria tese. E vamos mais além: todas as leis neurológicas retiradas de princípios mais firmes de outras ciências mais abrangentes, como a Biologia, serão, por essa lógica profana, meras secreções do cérebro – sem valor teórico, lógico, metodológico, cultural.  Supondo que algum ousado realmente estivesse disposto a defender a teoria de que todas as teorias, inclusive as da Biologia, estão submetidas a leis naturais - por exemplo, as da evolução - ele deveria ser capaz de explicar como a própria teoria da evolução escapa a essa regra, ou expor a que nova regra natural a teoria da evolução se subordina, o que o levaria a uma regressão ao infinito. O naturalismo científico tem uma semente de estupidez, embora seus defensores não sejam estúpidos e nem vegetais, e a pior ramificação desta é a cegueira, a ausência de desconfiança geral desses cientistas a respeito da atitude filosófica que eles mesmos incorporam e pressupõem para investir crédito metodológico em seus paradigmas. Oscilam entre uma ingenuidade dogmática e um cinismo cético, mas escondem isso de si mesmos. E veja que aqui nesta crítica não incluo o brilhante (dessa vez sem ironia) Quine, que no seu naturalismo não é ignorante da discussão filosófica em que está inserido e nem descuidado quanto ao terreno dramaticamente lamacento da metafísica que está atravessando. Além disso, Quine escapa à redução ao absurdo pois é um holista, e fica alheio justamente de uma teoria natural - como substituta de uma epistemologia fundacionista - que tentasse explicar a natureza e o caráter de validade das outras ciências. Refiro-me a uma classe remanescente do positivismo, que ainda ganha nobels e tem prestígio acadêmico, embora sejam vítimas de um simples desencaminhamento teórico de calouros. Nesse assunto, por sinal, mesmo os religiosos estão mais avançados que os naturalistas e podem olhar os seus erros de cima, com pena e ironia. O que disse aqui, selecionando a neurociência como alvo, vale com o mesmo tom para o reducionismo psicológico, antropológico, e daí por diante.E agora algum malicioso poderia perguntar-me: "Lucas, você acredita mesmo que existe um mundo platônico onde as ideias competem, concorrem, se refutam e verificam, complementam e solidarizam, movimentando a cultura e a história? Acredita que existe em nós um órgão capaz de localizar as essências, o mito do 'olho do espírito', acessível àquele que vive a retidão moral e a pureza espiritual?" Ora, obviamente essa pergunta é para me pôr em embaraço. Não acredito em nada disso, mas sei que essas estão entre as questões insolúveis que fazem parte da inclinação inevitável da razão à metafísica. E sei que, a experiência dessa reincidente tentação a se colocar questões impassíveis de resolução, isso, sim, NÃO é uma secreção do cérebro. Nossos problemas existenciais definitivamente não aceitam o reducionismo: a "experiência" é e sempre será um mistério, mais fácil de ser elucidada pela literatura e a poesia que por um microscópio de laboratório.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Mais um gole no antídoto da filosofia

