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terça-feira, 3 de abril de 2012

A convalescência do Samba - crônica sobre a saúde de Ismael Silva

         Ali por volta de 1924, em algum hospital instalado na cidade do Rio de Janeiro ou Niterói, estrebuchava de dores, diz-se que à beira da morte, um humilde sambista. Que fosse sambista a essa época é coisa para confundi-lo com o próprio início do samba. Falamos de uma época inacessível ao nosso intelecto, quando uma diversidade de ritmos africanos migrados da Bahia lutava para naturalizar uma identidade carioca, e que mal sabiam se passariam do próximo ano, quanto mais que teriam um nome tão ilustre e uma dinastia de rebentos tão duradoura. 
                O humilde instalado em seu leito mortuário provavelmente não desconfiava de seu papel no desenrolar dessa história. Como poderia? Mestre Ismael Silva. Por pouco então a natureza não ceifara esse tesouro de uma cultura em gestação. Nossa sorte consiste em que, vez ou outra, coincidem os interesses dessas duas dimensões, e a doença desiste sem prejuízo da ideia que ela apagaria dos registros. Viveu muito, graças a deus. Gravou até vídeo. Hoje em dia posso ver vídeos no youtube com o mestre em pleno embalo de locomotiva, fôlego cheio de energia, mostrando com os braços a origem simbólica de suas melodias. É possível desenterrar de seus gestos, o sotaque do seu corpo, a raiz dos tons que o moço ventilara ao mundo. E que conjunção mágica de acentos na sua assinatura!
                Lembro-me de escutar “Se você jurar...” a primeira vez em uma festa de pandeiro e tamborim da Lagoa da Conceição, e no furdunço de vozes e doces euforias, distinguir muito mal a letra. A força da melodia, portanto, me tinha indefeso. A voz e a língua, o português miscigenado do país com nome de árvore, somava-se ao acento da melodia para desfalecer minha alma naquele misto de alegria e tristeza indefinível dissolvido numa solução harmônica que caracteriza uma das mais fortes contribuições do samba para o estilo. E Ismael o tinha como ninguém. Vinícius de Morais dissera que “a grande força do samba [de Ismael] é a melodia”. De fato, o é. Difícil imaginar maiores evoluções das escalas enfáticas em uma música tão suave e simples.  É como se um carro freasse e fizesse curvas de surpresa. Por isso que o seu samba é seguido pelo próprio estômago, que não menos que o pé calcula tonturas e enjoos no interior da alma. Mas paramos de falar da substância do samba, que é inefável, “nem se atreva a me dizer”.
                Diz a anedota que o moço doente de 1924 foi interrompido em sua cama de hospital pela notícia de que um tal Alcebíades Barcelos o queria ver. Aquele que viria a ser posteriormente autor de “Escola de Malandro” – junto com Noel – provavelmente seguiu algum escrúpulo de deixar entrar alguém na sua paz. Visitas de hospital, o malandro sabe, só compensa a aporrinhação se for para cobrar dívida. Mas se a morte o esperava tão de perto, que mal havia em dar uma última chance aos seus credores? Ismael o deixou falar, e recebeu a notícia de que Francisco Alves queria comprar a sua música “Não me faz carinhos...” por cem mil réis. Não faço ideia de como converter esse número para um valor atual. Mas certamente era dinheiro para motivar um doente malandro, um incentivo moral que dava à cultura uma oportunidade nova contra as garras da natureza severa. Porque se diz que depois disso o mestre regenerou, como jurou em sua música (desde que ela jurasse lhe ter amor). Virou a página do hospital para a rua, vendeu sem ciúmes a cobiçada melodia e convalesceu com honras.
                A anedota continua, contando que Ismael, bom novamente, na sua famosa escola de samba do Estácio – (o mestre se nomeia ironicamente o inventor das escolas de samba) – foi surpreendido com uma turma de pagode por um carro suspeito espreitando a esquina da música como se procurasse por alguém. Polícia? Até quem não devia nada ficou tenso, paralisado como um lagarto esperando a águia passar. Estacionado, o carro deu saída ao próprio Francisco Alves. Este foi cercado pela turma atônita e sem cerimônia de celebridade agarrou o violão, dando ao niteroiense e o seu bando uma de suas noites mais inesquecíveis, de samba vivo, pujante, anunciador, que foi até a emergência da alvorada. Ao fim, aproveitando o encantamento, o visitante ofereceu a Ismael seu contrato. A parceria todos nós conhecemos. Silva, fiel, teve a energia de não esquecer Newton Bastos na assinatura do novo projeto. E atrás dessa alvorada inesquecível, outras tantas se seguiram. Nossos ouvidos gemem de saúde graças a esse episódio de convalescência.  

