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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Velho oeste medieval

Pelos meados do século XV os reis de Espanha, nação cuja reputação de superstição e intolerância durou séculos, expulsaram de suas terras sob decreto de morte todos os Judeus. Este povo, acostumado às movimentações diaspóricas, encontrou um asilo insincero nas graças suspeitas de Dom João de Portugal, que pelo favor lhes cobrou oito escudos por cabeça. Sem alternativa, os escolhidos de deus não puderam sequer participar da pechincha, e como o são todos os mais fracos, explorados, cederam sem reclamar. A condição não incrimina o rei: pondo preço em sua bondade, deixava expresso o caráter comercial de seu interesse e não se pronunciava como aliado de nenhuma parte, evitando desmoralizar a autoridade do vizinho castelhano. Assim funciona o mercado: é preciso medir o seu preço pelo dos outros comerciantes para competir. Negociando o que é certo ou errado, no entanto, o rei endividava a própria consciência. É o peso da coroa, tomar decisões difíceis.
 Como bom vendedor, para todos os efeitos, prometeu além do asilo o transporte para a África. Que satisfação pessoas nascidas na Europa poderiam ter com essa proposta de despejo? Quem pergunta esquece talvez a motivação independente fornecida pela carinhosa e abençoada instituição religiosa conhecida pelo nome invocativo de Santa Inquisição. Seu eco sugeria calafrios mesmo em não-Judeus da época. De modo que pagar para estar longe dela não podia ser assim um mau negócio na mente de um, ainda que tivesse que abordar a África selvagem e muçulmana para livrar-se da condenação histórica perene que lhes fazem os cristãos pela responsabilidade da morte de seu precursor espiritual. A proposta, a princípio desencorajadora, podia ao fim do raciocínio soar mesmo imperdível.  
Dom João lhes impôs um prazo, após cujo vencimento os reduziria à condição conveniente para terras de sectários fanáticos de cristo: a escravidão. Afinal, não era de se esperar que o interesseiro monarca fosse arriscar-se a uma controvérsia com o vizinho por causa de meros Judeus. Na contagem final do tempo concedido, verificou-se, entretanto, que o número de embarcações era escassa e precária. A frota se distribuía desorganizadamente ao longo do porto de Lisboa no dia da viagem. Em seu convés porco, fitando maliciosamente os novos passageiros de sua majestade, se empoleiravam vulgares marinheiros de sensibilidade engrossada pela força da circunstância, gordos e sujos, ou robustos de trabalhos braçais, criaturas de profundos preconceitos e vasta ignorância. Grandes gigantes de roupas largas e rosto moreno lascado pelo sol, animais de gestos bruscos e voz forte, displicentes e comediantes profanos, sem respeito por nada exceto por suas superstições marítimas e religiosas. Observando seus companheiros de viagem, a grande população de exilados, como cães maltratados habituados à desconfiança, reconhecia-os como essa classe de homens simples e obedientes que há em todo povo, até mesmo inofensivos, mas sempre prontos para tirar vantagem sem remorso das margens permitidas pela sua própria tradição. E o que eram eles, Judeus - o nome diz tudo - naquelas embarcações, senão mercadorias de menor valor que as comercializadas? Quem notaria ou cobraria uma avaria em seu corpo?
Viajar embalados de um lado para o outro como ciganos anônimos era o seu resignado destino. Os que puderam embarcaram; os que sobraram esperaram. A data de expiração fora prorrogada. E enquanto isso os deixados para trás fundavam raízes em Portugal com seu talento sempre louvado para o cálculo e o dinheiro, sua intimidade com as nuances virtuais da moeda, sua face viciosa, capaz de gerar inflações e levantar riquezas através da sacrílega economia de promessas e juras, modificações do crédito. Séculos de servidão lidando com a contabilidade da casa de fidalgos lhes antecipou a vocação para especuladores, que hoje tanto se aplaude nos operários de Wall Street. Para os cristãos, fazer dinheiro nascer do dinheiro daquela maneira não poderia parecer menos que bruxaria, pacto com o demônio. Explorar o valor do valor, o crédito da moeda, coisa blasfema de anticristos, vendendo a fé que só se deve a deus. Motivos e superstições para odiar Judeus fecundavam.
Os que conseguiram embarcar rumo à África sofreram o peso das humilhações, maltratados como vira-latas indesejados, fretados tal qual um pacote de má sorte forçosamente tolerado. A primeira nuvem de ruins agouros levantou na tripulação o desejo de arremessa-los ao mar. Eram responsabilizados por qualquer empecilho. O que era uma viagem ao continente encostado se transformou em uma ida e vinda interminável, posto que os passageiros ilustres do rei fossem tudo menos prioridade. Submeteram-se a um elenco pródigo de escalas comerciais enquanto seu suprimento pessoal ia chegando ao fim. Como não tinham exatamente o direito a uma opinião, nunca lhes fora dada uma estimativa do destino. E com a resignação e paciência hebraica de quem espera ser desagravado por um deus vingativo, singraram mares pagando caro para comer e beber da provisão dos seus carrascos pilotos. Essa condição se estendeu até o ponto absurdo de desembarcar com apenas a camisa do corpo: um figurino atraente para começar a nova vida em um terreno hostil, não bastando já o estigma do povo execrado – e escolhido.