 No meu último post discuti a possibilidade de que enfim existe algum uso, algum bom proveito que justifica a propaganda da filosofia e redime a existência daqueles extintos homens da Grécia antiga, cujo exemplo fundou essa espécie insensata e meio fora de estação de pensar, como um pensamento que explora os feriados mais que as ocupações do dia útil. Chego a pensar que fui exageradente severo com essa disciplina nas minhas épocas de graduação. Porque, afinal, sem essa última nos sobraria entrar na briga por algum dos lados do falatório científico, acadêmico, jornalistico, etc, na perpetuação de uma discussão sem fim cuja estrutura de réplicas se vê em toda parte como na intriga entre religiosos e cientistas. E também porque nunca deixaríamos de estar expostos ou ao policiamento das tradições, ou às escavações de revisores e reformistas ávidos por dar novas direções – nova base e fundamento – à história e à verdade. Quando não fossem pirâmides, viriam com boas evidências de vida extraterrestre. Para fugir do barulho desse zumbido célere, que maliciosamente disputa o respaldo consolador da ciência, que outra melhor maneira que adotando a regra dos “pretensos” sábios de outrora? Que melhor maneira do que suspendendo o juízo para os assuntos pelos quais se mata e se morre, reconhecendo neles o seu caráter supérfluo, o vazio circular do vício metafísico - a mesquinha ambição de verdade - que os cerca? Mesmo a versão enfraquecida, adoecida, do filósofo de hoje (seja o epistemólogo, o pragmatista, o semântico) consegue por meio de sua orientação formal discutir o assunto pela porta de fora, não, de fato, por cima ou por baixo, mas pelo menos paralela e independentemente. E já é melhor que nada. Estão mais próximos de entregar-se – como num protesto – à ociosidade do pensar. Seja como for, também para isso não é preciso seguir o exemplo da Filosofia. Para administrar o vazio e a angústia sem abandonar as palavras, talvez melhor modelo de entorpecimento nos dê a poesia, esse silêncio cantado, onde o emprego do discurso vem despido de doutrina e especulação.