sexta-feira, 30 de março de 2012

Um Araújo do deserto


            É um patrimônio um pouco vão de nosso orgulho – e também um pouco infantil e iludido, confesso – ter durante essa travessia universitária cultivado entre os amigos alguns entre os quais é fácil ver um segundo brilho, mais interior e mascarado, mais intenso e confinado, um brilho que anuncia ambições menos ordinárias e projetos despojados de vulgaridade. Adivinha-se em seu ventre o feto de muitos futuros. Conto Diogo Araújo entre um desses motivos de um pueril peito estufado. Não me confundam com um amigo antigo: não tenho esse interesse distorcendo o elogio. Quando o conheci, tinha apenas uma ideia vaga do valor de sua energia, do tom que predomina em seus segmentos de voz, de verbo, logos. Hoje só posso invocar sua presença mediante a imagem de um solitário beduíno colhendo inspirações evanescentes através das enxadadas de seus passos no deserto. Desenterrando histórias dos grãos de datas ancestrais. E seu avanço entre o assédio de monstros de areia me assombra com a estatura de uma tarefa. Não sou um amigo autorizado pelas camadas do tempo, mas desculpo minha vaidade de querer ser, entre ele e eles, um alvo da mesma regra, abarcado pela mesma universalidade restrita, seleta, terráquea, embora apontada para a lua de sua plataforma espacial. É uma ideia que incendeia as turbinas. Um pedaço ainda precoce de projetos abstratos tomando a forma de cultura. As poesias de Araújo mostram, mais do que poderia eu propagandear, o talento da visão, da dilatação e manipulação das bolhas intuitivas, a suavidade na composição das imagens, a capacidade de ser um hospedeiro das formas. Quem puder conferir, não se faça de intimidado: http://aspipas.blogspot.com.br/search/label/Cantos%20do%20Matita%20Per%C3%AA. Minha admiração é um investimento. Não preciso de pretexto para bajular quem o merece, mas também não faço nada de graça: um futuro próximo guarda um sucesso que me enaltece como um dos primeiros anunciadores. 