A notícia do transporte abominável chegou aos ouvidos dos que ficaram e os conformou com a alternativa de se estabelecer em Portugal, como servos. O sucessor de João, o célebre Manuel patrono das navegações, aboliu a sua miserável situação concedendo o benefício dos direitos políticos. Porém, a liberdade não os converteu a cristãos e o povo de Abraão permanecia instanciando as leis como estrangeiros sem raízes, o que seria a sua tragédia até o século XX. Faltava sempre a confiança, o benefício da dúvida, para que lei pudesse ser interpretada da mesma maneira com relação a eles e os outros súditos. Sua presença instaurava essa desproporção na distribuição do crédito social que cativa os pobres e alimenta a impunidade dos ricos, faz escravos mesmo numa democracia. O rei esperava ingenuamente que o apego pela Europa e a terra de Portugal, onde já tinham granjeado riquezas, mais a intimidação dos marinheiros e o conforto de uma terra conhecida, houvesse lhes influenciado ao cristianismo. Subestimou a reconhecida obstinação de ânimo religioso desses herdeiros inveterados do antigo testamento. Não demorou a que, mudando de opinião, Manuel lhes ordenasse a saída do reino. Nem assim ganhou o monarca novos súditos. Os perseguidos infelizes preferiram enfrentar o temperamento imprevisível dos piratas que decepcionar seu deus antigo.       
     Manuel, frustrado, suprimiu dois dos portos assinalados ao transporte dos estrangeiros. Assim radicalizava as consequências da decisão dos firmes circuncisados, os forçando a colher apenas desvantagens dela. E qual a vantagem disso para o rei? Por um lado intimidava mais passageiros, temerosos de compartilhar uma nave pequena com ambiciosos e agressivos animais do mar em um percurso agora ainda maior. Com efeito, alguns judeus, encantados pelos seus próprios tesouros, não temiam nada mais que um saque. Por outro lado, dessa maneira facilitava a execução de seu plano de separar os pais dos filhos menores de quatorze anos, os aglomerando todos em um mesmo cais. O projeto macabro envolvia a possibilidade de recrutar os jovens ao cristianismo em um período mais liberal da educação.  
Novamente fora subestimada a paixão e fidelidade dos banidos. Ou talvez fora superestimada a incondicionalidade do seu amor à vida dos próprios filhos. Cercados pela milícia do Estado, percebendo que lhes roubavam dos braços os primogênitos, por egoísmo e compaixão, essa miscigenação insana de emoções, se lançaram aos fossos do mar junto com os filhos, deixando-se esmagar pelos navios que descansavam rente aos muros do porto. Um espetáculo horroroso de sacrifício calculado, resignado e cruel registrado por Bispo Osório, historiador latino. Poupavam os filhos da violência que não conseguiram impor aos pais, os banindo da própria vida, sentença radical talvez demais para quem não teve sequer opção do livre-arbítrio ante os dilemas sufocantes que acometiam aquele povo de compleição estóica. É como se arrastassem uma lógica maldita: se houvesse algum futuro cristão entre os precoces projetos de homem, os pais não faziam mal em vingar a desonra os chacinando e, a respeito dos firmes moleques que em circunstância normal não negariam as raízes, lhes prestavam o serviço de salvá-los de uma vida imperceptivelmente vivida na fé errada. Portanto, praticavam essa regra fatídica dos pais: decidir sabendo que os filhos lhe agradecerão no futuro. Exceto que nesse caso não haveria ocasião futura de agradecimento, a não ser na outra vida, aquela de felicidade eterna, para onde as almas iriam na condição de não aceitarem o falso Messias, o cristo. Vê-se que o egoísmo dos pais vale fácil por altruísmo.  Finalmente, esgotado o prazo de partida e sem meios de transporte, os Judeus remanescentes retornaram à servidão, condição na qual construíram sua micro-história e sua participação na rede de negociação da liberdade, deixando seu testamento paralelo aos séculos e ciclos de ideias que nós, muito orgulhosos, lemos nos livros e documentos contados pela versão dos vencedores, convencidos de que nasceu tudo de uma peregrinação espontânea do espírito livre da humanidade.