domingo, 21 de agosto de 2011

Sobre a suposta 'Treta' entre o homem religioso e o científico



Esse post nada mais é que a exposição de uma curta coleção de oportunas citações. Oportunas com relação a quê? Como resposta a uma nova campanha de inteligência estreita que vai singelamente, com um ar de modéstia e indiferença, reivindicando um arrogante valor de triunfo. Comportam-se com a condescendência de quem ensina crianças, e, no entanto, ninguém sabe por que estão sempre tão incomodados e cheios de energia impaciente para responder ao que eles consideram tão inferior. São compostos de filósofos, cientistas e acadêmicos de todas as espécies. Sua origem é pródiga, porque nascem de um pressuposto de linguagem, um modo específico de falar, pensar, dialogar. E não me atrevo a indicar-lhes um nome abrangente, porque assim correria o risco de errar por generalização. Mas sei e não omito que são pacientes de uma das certezas do nosso tempo, que já dura e amadurece em versões cada vez mais confiantes e temerárias desde o século XIX. Estão em todas as partes, são desde criadores de stand up comedy até cientistas renomados, e, ainda com facilidade, se espalham pelos degraus menos prestigiados do grosso populacional. O característico no seu comportamento é um sentimento coletivo de inteligência que eles compartilham, dividem entre si, aquela complacência de quem sabe alguma coisa a mais. A irreverência é uma das suas armas, e eventualmente chegam a explorar esse talento tão bem que encantam. Para fazer-lhes justiça é preciso dizer que são engraçados e perspicazes, o que não muda o fato de assim vingarem-se do fato de serem muito grosseiros para abordar temas e problemas que ultrapassam os seus limites. Mas “de que serve hábeis sabichões e inábeis e honestos empíricos e mecânicos forçarem uma aproximação, como hoje é tão comum, tentando penetrar com ambição plebéia essa ‘corte das cortes’?” (Nietzche, 1998, p.121). Como lhes falta toda sutileza, adoram chutar cachorro morto, pois ali eles brilham: ridicularizam as pessoas religiosas, que são alvos fáceis e não podem se defender senão com sua fé ou com argumentos muito toscos. Ora, o que eles definitivamente não entendem na natureza do homem religioso é “quanta sabedoria existe no fato dos homens serem superficiais”. O que leva o homem a adotar uma interpretação religiosa da existência é justamente o “temor daquele instinto que pressente que não é bom ter a verdade cedo demais, antes que o homem se tenha tornado forte, duro e artista o bastante” (Nietzsche, p. 62). É forçoso reconhecer então a que instinto esse homem sarcástico e risonho obedece. Isso é simples, ele mesmo não esconde: é o instinto à verdade. É nesse envolvimento com a verdade que se situa a sua sensação de superioridade. É, porém, nessa mesma sensação que reside a sua falta de elevação, que se denuncia a sua guerra ao sentimento artístico, à máscara, ao flerte da cultura com o mundo natural. Nas suas econômicas leis usadas para ligar todas as cadeias de fatos em uma explicação global esconde-se a sua própria maneira de abstinência, a sua não-religiosa forma de limpar o mundo de sua beleza e abundância: “A esses pesquisadores compete tornar visível, apreensível, pensável, manuseável, (...), abreviar tudo o que é longo” (Nietzsche, 1998, p.118). A obsessão com a verdade é, antes, “a fé em uma valor metafísico, um valor em si da verdade”. (Nietzsche, Genealogia da Moral, 2007, p.139). É com a fidelidade a esse sentimento, que trás consigo o orgulho infantil de pertencer ao grupo da humanidade que usa a lógica e a razão, que evolucionistas hoje mostram as armas contra os cristãos, em uma vergonhosa luta que se assemelha a um jogo de futebol de crianças de doze anos, onde todas correm ao mesmo tempo atrás da bola e deixam o campo mal distribuído e a povoação dos pontos essenciais desmarcada. Confiam na aleatoriedade das direções da bola para marcar um gol por acaso; e não raro não sabem distinguir quem é do próprio time e quem é do outro. Pouco escandaliza que marquem gols-contra com frequência. Essa disputa recicla uma guerra antiga em que nem todos foram ainda vingados e é de supor que existe muita amargura, repressão, desejo de desforra escondido aqui. Afinal, cientistas foram queimados, amordaçados, calados. Se nos atermos a esse desejo de vingança e a essa animosidade infindável entre o homem da batina e o curioso experimental, portanto, não vamos chegar a lugar algum. Desviarei a atenção para uma única passagem veemente e espirituosa de Tolstoi, onde este arrebatou toda essa enferrujada discussão, em que não se sabe bem o que se disputa, e a vitória não tem valor nem prêmio a não ser uma satisfação narcisista e uma vingança mesquinha. Porque, afinal, além desses despojos emocionais, o que ganha um biólogo ao refutar um religioso? Será mesmo que o último é uma ameaça ao primeiro? Será que eles, de fato, disputam o direito da mesma coisa? De forma alguma. Aqui não temos senão uma confusão de esferas de investigação. Citemos o russo: “pois o fato de que, do ponto de vista da observação, a razão e a vontade não passam de secreções do cérebro, e o homem, seguindo a mesma regra, pode proceder de animais inferiores num remoto período de tempo desconhecido, não faz mais que explicar, por um lado novo, uma verdade não disputada a milhares de anos por todas as religiões e todas as teorias filosóficas... Que os homens descendam do macaco num remoto período desconhecido de tempo é tão compreensível como o fato de terem sido formados de barro num período determinado (no primeiro caso, x é o tempo; no segundo, o processo).” (Tolstoi, Guerra e Paz, 2007, p.1496 – [essa numeração parece, mas não é uma data!]). A mágica dessa citação é mostrar como é supérflua a disputa que hoje se faz em torno dessas infames polêmicas. Tão supérflua que a vitória de um lado não dá recompensa nenhuma, nem prova nada contra o outro. A desmistificação da crença nessa diferença entre ciência e religião precisa ser encorajada porque, apesar da aparente facilidade da demonstração de sua inutilidade, ambas ainda se combatem hoje acirrada e inflamadamente. Já passou da hora de ver que a ciência não é antagonista do ideal religioso, e nem o ideal religioso antipatiza com o ideal científico. Ambos convergem com relação ao destino perseguido, a saber, o ideal ascético, de redução, negação do que é grande e abundante; abreviação e economia de explicações. A relação da ciência com “o ideal ascético [da religião] não é antagonística em si, ela antes representa, no essencial, a força propulsora na configuração interna deste.” (Nietzsche, 2007, p. 141). De fato, não nos enganemos mais sobre a dependência nítida que a ciência tem de formas mitológicas de orientar a formalização de sua verdade, maneiras de enriquecer os seus pressupostos, sem os quais ela restaria sempre exposta e frágil, à beira da falência de seu crédito hipotético. Toda forma de metafísica, popular ou acadêmica, é uma maneira de antecipar a verdade com um molde subjacente, fortalecendo e adaptando o homem e a cultura para o seu acolhimento.  “Não existe, a rigor, uma ciência ‘sem pressupostos’, o pensamento de uma tal ciência é impensável: deve haver antes uma filosofia, uma ‘fé’, para que a ciência extraia dela uma direção, um sentido, um limite, um método, um direito à existência.” (Nieztche, 2007, p. 139).