domingo, 18 de março de 2012

Vento Sul

Quando os galhos dos coqueiros são arrastados no ar em direção ao sul, é que o vento norte comanda o leme das nuvens. Da minha janela eu sei então que a praia Brava não dá a luz senão a lombadas bastardas, fecundada pela fúria do “maral” madrasto. Ao mesmo tempo o canto esquerdo do Santinho prospera em uma trégua de “terral”. Se o sopro caprichoso resolver encabeçar para nordeste não sobra praia do norte para surfar, porque o leste daí é apenas uma questão de tempo, e é um castigo: ao vir com força, saqueia até um pouco da beleza do mar, arruinando o seu penteado de chapinha.
            Se assim encrespado continua a sugerir paixões, é apenas porque é o mar, e na minha ilha linda não é o prejuízo de alguns cachos que vai empobrecer a imensa franja ondulada do oceano.
            Rapunzel vaidosa, dificilmente erra na cor. Está tingido de um azul e verde regular. Embora não seja particularmente caribenho, vence com grande margem as águas injetadas de barro de rio do norte e nordeste do país. Quando dorme, é como uma criança sem pesadelos. Mas eventualmente acorda de um sono pesado com uma tonelada de desejos reprimidos, remoendo as inigualáveis profundidades, e projetando sobre a superfície sua carga espumante de problemas não resolvidos. A Joaquina é então a melhor aposta. Com muita sorte sua estrutura oceanográfica permite abrigar uma estória havaiana no cenário florianopolitano. Quem se lembra dos raros swells da Joaca, quem entrou no mar de jet ski e quem se arriscou na braçada, tem mais a contar do que eu, que assisti a famosa lestada com vento oeste de 2005 das pedras.
            E quando falamos de tantos mistérios e elementos, não podemos deixar de falar do vento sul, cuja trajetória esconde conspirações em gestação nas proximidades da solidão polar. Quem vai saber o que se discute por lá? Os locais o tratam familiarmente, já sabem que três dias serão ceifados quando ele chega, trazendo um frio de inverno ou de verão, espalhando sementes de um humor novo – pois os ventos trazem humores. Zunindo como um torpedo, faz as águas do Campeche desfalecerem como paçocas desmaiadas no polegar, esfarelando a água em pó, forçando a greve de surfistas do norte e do sul. Joaquina, Mole, ou Praia Brava e Matadeiro, são boicotadas em grupo. Somente algum segredo entre pedras e lajes – que não denunciarei – resiste ao despovoamento. Toda a comunidade espera, espera, subordinada à agenda de lufadas do imprevisível. Já se sabe que o tempo é dele, três dias ceifados.
            Quando a noite chega, ele uiva, facultando imagens poéticas pelas frestas das persianas. Uiva como um cão apaixonado acusando o próprio sofrimento. Os primeiros fantasmas da minha infância foram talvez provocados pelo canto de mágoas desse hóspede indisciplinado, que me fazia imaginar por trás da janela do quarto a presença de um fôlego vivo, o hálito de alguém forçando sua história pelo filtro de cada estreito hiato das portas e janelas. É o vento castigando as gerações com sua vaidade de experiente. E minha imaginação, assim, deve muito a ele. Sou-lhe grato, sobretudo, pelos exageros inflacionando minha concepção de realidade e sem os quais eu talvez fosse tão simplório quanto um cientista. 
               Essa ilha que é território de seu domínio, há muitos e muitos séculos, foi esculpida pelas mesmas carícias mágicas que deram paternidade às bruxas. Há nessa ilha açoriana, como em nenhuma outra, sulcos profundos e rugas marcantes, cavidades que não esquecem. O vento sul soprou incansavelmente sobre a sua alma erodida. 