Uma minúscula fração se converteu ao cristianismo. Nunca se pôde acusar hipocrisia à fé e identidade desses assolados.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Montaigne e suas histórias

O autor dos Ensaios nunca pára de me surpreender com o volume inesgotável de contos, sua inclinação para testemunha, registrando causos que vão desde relatos populares até  detalhes de batalhas épicas. Comungando da intimidade de provincianos de feira como da de reis antigos e generais ilustres, Montaigne é o verdadeiro contador de estórias, o pescador do universo filosófico. Com efeito, seria preciso muito ouvido, muito tempo dispensado ao mundo, para colecionar tanto assunto e matéria de sucessos dispersos e desconectados. Talvez não bastassem menos que cinco ouvidos, tímpanos esponjosos para a voz de mais de um mundo, uma vocação extradimensional. E não era o autor o dono exclusivo de uma sensibilidade caótica, como ele mesmo reconhece ao se identificar com um escritor de rapsódias? Mas sobretudo, que fez delas o seu talento, ajudando a parir um gênero literário, uma nova maneira de tabalhar nessa oficina de recortes, cola, costuras de letras, imagens e formas. Sua mais extraordinária ferramenta de espírito é justamente essa receptividade para o fragmentário, sua fecundidade de perspectiva e ubiquidade regional. Quem tem ouvido para tantas vozes não pode jamais ser um provinciano.
E é por isso que muita gente há de ficar cismada, pasma, de ler as pitorescas coisas que esse aristocrata do século XVI tinha para contar. Seu exemplo deixaria sempre um pouco constrangidos esses historiadores das ideias que nos garantem que até o conteúdo da imaginação tem data de vencimento e de nascimento. O que diria, pois, do que tinha Montaigne a dizer de suas formigas? Está documentado em um de seus ensaios que, observando os dois formigueiros sedidados em seu terreno, acompanhou o cadáver de uma formiga do formigueiro A ser carregada ao formigueiro B – o contador não diz nada sobre a morte da conduzida. Em seguida jura ter observado uma comissão de membros do A indo negociar o cadáver, levando folhas e gravetos como um gênero rudimentar de propina para o resgate. Tudo isso é contado sem a menor sombra de absurdo. De modo que fico a imaginar que espécie de sensibilidade e inteligência era essa. Sua interpretação meio louca dos fatos passados no microcosmos de seu quintal deveria ser o indício de uma mente aberta até demais, até o ponto de deixar os pressupostos rigorosos da ciência parecendo preconceituosos e intolerantes.
             Em outro momento soletra a bonita estória de um leão e um desertor, cuja veracidade ele assevera como um caso comum e difundido na tradição popular da antiga Roma. Durante uma das campanhas de César, um soldado mais cheio de espírito artístico que gana de guerra abdicou de sua farda e cargo, fugindo pelo deserto. Seu destino, porém, não foi favorável e uma tempestade o forçou a improvisar pouso em uma providencial caverna onde, despertado no meio da noite, assombrado pela sombra difusa de uma criatura movimentando-se nas trevas, terminou descobrindo em sua companhia um leão enorme . O acuado cavalheiro não tinha para onde fugir, e com surpresa verificou que o felino não o assediava como um prato de boquinha da madrugada. Sua feroz catadura dissolveu-se em uma misteriosa fisionomia de súplica. Aproximando-se como um gato serpenteando a calda amistosa, deu a ele a pata dianteira como uma dama esperando a cortesia de uma etiqueta. Hesitando um pouco, porém sem alternativa, avaliou as condições muito avariadas da pata do leão, vítima de um espinho que havia se encravado com a intensidade trágica de um prego da cruz. O solidário ex-soldado de temperamento sensível cuidou das chagas do leão e, dizem, viveu com ele pelos próximos anos, compartilhando comida e bebida, até que foi capturado pelos policiais do exército que patrulha os rastros dos desertores. De volta a Roma como um cativo, sua sentença era o coliseu. Passou um ano preso esperando a prodigiosa lista de espera para uma audiência pública com o dedo polegar de César. Quando finalmente chegara sua vez de ser comido pelos leões, a platéia histérica do grande circo de horrores romano com surpresa observou que a investida do animal contra o cativo indefeso desembalou inexplicavelmente a apenas um passo de distância de seu almoço. Frustrados em sua ambição de sangue, uivaram contra a clemência audaciosa do irracional, protestando aquela abstinência repentina, aquele arbítrio disciplinado da fome animal. Quem perdoa é só César! Os que morrem na arena apenas o saúdam - aqui acabam seus direitos. Maior foi a surpresa quando homem e animal entraram em uma estranha carreira de abraços e afagos, ronronando um e chorando o outro com a energia sensível de velhos conhecidos que se haviam dado por mortos. A emoção da audiência não podia ter sido maior em um desfecho de Eurípedes, e o grande polegar do imperador se pronunciou virado para o céu, expressando grande entusiasmo e correspondendo ao desejo do povo.  Montaigne conta, com seu habitual tom de normalidade e indiferença, que leão e homem foram libertados e viveram o resto de seus dias de mortais na Roma como dois amigos inseparáveis, verdadeiros retratos de uma fábula impossível, muito estimados e celebrados pela vizinhança como personagens autênticos de um final feliz.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Mais sobre a defesa de uma nova emancipação da filosofia (sobre os efeitos administrativos de um anti-naturalismo)

