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terça-feira, 7 de maio de 2013

O sacrifício dos professores


Daqui do país da corrupção é fácil adivinhar, com ares de sabedoria, a causa da desvalorização dos professores. Mais difícil é entender porque essa classe já é relegada a um plano abjeto desde antes de assumir uma identidade profissional, quando seus membros erravam pela civilização carregando o estigma que antecedeu a sua representação conceitual. Os professores na Grécia antiga se chamavam “sofistas”, palavra que ainda hoje levanta calafrios de desprezo. Os sofistas tinham, na verdade, uma boa reputação como sábios e donos de ciência. No entanto, já levantavam a desconfiança natural que se tem daqueles que se dizem donos da verdade. É possível que o homem comum já tenha eriçado sua hostilidade contra os professores muito antes que Sócrates viesse denunciá-los formalmente, como inimigos da humildade filosófica, e farsantes incapazes do reconhecimento da própria falta de saber.
A mancha que carrega o professor está associada ao jargão de que ele depende. De certo modo, o homem comum, o que batalha, sofre, adquire com a experiência todas as lições do tempo, não suporta ter que ouvir a autoridade de alguém que passou pela vida através de um filtro literário, alguém que habita linguagens e vive para impô-las. Entendida como moeda, a linguagem do professor atravessa ciclos de mercado, e a própria sobrevivência lhe recomenda que tenha responsabilidade fiscal na sua administração. Por consequência, o saber que o professor passa, e que passa ao próximo professor passando ao próximo aluno, é algo irremissivelmente pequeno e desgastado, o resultado de uma grande economia, fundando dinastias linguísticas que mendigam à cultura um subsídio de veracidade, migalhas de credibilidade.
Cedo se associa o professor a uma imagem de imoralidade, um defeito de caráter: a avareza. São mercadores de ciência, como já denunciavam as palavras de Sócrates, piratas do conhecimento, adquirindo no mercado mais barato, e vendendo no mais caro. E então, como se não estivesse o bastante difamado, se associa ao professor a infidelidade, o talento para manipular o espectador, através de falácias e outros embrulhos. A versão moderna e profissionalizada do professor parece estar gozando hoje as consequências dessa cicatriz: a escala social a que pertencem está abaixo dos profissionais a quem ensinam, como se fossem rebaixados a profissional fracassado, o artista que não conseguiu fazer arte, o músico que não conseguiu emplacar, o literato que não conseguiu escrever.

            Como é pretensiosa a humanidade por isolar um bode expiatório tão conveniente!  Professorar é usar a autoridade para estabelecer elos de crédito entre uma estória e seu leitor, mantendo a linha de fidelidade da leitura – e das doutrinas e morais que ela ensina. Assim a cultura se afirma e reafirma, professorando. A família e as outras instituições são formas de exercício professoral. Sem elas, não existiria sequer cultura, em sentido estrito – e, naturalmente, sem professorar a única forma de manutenção da cultura seria através da imposição ditatorial, cuja estrutura é por princípio auto-destrutiva, baseada em demagogia e em publicidade. É uma pena, porém, que aqueles que assumem o exercício como profissão tenham de ser sacrificados para abafar a ânsia do povo por sangue. Alguém tem de fazer o serviço sujo. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

"A Rainha americana de Versalhes"