domingo, 11 de março de 2012

A música e os músicos segundo Tolstói

            Já faz um tempo que venho caçando ocasião para discutir a opinião de Tolstói sobre a música, usando como referência o primeiro presto da sonata a Kreutser de Bethoven no conto com o mesmo nome. Injustiça, talvez, atribuir ao autor a opinião de um de seus personagens. Afinal, é a opinião de um personagem suspeito. Para quem não leu e não se importa de ouvir parte do enredo, falamos de um marido enganado, e enganado por um músico. É um personagem com motivos para odiar a influência da música sobre a sensibilidade do animal que é o homem, e sobretudo do animal que se torna a mulher. A má fama dos músicos pelas casas de família do século XIX até que não devia ser incomum, porque não só por gasto de tempo esta deixou de difamá-lo: essa reputação do sedutor amigo da noite e finório, erudito dos segredos da persuasão, sábio de botequim e malandro. Tolstói descreve o inimigo dos lares personificado em seu conto como, além de alguém com alta afinação e possuidor daquilo a que chamam “tom”, um homem “com seus olhos de amêndoa, úmidos, lábios vermelhos, sorridentes, bigodinho com fixador, penteado da última moda, (...), com um traseiro particularmente desenvolvido, parecendo de mulher, como, segundo dizem, existem entre os hotentotes. Estes, segundo se diz, também são musicais”. Mas essa imagem heterogênea e rica de miscigenações linguísticas é uma distração. O personagem é uniforme, reflete o modo como o autor compreende mais intimamente a imagem da música, como esta se moveria nos salões se tivesse pés, e como se pentearia se tivesse cabelos e bigodes lisos. É a música a inimiga do personagem ciumento. É a música que empina aos seus intérpretes o traseiro, o pronunciando como um acento melodioso de consequências desastrosas para a fidelidade dos casais. Mas por que mais um russo traído deveria ser o mensageiro de um ódio à música que vem mais vocal que o de Platão? O filósofo convocou a sua perseguição como um assunto da república, pois hipnotizar pessoas indefesas e dominar a sua vontade é um desserviço à razão. A música inaugura um fluxo de tonalidades que infringe a razão, tira o julgamento da sensibilidade, prostrando o ouvindo sob o julgo de sensações que não são dele, que não têm presença em sua alma, que vêm de fora, como o honroso fantasma de invocações primais. Não é por acaso que as orações e preces sejam originalmente musicais. Pela música o ouvido, as mãos, os olhos, a boca e os pés, aprendem a imitar, e pela imitação sistemática chega à simulação de estados: se convence, se contradiz, se nega, afirma, acredita, em suma, pensa e sente, e sem o ter feito de fato, mas apenas por ter imitado, seguindo a cadeia do fluxo musical, como faria o corpo enquanto dança.  Basta uma digna distribuição de acentos e ênfases, declives e aclives sonoros, para criar o simulacro de uma verdade, para dispor da mesma força de um argumento, sem que de fato o conteúdo do argumento seja avaliado – é apenas a sua superfície tônica que seduz, arrasta, inclina. E por isso diz Tolstói: “a música obriga-me a esquecer-me de mim mesmo, da minha verdadeira condição, ela me transporta a outra, que não é minha: sobre o influxo da música, tenho a impressão de sentir o que, de fato, não sinto, de compreender o que, a bem dizer, não compreendo, de poder o que, na verdade, não posso”. Há o drama dos românticos, sentimentais e moralistas nessa abordagem. E, no entanto, ela poderia ser a mais correta e justa. A mesma compreensão, sem o drama do traído nem a severidade do filósofo, captura a particularidade da música em sua expressão mais elementar: sua potencialidade para incentivar imagens, invocar espíritos, ampliar a visão, em uma palavra, dilatar os poros intuitivos. Assim se corrobora o dito de que é a “janela da alma”. Porém, de fato, ela apela a nossa dimensão animal mais do que a qualquer outra, embora toque essa animalidade inspirada que pode desaguar em uma loucura inteligente, e que será sempre um empecilho à fidelidade das esposas, pois deixa a verdade e o certo nas mãos do que decide o alegre violeiro de traseiro loquaz – embora este não decida nada por si mesmo, sendo não mais que um serviçal dos tons.       