Existe uma economia geral dos sucessos do conhecimento: consiste na totalidade dos modos como ele valida a si mesmo ou administra recursos de validação, instituindo moedas fundamentais do comérico acadêmico, a saber, paradigmas fundados em instituições universitárias poderosas. Em algum ponto da história esse processo geral tinha pressupostos metafísicos mais nítidos; sua ligação com a religião, com os interesses do Estado, ou simplesmente a sua raíz linguística era mais transparente. A filosofia em todas as suas nuanes foi por muitos séculos a disciplina onde se discutia todas as formas dessa transparência, fosse fundando novas metafísicas, fosse discutindo ideias políticas ou os pressupostos epistemológicos e linguísticos subjacentes a um padrão paradigmático bem sucedido – hoje a Física, a Química, a Antropolgia, etc. Até pouco tempo atrás, a natureza geral da negociação entre a produção de conhecimento e seus instrumentos de validação faziam parte de uma mesma mistura, de modo que não se distinguia ciência da filosofia do mesmo modo como hoje se tornou trivial. Newton fazia um tratado de filosofia natural. O conteúdo das teorias era imiscuído com a semente da especulação filosófica, de modo tão inseparável, que seria difícil filtrar onde terminava um e onde começava o outro. Mas o tempo passou, os próprios filósofos começaram a desconfiar demais de si mesmos e reconhceram sem demora que toda aquele dejeto metafísico não passava de um reflexo objetivo das formas da experiência humana. O positivismo logo se aproveitou de tal constatação, pedindo sem reserva a emancipação completa das ciências. E mesmo agora que não se encontra mais positivistas pela rua ou pelos corredores, a ciência se acostumou tanto com o seu confortável lugar que não admite mais qualquer interferência externa à sua metodologia. Suas bancas e departamentos universitários são verdadeiras máfias a serviço de um paradigma, uma zona de conforto muitas vezes degradante. O naturalismo filosófico predominante nas últimas décadas é reservado o bastante para não defender teses positivistas, mas preserva e protege as suas conquista ao questionar o suposto poder de um método alternativo e alienígena que pretendesse dar regras primitivas – como categorias puras – para ler a experiência e interpretar a cultura, controlando de fora a economia inteira do comércio acadêmico do conhecimento. Isso seria quase como um socialismo! Um despeito, um ataque dos inimigos da sociedade livre. Abaixo à filosofia!  Assim são suas palavras de ordem: “nós cientistas fazemos nossa própria revisão. Não existe lógica, gramática, metafísica ou epistemologia, a não ser a epistemologia consorciada com a nossa própria metodologia. O essencialismo e a analiticidade são mitologias opressoras! Se precisarmos de apoio, temos tudo de que precisamos na própria ciência. Apelamos à teoria da evolução, à psicologia, à psicanálise, até à antropologia. Em último caso, tudo se explica pelas teorias mais gerais da Física, a mãe ciência. Não temos a explicação para tudo, mas não precisamos dela. Revisamos a nós mesmos”. E, no entanto, não vejo hora melhor para atacar esse funesto naturalismo, reivindicando contra ele uma tese administrativa. Não tenho propensão para revolucionário e provavelmente nunca irei me engajar em lutas. O que não me custa a despesa de pedir uma volta da filosofia em versão administrativa, uma plantação severa de instituições que zelem pelo interesse filosófico – regulada por pessoas saídas do curso de filosofia – em todas as camadas da academia. É natural que isso soe falso e um pouco pretensioso. Hoje, no entanto, não vejo nada mais ao qual pudesse aplicar minha energia e estou bastante disposto a me engajar nisso, pelo menos elaborando textos de blog - o que é um início.

sábado, 12 de novembro de 2011

A situação política do departamento de filosofia na universidade


Por filosofia não se entende mais o mesmo que na Grécia antiga, na Idade Média e nem mesmo no século XIX. É verdade que essa disciplina talvez seja hoje mais ou menos como um país sucateado ao qual permitem continuar com o nome, porém não tem mais exército e nem consciência de sua própria unidade. É uma peça de museu conservada por condescendência. Para não aprofundar o assunto, especulo que a perda de sua peça mais fundamental de artilharia foi a causa principal dessa tolerância condescendente com que é abordada nos departamentos da universidade. Que peça? A metafísica. Desde que Kant fez sua cirúrgica incisão nas asinhas dessa – a salvando, porém, do ataque de açougueiro de Hume, que queria comê-la no jantar – é impossível formular as suas questões sem um laivo de vergonha íntima. Quem irá aprofundar os interesses da razão até suas perguntas mais fundamentais, agora, especulando sobre deus, a liberdade, a alma, etc? Ninguém. A não ser os religiosos e seus derivados, que sempre tiveram a vantagem da falta de vergonha.