terça-feira, 17 de maio de 2011

Vai aí uma apresentação técnica da minha dissertação (já que ninguém foi à defesa). Não tem nada de muito atraente, mas assim como ser feio nunca foi motivo para alguém ficar em casa sábado à noite, também eu não tenho pretexto para não publicar minha apresentação num blog, por indiscreto que isso seja. Acredito que a modéstia é um luxo de quem já tem fama. Aos coitados como eu, não há vergonha alguma em fazer uma auto-publicidade. Arrogância seria pressupor que ninguém poderia fazer um uso, às vezes melhor do que eu mesmo, disso aqui; afinal, é o temível Kant, explicadinho em miúdos. Alguém pode fazer proveito. Depois, o blog é um bom jeito de guardar um registro on-line para mim mesmo. Assim, pois, aqui a tenho: a dissertação apresentada sob o título de “Kant e a nova abordagem da Filosofia” é basicamente uma apresentação do problema da Crítica da Razão Pura à luz da reconstrução do seu sentido histórico.

O problema da obra é permutável com o problema da metafísica (que significa o problema da razão pura) e o seu sentido histórico corresponde ao seu papel específico no final da linha conduzida pelos antecessores. Por isso, em grande parte, esta dissertação trata do modo como as questões da filosofia transcendental modificam e englobam as interrogaçõe de Descartes, Leibniz, Locke, Hume, entre outros. A rigor, o processo observado utiliza diversos instrumentos argumentativos. Kant em parte refuta o racionalismo e o empirismo, em parte aproveita de ambos seus melhores pontos, administrando sutilmente os elementos disponíveis a fim de construir uma visão nova de toda a problemática, conhecida por dialética, e expressão máxima das ilusões da razão pura que caracterizam a metafísica.

Essa versão do problema, por sua vez, acompanha uma abordagem nova da metafísica, e uma subseqüente mudança de atitude filosófica. Uma vez que a filosofia é a idéia de uma ciência que explora a relação de todos os conhecimentos com os fins essenciais da razão humana (A839/B868), podemos concluir que a idéia dessa ciência assumirá um valor diferente para cada maneira de considerar a razão humana e seus fins essenciais. Com efeito, o racionalismo e o empirismo têm diferentes visões dos limites e do alcance da razão humana. Por conseguinte, chegam a diferentes perspectivas de filosofia. Para o primeiro a filosofia é dogmática, isto é, compromete-se com a soberania incontestada da razão pura no envolvimento com seus fins essenciais. Para o segundo a filosofia é cética, isto é, não acredita no alcance incondicional da razão pura sem interferência dos sentidos.