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Velho oeste medieval

Pelos meados do século XV os reis de Espanha, nação cuja reputação de superstição e intolerância durou séculos, expulsaram de suas terras sob decreto de morte todos os Judeus. Este povo, acostumado às movimentações diaspóricas, encontrou um asilo insincero nas graças suspeitas de Dom João de Portugal, que pelo favor lhes cobrou oito escudos por cabeça. Sem alternativa, os escolhidos de deus não puderam sequer participar da pechincha, e como o são todos os mais fracos, explorados, cederam sem reclamar. A condição não incrimina o rei: pondo preço em sua bondade, deixava expresso o caráter comercial de seu interesse e não se pronunciava como aliado de nenhuma parte, evitando desmoralizar a autoridade do vizinho castelhano. Assim funciona o mercado: é preciso medir o seu preço pelo dos outros comerciantes para competir. Negociando o que é certo ou errado, no entanto, o rei endividava a própria consciência. É o peso da coroa, tomar decisões difíceis.
 Como bom vendedor, para todos os efeitos, prometeu além do asilo o transporte para a África. Que satisfação pessoas nascidas na Europa poderiam ter com essa proposta de despejo? Quem pergunta esquece talvez a motivação independente fornecida pela carinhosa e abençoada instituição religiosa conhecida pelo nome invocativo de Santa Inquisição. Seu eco sugeria calafrios mesmo em não-Judeus da época. De modo que pagar para estar longe dela não podia ser assim um mau negócio na mente de um, ainda que tivesse que abordar a África selvagem e muçulmana para livrar-se da condenação histórica perene que lhes fazem os cristãos pela responsabilidade da morte de seu precursor espiritual. A proposta, a princípio desencorajadora, podia ao fim do raciocínio soar mesmo imperdível.  
Dom João lhes impôs um prazo, após cujo vencimento os reduziria à condição conveniente para terras de sectários fanáticos de cristo: a escravidão. Afinal, não era de se esperar que o interesseiro monarca fosse arriscar-se a uma controvérsia com o vizinho por causa de meros Judeus. Na contagem final do tempo concedido, verificou-se, entretanto, que o número de embarcações era escassa e precária. A frota se distribuía desorganizadamente ao longo do porto de Lisboa no dia da viagem. Em seu convés porco, fitando maliciosamente os novos passageiros de sua majestade, se empoleiravam vulgares marinheiros de sensibilidade engrossada pela força da circunstância, gordos e sujos, ou robustos de trabalhos braçais, criaturas de profundos preconceitos e vasta ignorância. Grandes gigantes de roupas largas e rosto moreno lascado pelo sol, animais de gestos bruscos e voz forte, displicentes e comediantes profanos, sem respeito por nada exceto por suas superstições marítimas e religiosas. Observando seus companheiros de viagem, a grande população de exilados, como cães maltratados habituados à desconfiança, reconhecia-os como essa classe de homens simples e obedientes que há em todo povo, até mesmo inofensivos, mas sempre prontos para tirar vantagem sem remorso das margens permitidas pela sua própria tradição. E o que eram eles, Judeus - o nome diz tudo - naquelas embarcações, senão mercadorias de menor valor que as comercializadas? Quem notaria ou cobraria uma avaria em seu corpo?
Viajar embalados de um lado para o outro como ciganos anônimos era o seu resignado destino. Os que puderam embarcaram; os que sobraram esperaram. A data de expiração fora prorrogada. E enquanto isso os deixados para trás fundavam raízes em Portugal com seu talento sempre louvado para o cálculo e o dinheiro, sua intimidade com as nuances virtuais da moeda, sua face viciosa, capaz de gerar inflações e levantar riquezas através da sacrílega economia de promessas e juras, modificações do crédito. Séculos de servidão lidando com a contabilidade da casa de fidalgos lhes antecipou a vocação para especuladores, que hoje tanto se aplaude nos operários de Wall Street. Para os cristãos, fazer dinheiro nascer do dinheiro daquela maneira não poderia parecer menos que bruxaria, pacto com o demônio. Explorar o valor do valor, o crédito da moeda, coisa blasfema de anticristos, vendendo a fé que só se deve a deus. Motivos e superstições para odiar Judeus fecundavam.
Os que conseguiram embarcar rumo à África sofreram o peso das humilhações, maltratados como vira-latas indesejados, fretados tal qual um pacote de má sorte forçosamente tolerado. A primeira nuvem de ruins agouros levantou na tripulação o desejo de arremessa-los ao mar. Eram responsabilizados por qualquer empecilho. O que era uma viagem ao continente encostado se transformou em uma ida e vinda interminável, posto que os passageiros ilustres do rei fossem tudo menos prioridade. Submeteram-se a um elenco pródigo de escalas comerciais enquanto seu suprimento pessoal ia chegando ao fim. Como não tinham exatamente o direito a uma opinião, nunca lhes fora dada uma estimativa do destino. E com a resignação e paciência hebraica de quem espera ser desagravado por um deus vingativo, singraram mares pagando caro para comer e beber da provisão dos seus carrascos pilotos. Essa condição se estendeu até o ponto absurdo de desembarcar com apenas a camisa do corpo: um figurino atraente para começar a nova vida em um terreno hostil, não bastando já o estigma do povo execrado – e escolhido.