O projeto de Kant era tão prometedor, limpando o terreno rugoso e ilusório das pseudo-questões, encarregando a filosofia com novas maneiras de cuidar dos interesses da razão, uma função  talvez muito mais nobre como fiscalizadora “Crítica” dos fins da Cultura, que não se podia imaginar – pelo menos à época – que os positivistas o usariam de pretexto para reivindicar a autonomia vingativa das disciplinas científicas! – ciência entendida, agora, pela ênfase no seu caráter tecnológico (o que não é menos verdade nas ciências humanas). E isso, não se enganem, é uma questão apenas colateralmente filosófica. A manobra foi política. As repercussões dessa conquista ainda são sentidas hoje nas universidades: matemáticos, engenheiros, químicos, físicos, antropólogos, cientistas econômicos e sociais, historiadores e psicólogos, gritaram a sua independência e fazem dela o seu proveito político e administrativo - embora os benefícios intelectuais sejam bem mais suspeitos.
Porém, quando se pretende arquitetar, avaliar, julgar e criticar – assim como superar eventuais crises – os resultados cognitivos dessas disciplinas, os seus especialistas tentam sozinhos e a trote de cavalo, com grande estardalhaço de suas ferraduras, aprofundar a compreensão de suas perguntas e problemáticas. Procuram pontos cegos, investigam a história dos sucessos e fracassos, entram no debate da validade e projetam achar os pressupostos epistemológicos e semânticos de sua metodologia. Mas, quando fazem isso, estão justamente cuidando novamente dos fins últimos da razão. Será que estão fazendo infame "filosofia", ainda que como um barbeiro dançando balé? Mas isso é questão de nomenclatura. Chamem como quiser, a verdade é que existe e nunca deixou de existir – mesmo nas épocas de crise mais dramáticas – as perguntas que revelam um interesse da razão com seus próprios fins arquitetônicos mais típicos. Se elas são feitas através de metafísica vulgar, popular, ou através de epistemologia e uma compreensão da bases metodológicas, isso é outra questão. Eventualmente um grande gênio surge nas ciências tecnológicas, como alguns lógicos do nosso departamento saídos do curso de Engenharia, e o seu desembaraço técnico é tão grande porque a sua sensibilidade já ultrapassou desde o começo o paradigma particular de onde nasceu: o seu contato com a ciência já é sempre, também, filosófico, isto é, coincide com um envolvimento radical dos desafios da razão pura – da Cultura - que ele enfrenta. Ele nunca especula no vazio, como os matemáticos sem uma compreensão de número, os historiadores sem uma compreensão de história, os antropólogos com uma versão técnica de homem. Acaba, entretanto, mofando no departamento de Filosofia, embora sem prejuízo de sua celebridade, pois ninguém poderia prestar atenção a ele na engenharia – seu nicho original.
Apresento um quadro exagerado, propositalmente. Na realidade, há mais miscigenação de interesses e intersecção de negociações entre a filosofia e as ciências na universidade do que deixei parecer acima. Principalmente nas ciências humanas, estuda-se muita filosofia e os professores de ciências sociais e psicologia não ignoram essa necessidade. Muitas vezes, ainda assim, sinto como se essa condescendência não fosse uma homenagem, mas uma trapaça: é porque se equilibram em paradigmas imaturos e metodologicamente flexíveis que exploram uma aliança oportunista com a filosofia, de onde retiram apoio ad hoc sempre quando se sentem em perigo. Não é se de se esperar de trapaceiros como esses que, se um dia puderem consolidar seus paradigmas com tanto sucesso como os físicos, vão abandonar sem escrúpulos a sua muleta filosófica? Uma coisa que aprendi é que somente o próprio interessado deve cuidar dos interesses. O interesse da filosofia não será melhor considerado do que dentro do seu próprio departamento, por mais defeituoso, vaidoso, imaturo que seja. Não será preciso que, em uma resposta também política, o departamento de filosofia assuma suas responsabilidades e explore a dependência dos outros cursos com relação a ele? – pois é óbvio que essa dependência existe, mas por não ser explorada, ocasiona esse festival febril de besteiras intelectuais frequentes quando um químico, um historiador e um antropólogo se aventuram a criar e especular com mais ousadia sobre o próprio campo.
Ora, os cursos técnicos e científicos em geral mudam a sua abordagem quanto mais se tornam acadêmicos em sentido estrito, isto é, quanto mais escalam os compartimentos institucionais da academia, indo para o mestrado, o doutorado e a carreira universitária. Essa mudança de abordagem é proporcional a um gradual acréscimo de dependência e imaturidade, pois é deste momento da escada em diante que vão deixando o terreno seguro de seu paradigma e se expondo ao mundo da cultura e dos conflitos da razão em sua expressão selvagem. É natural: quanto mais o interesse técnico declina em favor de um interesse puramente cultural, mais inútil se torna tudo o que ele aprendeu. Nesse momento aparece claramente a dependência com a filosofia, que os filósofos de hoje – maus políticos, coitados – não exploram.