Através da caracterização dogmática e cética Kant descobre um sentido filosófico correspondente ao modo como se admite o alcance da razão pura para condicionar o conhecimento. Desse modo, o centro da questão torna-se a respeito dos limites do conhecimento. E a questão chave usada por Kant para discuti-la é a questão sobre a possibilidade dos juízos sintéticos a priori, que dão conhecimentos pertencentes à classe da Física, da Matemática e da Metafísica – em oposição aos conhecimentos analíticos da Lógica e aos contingentes dos juízos sintéticos a posteriori. Para resumi-lo, a possibilidade dos juízos sintéticos a priori depende de uma doutrina sobre a forma da experiência, explorada por Kant em duas fases. Na Estética Transcendental e na Dedução das categorias puras. O seu nome é idealismo transcendental. O característico nesta doutrina, como argumentamos no trabalho, é a mudança de foco para a ideia de forma, em oposição a uma abordagem simplesmente material da questão do alcance do conhecimento. Esse deslocamento permite a Kant explorar uma nova dimensão da discussão, inacessível a seus antecessores: a dimensão transcendental do problema da razão pura.

A razão não é mais considerada dogmaticamente (como se alcançasse a matéria da coisa em si) e nem ceticamente (como se dependesse irremediavelmente da matéria contingente dos sentidos). A dimensão transcendental da razão pura descortina a perspectiva puramente formal da coisa em si, isto é, esta considerada unicamente como uma realidade transcendental, fonte de ilusões dialéticas – e incognoscíveis do ponto de vista empírico (que é o único relevante para a ciência). Assim a questão material da coisa em si é trocada pela questão formal a respeito das condições de possibilidade de alcançá-las. O idealismo transcendental não é senão a contraparte do realismo transcendental, e é compatível com um realismo empírico, que por sua vez é a contraparte de um idealismo empírico. Essa troca conclui o que chamamos de subsunção sistemática de problemáticas da modernidade e, segundo argumentamos, ela é um modo de radicalizar a problemática da metafísica – e da razão pura – até ela assumir um valor novo.

Parte central da dissertação aqui apresentada é pressupor um sentido histórico da questão cartesiana. Adotamos uma metodologia que considera a linha de Descartes, Leibniz, Locke e Hume, onde o último com seu ceticismo representa o passo mais próximo da radicalização completa do problema e por isso esse é o responsável por acordar Kant de seu sonho dogmático. O problema cético, no entanto, precisa também ser radicalizado até não parecer um simples problema empírico acerca do alcance psicológico do conhecimento, mas sim um problema mais amplo a respeito da tendência inevitável da razão pura a transcender seus limites. Semelhante golpe de visão global acaba por demarcar todo o horizonte dramático do contexto da metafísica. Tendo estendido dessa maneira os limites da problemática moderna, pressupomos que se chegaria a uma revolução copernicana da filosofia, uma abordagem crítica do problema da razão pura, e uma subseqüente atitude transcendental a respeito da metafísica.

Isso, no entanto, faz com que a metafísica se confunda parcialmente com as características transcendentais, e perca resquícios da sua carreira ontológica antiga, bem como a teológica. E assim, a idéia da filosofia como a ciência que administra a relação de todos os conhecimentos com os fins últimos da razão pura sofre um último condicionamento. Kant chamou de filosofia transcendental uma espécie de sucedânea da metafísica no sentido crítico de sua exploração da razão pura, e são as características dessa qualificação transcendental que nos interessará discutir no fim da dissertação. Assim, o nosso problema é uma reprodução do problema de Kant, interpretado como uma subsunção sistemática das questões modernas até devolvê-las um caráter radical, que explora uma nova vocação à metafísica, como Filosofia Transcendental.