A notícia do transporte abominável chegou aos ouvidos dos que ficaram e os conformou com a alternativa de se estabelecer em Portugal, como servos. O sucessor de João, o célebre Manuel patrono das navegações, aboliu a sua miserável situação concedendo o benefício dos direitos políticos. Porém, a liberdade não os converteu a cristãos e o povo de Abraão permanecia instanciando as leis como estrangeiros sem raízes, o que seria a sua tragédia até o século XX. Faltava sempre a confiança, o benefício da dúvida, para que lei pudesse ser interpretada da mesma maneira com relação a eles e os outros súditos. Sua presença instaurava essa desproporção na distribuição do crédito social que cativa os pobres e alimenta a impunidade dos ricos, faz escravos mesmo numa democracia. O rei esperava ingenuamente que o apego pela Europa e a terra de Portugal, onde já tinham granjeado riquezas, mais a intimidação dos marinheiros e o conforto de uma terra conhecida, houvesse lhes influenciado ao cristianismo. Subestimou a reconhecida obstinação de ânimo religioso desses herdeiros inveterados do antigo testamento. Não demorou a que, mudando de opinião, Manuel lhes ordenasse a saída do reino. Nem assim ganhou o monarca novos súditos. Os perseguidos infelizes preferiram enfrentar o temperamento imprevisível dos piratas que decepcionar seu deus antigo.       
     Manuel, frustrado, suprimiu dois dos portos assinalados ao transporte dos estrangeiros. Assim radicalizava as consequências da decisão dos firmes circuncisados, os forçando a colher apenas desvantagens dela. E qual a vantagem disso para o rei? Por um lado intimidava mais passageiros, temerosos de compartilhar uma nave pequena com ambiciosos e agressivos animais do mar em um percurso agora ainda maior. Com efeito, alguns judeus, encantados pelos seus próprios tesouros, não temiam nada mais que um saque. Por outro lado, dessa maneira facilitava a execução de seu plano de separar os pais dos filhos menores de quatorze anos, os aglomerando todos em um mesmo cais. O projeto macabro envolvia a possibilidade de recrutar os jovens ao cristianismo em um período mais liberal da educação.  
Novamente fora subestimada a paixão e fidelidade dos banidos. Ou talvez fora superestimada a incondicionalidade do seu amor à vida dos próprios filhos. Cercados pela milícia do Estado, percebendo que lhes roubavam dos braços os primogênitos, por egoísmo e compaixão, essa miscigenação insana de emoções, se lançaram aos fossos do mar junto com os filhos, deixando-se esmagar pelos navios que descansavam rente aos muros do porto. Um espetáculo horroroso de sacrifício calculado, resignado e cruel registrado por Bispo Osório, historiador latino. Poupavam os filhos da violência que não conseguiram impor aos pais, os banindo da própria vida, sentença radical talvez demais para quem não teve sequer opção do livre-arbítrio ante os dilemas sufocantes que acometiam aquele povo de compleição estóica. É como se arrastassem uma lógica maldita: se houvesse algum futuro cristão entre os precoces projetos de homem, os pais não faziam mal em vingar a desonra os chacinando e, a respeito dos firmes moleques que em circunstância normal não negariam as raízes, lhes prestavam o serviço de salvá-los de uma vida imperceptivelmente vivida na fé errada. Portanto, praticavam essa regra fatídica dos pais: decidir sabendo que os filhos lhe agradecerão no futuro. Exceto que nesse caso não haveria ocasião futura de agradecimento, a não ser na outra vida, aquela de felicidade eterna, para onde as almas iriam na condição de não aceitarem o falso Messias, o cristo. Vê-se que o egoísmo dos pais vale fácil por altruísmo.  Finalmente, esgotado o prazo de partida e sem meios de transporte, os Judeus remanescentes retornaram à servidão, condição na qual construíram sua micro-história e sua participação na rede de negociação da liberdade, deixando seu testamento paralelo aos séculos e ciclos de ideias que nós, muito orgulhosos, lemos nos livros e documentos contados pela versão dos vencedores, convencidos de que nasceu tudo de uma peregrinação espontânea do espírito livre da humanidade.
Uma minúscula fração se converteu ao cristianismo. Nunca se pôde acusar hipocrisia à fé e identidade desses assolados.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Montaigne e suas histórias