Naturalmente, para quem quer sair da universidade e correr para alguma empresa ganhar dinheiro de verdade, não precisa se preocupar com isso. Mas para quem almeja seguir a carreira intelectual, deveria – e muito  - considerar tal preocupação,  e se não o faz, é apenas por ausência de pressão de quem deveria lhes pressionar. O departamento de filosofia deveria de uma vez por todas assumir a sua responsabilidade na liderança da Universidade; e deveria meter o nariz com uma impertinência épica em todos os outros departamentos, plantando fiscalizadores que selecionassem com o rigor devido a ambição de ser “doutor”, ou philosophical doctor. Esse projeto levaria os filósofos a serem os legítimos chatos da universidade, a pedra no sapato monumental de todo cientista medíocre que almejasse ter um título gratuito de doutor no seu currículo. Não importa. Se a responsabilidade não for deles, será de quem? Não há outros mais interessado nem mais imbuídos com a responsabilidade de salvar a cultura do interesse mesquinho, seja do dinheiro, seja da simples vaidade gratuita de pseudo-intelectuais com sede de títulos.
A sociedade não precisa de tanta gente instituída na academia. Se quiser ser doutor filosófico (Phd), é preciso saber aprofundar filosoficamente as questões de sua própria disciplina, tratar com desembaraço suas questões, entender a raiz e se expor aos desafios mais elevados da Cultura. É preciso mais que isso: pagar tributo a quem pensou a nossa cultura de maneira mais radical: Platão, Aristóteles, Kant, Frege, etc. É preciso passar pelo crivo Crítico. Se não, há sempre uma opção: sair na graduação e render seu tributo à sociedade com seu trabalho. É tão digno quanto. Esse projeto parece inviável? Sim, mas apenas porque o departamento de filosofia tem uma tradição de docilidade e inofensibilidade marcante. Um conjunto de investidas, debates, meteção de nariz, nos levaria direto para uma posição estratégia na estrutura acadêmica, e não deixaria nenhum curso fora de nossa abrangência. Acuados, tentariam se defender apelando para recursos técnicos, e assim acusariam mais ainda suas fraquezas, mostrando que são tão competentes quanto pedreiros intelectuais, operários de ideias, como Quasimodo em Notre Dame: sabe tudo dentro de sua igreja, mas lá fora é como um tubarão em poça d´água. Pode parecer utopia, inviável do ponto de vista financeiro, mas eu penso que não: é mais fácil do que se pensa. Quem já viu a insegurança dos professores dos outros departamentos toda vez que um filósofo está presente na banca, sabe pelo cheiro de medo que a universidade não esqueceu essa dívida remota, e teme mais que tudo uma cobrança. É hora de cobrar. E não se trata de poder pelo poder: é questão de responsabilidade, dever; reassumir a posição que lhe convém como guardiã da cultura.


Apêndice

Agora uma questão técnica. A dependência entre as ciências e a filosofia parece ter uma estrutura simples, principalmente quando lemos teorias como a fenomenologia de Husserl e os projetos epistemológicos de Carnap. Mesmo as teses de Quine, que relativizam enormemente a força dessa dependência, clamando inclusive por uma naturalismo que enfraquece a influência da filosofia no pastoreamento das ciências, mesmo essas teses apresentam um quadro por assim dizer simples. Chamo-lhes de simples pois tratam a coisa teoricamente e não investigam a distribuição política das vozes envolvidas no diálogo moderno. É preciso entender que na universidade hoje há departamentos cujos alunos e professores que nunca estudaram  sequer uma página de metafísica e epistemologia que, não obstante, sofrem a influência invisível de pressupostos não científicos. Como não sabem o que esperar deles, os mais inteligentes arrumam um jeito de agregá-los à sua rede teórica como se fossem da mesma natureza que todo o resto. Não fazem a separação entre filosofia e ciência. Isso leva a pensar que, na prática, a estrutura da negociação entre ciência e filosofia é bem mais complexa do Husserl, Carnap ou Quine deixam transparecer. No fundo, mesmo sem terem uma ideia dessa negociação, a prática a agrega e a torna invisível. Ora, a minha questão é, portanto, prática e segue para a política. Os autores mencionados deixam justamente de estudar a influência que a omissão ou a ação política tem no desenrolar desse diálogo. Por isso a minha proposta nesse post não é teórica. Não venho aqui sustentar um anti-naturalismo, um anti-positivismo ou uma volta aos preceitos Críticos de Kant. Venho na verdade defender que existe um espaço de negociação político que simplesmente não está ocupado: o dos filósofos. Ora, não seria preciso plantar autoridades institucionais para justificar a voz essa parte da discussão que, por falta de imposição, está calada? Acredito que, embora se saiba obviamente que um país de terceiro mundo tem influência sobre o sucesso de um de primeiro mundo, essa interdependência se torna invisível e irrelevante se não se criam vozes políticas, entidades institucionais (a ONU, etc) que zelam por seus interesses. É o mesmo que acontece com a filosofia hoje na universidade. Por algum motivo o filósofo se resignou com seu lugar subalterno. Mas eu acredito que com um pouco de "meteção de nariz", estaríamos claramente no centro da azáfama e, até mesmo, no lugar de liderança da universidade. Obviamente a dependência das ciências com a filosofia é bastante fraca na graduação dos cursos; mas, como eu disse em cima: quanto mais sobem os cargos, mais essa dependência começa a ficar visível e, acredito, é nesses pontos que quem sai do departamento de filosofia deveria cravar suas unhas e assumir um pedaço da fatia de voz. Para quem acredita que estou sendo muito ambicioso: ora, isso é uma tese administrativa! Obviamente, gênios que não precisam de universidade, autodidatas de elite, esses não precisam se subordinar a medidas administrativas que servem justamente para distribuir o policiamento intelectual e garantir - para os não gênios - um padrão de aproveitamento intelectual. Ora, um autodidata genial incluiria maneiras de reproduzir o diálogo entre a filosofia e a ciência dentro de si mesmo. Já na academia, é preciso criar, impor e até lutar pelo lugar no diálogo. Nesse nível administrativo, meu projeto é tão viável como o que está em vigência hoje: a liberdade irrestrita de pseudo-cientistas e a omissão filosófica. Portanto, não sustento aqui uma tese epistemológica sobre as maneiras como um autodidata ideal acumularia conhecimento. Minha tese se aplica à estrutura administrativa da universidade e a alunos e professores que se utilizam das garantias e regras acadêmicas para otimizar a produção de conhecimento.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

“Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais.”