Enquanto os dois primeiros capítulos são uma apresentação da linha de problemáticas que culmina no desafio cético de Hume, e finalmente é englobado por Kant em uma dedução transcendental dos conceitos puros, o terceiro e último trata de explorar essa nova caracterização da filosofia, decorrente da maneira transcendental de substituir a metafísica, e a maneira crítica de abordar a razão pura. O idealismo transcendental, como doutrina subjacente a essa nova abordagem da filosofia, tem um sentido epistemológico supostamente óbvio, uma vez que sacrifica a cognoscibilidade da coisa em si em favor de uma doutrina das condições empíricas do conhecimento. Porém, o que está por trás da cortina da experiência não é rigorosamente impenetrável: como vemos no ideal da razão pura, existe um sentido prático diretamente proveniente da realidade noumenica, que nos dá inclusive comandos morais e justifica a fé. Portanto, não é tão óbvio assim que a coisa em si seja um mero modo de consideração transcendental do objeto, que no nível de reflexão empírico tivesse realidade plena. Esse impasse reflete o embate entre Strawson e Allison. A nossa dissertação adotou a argumentação de Allison de que o idealismo transcendental de Kant não implica um psicologismo (fenomenalismo), mas rejeitou a sua interpretação meramente epistêmica, pois nela o peso da problemática da coisa em si é diminuído até não sobrar senão uma espécie de metodologia da ciência empírica.

O capítulo três – e último – tenta discutir o caráter do idealismo transcendental pelo seu valor para modificar a abordagem da metafísica e, consequentemente, a própria filosofia. Portanto, por um valor maior do que o de ser uma mera propedêutica da ciência. Discutimos a visão de Lebrun e Bonaccini, para quem a problemática da coisa em si guarda uma inevitável aporia, o que corresponde ao fato de que o problema da razão pura é uma dialética inevitável. Discutimos também a visão de Heidegger em A tese de Kant sobre o ser, onde é proposta a interessante tese de que a lógica transcendental e os postulados do pensamento empírico em geral são maneiras de explicar as modalidades do ser e, portanto, a doutrina transcendental é uma adaptação da ontologia para um conceito pós-científico da filosofia. Nossa interpretação, coincidindo com Bonaccini, Lebrun e Siemec, adota a posição de que a filosofia transcendental não é nem primariamente ontológica, nem primariamente epistemológica, mas, porém, a antiga problemática metafísica está presente no modo de pensar epistemológico transcendental, que não é, portanto, uma mera propedêutica da ciência.

Na última subseção discutimos a coincidência entre o caráter da filosofia transcendental e a sua vocação não natural, usando o apoio de Husserl em A idéia da Fenomenologia. E concluímos a dissertação com a ideia de que a solução kantiana do problema da metafísica envolve a o postulado de seu caráter não natural e essencialmente problemático, motivo pelo qual não goza do mesmo sucesso das ciências empíricas e a lógica. A nova abordagem da Filosofia derivada dessa caracterização da metafísica é essencialmente não dogmática e nem cética, porém, não é especialmente epistemológica ou ontológica, e nem pertence a uma região própria. O importante é ter em mente que Kant preserva a filosofia como filosofia primeira, pois o peso e o valor de seu questionamento não se pode reduzir a uma abordagem natural e a uma propedêutica da ciência.

É viável se perguntar se dessa maneira a própria história da filosofia não é a narração dos diferentes modos como a metafísica é colocada em questão durante as passagens de épocas e gerações. É compreensível que em uma época obcecada pelos resultados práticos da ciência experimental, esse questionamento tenha o caráter de uma procura por fundamentos seguros e objetivos para o conhecimento. A diferença entre uma fase ontológica, outra epistemológica e ainda outra lingüística seria fundamentada em um traço comum e mais geral que elas próprias: o modo como cada época se questiona a respeito das aporias, dilemas, antinomias e paralogismos inevitavelmente presos àquele que as pensa (para Kant, este seria o ser racional, e estas questões seriam justamente as da metafísica). Isso simplificaria a explicação do fato de que as discussões desde Platão quase sempre mudaram pouco, porém degradaria também nossa compreensão teórica da filosofia, a diminuindo a um gênero não acadêmico ou intelectual: algo como um conjunto teórico de questões que nascem não de uma leitura sistemática ou uma formação universitária, mas de um ato, uma atitude, ou uma perplexidade metafísica: “Metafísica enquanto filosofar, nosso agir próprio, humano” (HEIDEGGER, 2006, p. 5).