O autor dos Ensaios nunca pára de me surpreender com o volume inesgotável de contos, sua inclinação para testemunha, registrando causos que vão desde relatos populares até  detalhes de batalhas épicas. Comungando da intimidade de provincianos de feira como da de reis antigos e generais ilustres, Montaigne é o verdadeiro contador de estórias, o pescador do universo filosófico. Com efeito, seria preciso muito ouvido, muito tempo dispensado ao mundo, para colecionar tanto assunto e matéria de sucessos dispersos e desconectados. Talvez não bastassem menos que cinco ouvidos, tímpanos esponjosos para a voz de mais de um mundo, uma vocação extradimensional. E não era o autor o dono exclusivo de uma sensibilidade caótica, como ele mesmo reconhece ao se identificar com um escritor de rapsódias? Mas sobretudo, que fez delas o seu talento, ajudando a parir um gênero literário, uma nova maneira de tabalhar nessa oficina de recortes, cola, costuras de letras, imagens e formas. Sua mais extraordinária ferramenta de espírito é justamente essa receptividade para o fragmentário, sua fecundidade de perspectiva e ubiquidade regional. Quem tem ouvido para tantas vozes não pode jamais ser um provinciano.
E é por isso que muita gente há de ficar cismada, pasma, de ler as pitorescas coisas que esse aristocrata do século XVI tinha para contar. Seu exemplo deixaria sempre um pouco constrangidos esses historiadores das ideias que nos garantem que até o conteúdo da imaginação tem data de vencimento e de nascimento. O que diria, pois, do que tinha Montaigne a dizer de suas formigas? Está documentado em um de seus ensaios que, observando os dois formigueiros sedidados em seu terreno, acompanhou o cadáver de uma formiga do formigueiro A ser carregada ao formigueiro B – o contador não diz nada sobre a morte da conduzida. Em seguida jura ter observado uma comissão de membros do A indo negociar o cadáver, levando folhas e gravetos como um gênero rudimentar de propina para o resgate. Tudo isso é contado sem a menor sombra de absurdo. De modo que fico a imaginar que espécie de sensibilidade e inteligência era essa. Sua interpretação meio louca dos fatos passados no microcosmos de seu quintal deveria ser o indício de uma mente aberta até demais, até o ponto de deixar os pressupostos rigorosos da ciência parecendo preconceituosos e intolerantes.
             Em outro momento soletra a bonita estória de um leão e um desertor, cuja veracidade ele assevera como um caso comum e difundido na tradição popular da antiga Roma. Durante uma das campanhas de César, um soldado mais cheio de espírito artístico que gana de guerra abdicou de sua farda e cargo, fugindo pelo deserto. Seu destino, porém, não foi favorável e uma tempestade o forçou a improvisar pouso em uma providencial caverna onde, despertado no meio da noite, assombrado pela sombra difusa de uma criatura movimentando-se nas trevas, terminou descobrindo em sua companhia um leão enorme . O acuado cavalheiro não tinha para onde fugir, e com surpresa verificou que o felino não o assediava como um prato de boquinha da madrugada. Sua feroz catadura dissolveu-se em uma misteriosa fisionomia de súplica. Aproximando-se como um gato serpenteando a calda amistosa, deu a ele a pata dianteira como uma dama esperando a cortesia de uma etiqueta. Hesitando um pouco, porém sem alternativa, avaliou as condições muito avariadas da pata do leão, vítima de um espinho que havia se encravado com a intensidade trágica de um prego da cruz. O solidário ex-soldado de temperamento sensível cuidou das chagas do leão e, dizem, viveu com ele pelos próximos anos, compartilhando comida e bebida, até que foi capturado pelos policiais do exército que patrulha os rastros dos desertores. De volta a Roma como um cativo, sua sentença era o coliseu. Passou um ano preso esperando a prodigiosa lista de espera para uma audiência pública com o dedo polegar de César. Quando finalmente chegara sua vez de ser comido pelos leões, a platéia histérica do grande circo de horrores romano com surpresa observou que a investida do animal contra o cativo indefeso desembalou inexplicavelmente a apenas um passo de distância de seu almoço. Frustrados em sua ambição de sangue, uivaram contra a clemência audaciosa do irracional, protestando aquela abstinência repentina, aquele arbítrio disciplinado da fome animal. Quem perdoa é só César! Os que morrem na arena apenas o saúdam - aqui acabam seus direitos. Maior foi a surpresa quando homem e animal entraram em uma estranha carreira de abraços e afagos, ronronando um e chorando o outro com a energia sensível de velhos conhecidos que se haviam dado por mortos. A emoção da audiência não podia ter sido maior em um desfecho de Eurípedes, e o grande polegar do imperador se pronunciou virado para o céu, expressando grande entusiasmo e correspondendo ao desejo do povo.  Montaigne conta, com seu habitual tom de normalidade e indiferença, que leão e homem foram libertados e viveram o resto de seus dias de mortais na Roma como dois amigos inseparáveis, verdadeiros retratos de uma fábula impossível, muito estimados e celebrados pela vizinhança como personagens autênticos de um final feliz.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Mais sobre a defesa de uma nova emancipação da filosofia (sobre os efeitos administrativos de um anti-naturalismo)