 “Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais.”. Esta não é uma frase de que me posso gabar, não me pertence. Mas seu revestimento e efeito perfumado levam a julgar que o seu autor, Alexandre Herculano, não a construiu para guardar com direitos autorais, mas para vê-la gravitando de boca em boca sem fiscalização. Deixando-lhe intacto o mérito como epigrama espirituoso, empresto aqui o poder sugestivo de sua sua imagem e ajudo a propagar o seu resíduo semântico, seu célebre "significado", acrescentando com modéstia a sutileza furtiva de uma versão da minha própria boca - mais o assentimento e apoio de minha própria sensibilidade.

 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A discussão da racionalidade e os animais (não humanos)

Em um de seus polissêmicos ensaios dizia Sr. Michel de Montaigne, o aristocrata francês lendariamente encerrado em sua torre, que como nós, os animais não humanos são dotados de paixões, sentimentos de solidariedade e mesmo a capacidade de inferir. Entre um de seus exemplos, recitava o do célebre cachorro que, tendo de escolher um entre três caminhos para perseguir um criminoso, precisou cheirar apenas dois para decidir-se pela terceira – e não farejada – rota. O comportamento do cão ilustra o uso de uma forma de tirar conclusões de premissas. Imediatamente surge a ideia de que o bicho não está preso a representações parciais e contingentes do instinto, mas pode explorar padrões de generalidade, abstraindo o conteúdo da representação. Dessa ideia alguém poderia sugerir que desvalorizamos os cães. Mas Montaigne é um ensaísta cínico e por mais apreço aos animais que tivesse, suspeito que estava menos interessado em aumentar-lhes o valor que em humilhar a nossa vaidade de “animal racional”. Confesso uma inclinação a compartilhar com ele deste interesse. A lógica é superestimada: o modo como formalizamos um argumento não necessariamente corresponde a um padrão de economia imutável, um reino ideal de arquétipos. Há provavelmente sempre mais do que uma maneira de resolver o mesmo problema e ainda quando há uma mais econômica solução – a mais lógica – há outras maneiras de se formular o problema que a tornam um pouco menos fundamental. A nossa concepção egoísta de racionalidade provém dos quebra-cabeças que nos impomos e, é preciso dizer, o homem foi até hoje um mestre pelo menos em construir labirintos particulares capazes de limitar sua experiência a um padrão de formas fixas. Quem não sabe “ver” dessa maneira é tido como burro, ou irracional. Vão mais longe e dizem: lhe falta espírito, lhe falta deus. Mas o que é deus senão a invenção metafísica que expressa o crédito total de um tipo de experiência? Com essa ideia  o homem fecha o círculo de sua experiência e a glorifica finalmente como Cultura. Pode parecer difícil sair desse círculo e abri-lo a outras espécies. A própria natureza dos órgão vocais, a incapacidade de articulação linguística, parecem desafiar essa ambição. Isso não significa muito, entretanto, uma vez que a mera presença de um gato ou um cachorro dentro de uma casa automaticamente o investe com uma espécie - ainda que pouco pronunciada - de papel subjetivo; muitas vezes o papel dominador. Quem permanece voluntariamente surdo à voz dos animais no mundo, com ou sem verbo, logos, forma, não passa de um procrastinador, muitas vezes oportunista.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sr Pablo Neruda e as reflexões que ele me inspira

Sr Pablo Neruda é outro grande escritor que me ajudou a sedimentar a confiança em uma das teses diletantes que acalento com mais carinho. Porque é uma tese, e porque digo que é minha, não se segue que é original. A presunção da originalidade é só uma expectativa serpentina, que serve para desanimar as ambições modestas. Dar o crédito a quem falou primeiro por um lado é impossível e, por outro, enganoso: isso acontece porque a ideia foge do autor e tem a peculiaridade de se expor ao acesso por meios intuitivos independentes da sensibilidade particular de um único homem. Lembremos que pirâmides foram construídas no Egito, mas também no México, embora seja difícil de acreditar que o paradigma cientifico de um único homem tenha ensinado e orientado os preceitos da edificação de ambas – a menos, obviamente, que algum genial ET tenha escrito uma geometria mais fundamental que a de Euclides e divulgado pelos quatro cantos da terra nas eras antigas.
Mas vamos à tese. A prosa (sim, não a poesia) de Pablo Neruda é um verdadeiro milagre da forma, que realmente eleva a literatura ao estatuto de beleza atingido pela pintura e a faz rivalizar com a própria música. Isso me leva a pensar que a linguagem é uma arte de imagens e que a estrutura primitiva das combinações simbólicas não obedecem a um padrão gramatical fixo e nem a um esqueleto lógico canônico. A tradução entre as línguas naturais não se dá pelo emparelhamento justaposto entre sintagmas, proposições, sentenças, etc. Se dá, quando se dá, pela possibilidade de, através de símbolos, lapidar as margens da paisagem intuitiva, selecionando regiões da experiência e dando a povos diferentes, diferentes visões. 
O que lamento é que os gramáticos já tentam (há muito tempo) subsumir essa maneira improvisada e livre de distribuir o peso e graduar a substância do visível, praticado por mestres como Neruda, a regras de sua ciência de velhos enrugados sem criatividade. Fazem então um inventário do que chamam de “imagens do estilo”, as metáforas, metonímias, eufemismos, hipérboles, etc. Assim as tratam como anomalias cobertas pelo seu complexo de regras, inofensivas se utilizadas nos limites da licença poética. Isso pode ser muito útil para cientistas da língua sem talento e nem emoção, porém, esconde a perspectiva do fato de que a essência mesma da língua está aí (e essas imagens não são, portanto, um conjunto de exceções usadas por boêmios ociosos e poetas): a sintaxe outra coisa não é que a distribuição de peso pela estrutura seletiva que administra a relevância significativa. O vem depois é semântica - mas os dicionários são um feto tardio, completamente dependente do pai sintático que lhe nutre, lapida e decide a forma. Esta predominância da sintaxe sobre a semântica está presente tanto nos hieróglifos que combinam imagens de homens com bicos de papagaio, até na linguagem do cinema, que seleciona os ângulos para marcar o passo da argumentação narrativa. E isso não é uma simples questão de imaginação gratuita; mas sim de estilo. O estilo disciplina a imaginação. 
Ora, de que outra maneira isso seria feito melhor do que pelo modo de Neruda e Guimarães Rosa? São os mestres do estilo os verdadeiros pais da cultura, os juízes das perspectivas e inclusive da ciência – que só surge depois, como um corolário da metafísica e sua respectiva tentativa de colonizar a linguagem ordinária, lhe roubando a riqueza e a ambigüidade enquanto a torna rígida e precisa até o limite do matemático. Porém, mesmo os cientistas se enroscam com suas ambigüidades periódicas, e novamente são os bruxos do estilo que vêm para lhes salvar.  
Essa é a tese que sustento, que não é lá muito original, mas não importa: pois embora me ocorra o nome de um ou dois autores que lhe dariam suporte, não sei até onde esse suporte seria integralmente tolerante como é o amor de mãe e prefiro, dessa forma, ficar com a responsabilidade do que digo toda para mim. Quanto ao mestre Neruda, que me inspirou essa postagem e reflexão, vai aí uma citação que mostra a voracidade de sua criatividade estilística e a abismal energia de suas imagens. É uma tradução para o português, mas a construção não perdeu muito. Trata-se de um prefácio a Juan Rejano, onde faz uma homenagem a este cujo teor eu, coitado, gostaria de imitar para fazer a ele:
“Quando se refizerem as medalhas destruídas pela noite pestilenta destes tempos, só malferida pelas marcas valorosas da batalha espanhola e da eslava, recolheremos entre lodo e cinzas as lágrimas desta poesia, sua cauda de cristais, de tal maneira que estaremos orgulhosos pensando como passou a gaivota deixando uma estrela de platina sobre o céu escuro da tempestade terrestre, e escarvaremos essa minuciosa moeda,  flagrância estrita e esplendor, como um documento de antigos heróis, de muita idade, de muita aflição, de muita primavera também: sonetos, canções, edificados na pedra fresca do tempo ensangüentado. (...) Esta poesia não começa: havia um expectante lugar em nosso idioma para a sua diamantina estrutura.”(Neruda, 2002. P. 27)
E não haveria um lugar expectante na cultura também para as ondas de tons subsistentes propagadas por Pablo Neruda?