Existe uma economia geral dos sucessos do conhecimento: consiste na totalidade dos modos como ele valida a si mesmo ou administra recursos de validação, instituindo moedas fundamentais do comérico acadêmico, a saber, paradigmas fundados em instituições universitárias poderosas. Em algum ponto da história esse processo geral tinha pressupostos metafísicos mais nítidos; sua ligação com a religião, com os interesses do Estado, ou simplesmente a sua raíz linguística era mais transparente. A filosofia em todas as suas nuanes foi por muitos séculos a disciplina onde se discutia todas as formas dessa transparência, fosse fundando novas metafísicas, fosse discutindo ideias políticas ou os pressupostos epistemológicos e linguísticos subjacentes a um padrão paradigmático bem sucedido – hoje a Física, a Química, a Antropolgia, etc. Até pouco tempo atrás, a natureza geral da negociação entre a produção de conhecimento e seus instrumentos de validação faziam parte de uma mesma mistura, de modo que não se distinguia ciência da filosofia do mesmo modo como hoje se tornou trivial. Newton fazia um tratado de filosofia natural. O conteúdo das teorias era imiscuído com a semente da especulação filosófica, de modo tão inseparável, que seria difícil filtrar onde terminava um e onde começava o outro. Mas o tempo passou, os próprios filósofos começaram a desconfiar demais de si mesmos e reconhceram sem demora que toda aquele dejeto metafísico não passava de um reflexo objetivo das formas da experiência humana. O positivismo logo se aproveitou de tal constatação, pedindo sem reserva a emancipação completa das ciências. E mesmo agora que não se encontra mais positivistas pela rua ou pelos corredores, a ciência se acostumou tanto com o seu confortável lugar que não admite mais qualquer interferência externa à sua metodologia. Suas bancas e departamentos universitários são verdadeiras máfias a serviço de um paradigma, uma zona de conforto muitas vezes degradante. O naturalismo filosófico predominante nas últimas décadas é reservado o bastante para não defender teses positivistas, mas preserva e protege as suas conquista ao questionar o suposto poder de um método alternativo e alienígena que pretendesse dar regras primitivas – como categorias puras – para ler a experiência e interpretar a cultura, controlando de fora a economia inteira do comércio acadêmico do conhecimento. Isso seria quase como um socialismo! Um despeito, um ataque dos inimigos da sociedade livre. Abaixo à filosofia!  Assim são suas palavras de ordem: “nós cientistas fazemos nossa própria revisão. Não existe lógica, gramática, metafísica ou epistemologia, a não ser a epistemologia consorciada com a nossa própria metodologia. O essencialismo e a analiticidade são mitologias opressoras! Se precisarmos de apoio, temos tudo de que precisamos na própria ciência. Apelamos à teoria da evolução, à psicologia, à psicanálise, até à antropologia. Em último caso, tudo se explica pelas teorias mais gerais da Física, a mãe ciência. Não temos a explicação para tudo, mas não precisamos dela. Revisamos a nós mesmos”. E, no entanto, não vejo hora melhor para atacar esse funesto naturalismo, reivindicando contra ele uma tese administrativa. Não tenho propensão para revolucionário e provavelmente nunca irei me engajar em lutas. O que não me custa a despesa de pedir uma volta da filosofia em versão administrativa, uma plantação severa de instituições que zelem pelo interesse filosófico – regulada por pessoas saídas do curso de filosofia – em todas as camadas da academia. É natural que isso soe falso e um pouco pretensioso. Hoje, no entanto, não vejo nada mais ao qual pudesse aplicar minha energia e estou bastante disposto a me engajar nisso, pelo menos elaborando textos de blog - o que é um início.