Os documentários são desafios. Chega a admirar a coragem do diretor que dispensa o conforto fácil da ficção e, destemido, alista para seu filme habitantes enfadonhos da realidade. A vida real carrega uma complexidade infecunda, uma ausência de claridade na divisao entre vilões e heróis.  Essa falta não permite que dela se extraiam facilmente enredos e histórias. Em A Rainha de Versalhes, entretanto, os personagens fictícios não poderiam competir lealmente com as qualidades típicas e estereotípicas do elenco de criaturas reais. O documentário explora a frágil linha de demarcacão entre a paródia e a seriedade através do retrato de uma família bilionária que incorpora uma caricatura do sonho americano, símbolo da decadência dos valores na sociedade do fast food. A crise econômica que a colhe desprevenida aparece como uma peripécia digna da fantasia, com uma força moralizante e ao mesmo tempo trágica. O personagem central é o da mulher e esposa.  Uma ex-miss de algum estado, que se envolveu com o magnata do ramo hoteleiro por efeito gravitacional do clichê, essa força da natureza que regra a vida de grande parte da população. Hoje com quarenta e sete anos, adota uma aparência de objeto industrial, um produto manufaturado à base de plástico. Lembra uma bruxa disfarçada por elixires e magia: uma pequena ruga, um traço incongruente, uma mão mais grossa, é tudo que o público precisa para desmascarar o monstro por trás dos truques. O problema das mágicas é que, mesmo quando não podemos lhe denunciar a trapaça, sobra no ar o cheiro de falsidade. Caso não fosse assim, os mágicos seriam mais poderosos que políticos, os acadêmicos narrariam a história, e os artistas criariam por suas mãos a experiência, tomando o lugar de deus. Nossa Rainha de Versalhes americana é, em aparência, uma réplica mal feita de um padrão de mulher vendido pela cultura de massa, um simulacro que, por força de honestidade, deveria vir assinado pelo cirurgião plástico competente. Sua condição artificial reflete a situação forçada da família como um todo, que luta bravamente para pagar sua dívida de existir tentando enganar o tempo com o dinheiro. Curiosamente, o filme mostra um efeito inusitado, embora conhecido, do dinheiro: quem mais o tem, mais dele depende. O efeito viciante da moeda fica finalmente redundante quando a crise chega, como um traficante de drogas cortando o suprimento de amostras grátis.  Mas o verdadeiro valor do filme está no modo como envolve o expectador com o lado cômico, traindo um sarcasmo inevitável ao ver o jeito implacavelmente cego com que os membros da família descrevem às câmeras a sua lista de sapatos, bicicletas para os filhos, e o tamanho dos quartos na casa em construção. Essa, é uma cópia de mau gosto do palácio de Versalhes, no meio de Miami, que por si só já vale uma multidão de risos. E ainda há os quadros, onde o casal posa em tronos, vestidos com capas de veludo, um tributo completo ao brega. Os entrevistados não percebem estarem sendo sacrificados pelas câmeras ao altar do sarcasmo, e a sutileza da música escolhida garante que aqui não é uma manipulação do diretor: só irá rir quem realmente ver o lado absurdo da situação. Mas as risadas irão fluir como uma evasão torrencial de honestidade, e poderá, sem embargo, envergonhar os menos autoindulgentes, que não acharão pretexto para sentir aquela superioridade falsa de costumes que alguns brasileiros sentem pelos americanos.   

Trailler: http://www.youtube.com/watch?v=txdz5xuSW_c

sexta-feira, 1 de março de 2013

Life of Pi, Max e os Felinos e a polêmica sobre plágio


É uma polêmica datada de 2002, quando o autor Yan Martel recebeu o cobiçado premio internacional Booker pelo livro Life of Pi, e em seguida foi confrontado a responder por uma possibilidade de plágio. A entrega do Oscar viu renascer a controvérsia.  Na ocasião, o  autor admitiu ter se inspirado em uma estória de Moacir Scilar, cujas semelhanças com sua obra não podiam ser ignoradas, pelo menos em uma ideia chave, gancho para explorar ricos desdobramentos narrativos. De fato, a ideia do personagem isolado com uma besta no mesmo barco no oceano era muito boa para ser desperdiçada. Por que não torná-la, portanto, pública? Não tenho nada contra isso.  Segundo o Guardian, o canadense admitiu ter gostado de uma premissa do livro Max e os Felinos, de Scilar, ao lê-la em uma resenha, e tê-la usado para contar sua própria história. Disse também que não achava ter feito nada de particularmente desonesto, e, por fim, deu com a língua nos dentes, dizendo que não via motivos para ler o livro, porque acreditava que ele continha uma ótima ideia estragada por um lesser author (escritor menor).

Apesar do suposto arrependimento do canadense, que incluiu um agradecimento a Scilar no prefacio das novas edições, penso que ele expôs suficientemente o caráter, dando uma ideia mais ou menos inteligível desse episódio, e destacando bem as vitimas e os vilões no quadro exposto ao público. Não nos enganemos pela falta de combate de Scilar. O gaúcho de fato renunciou a qualquer pleito de direitos autorais, mas nisso vem apenas mostrar a classe que faltou ao seu plagiador. No livre Life of Pi, em vez de emprestar a ideia no que ela tinha de geral, ou fazer uma releitura da premissa de Scilar, o canadense empresta somente a imagem do barco, do menino e da besta,para contar uma estoria completamente diferente.  Já não importa se o menino é agora indiano, e a besta um tigre. Não se trata aqui de uma ideia reutilizada, reinterpretada, mas de uma simples muleta a uma imaginação preguiçosa.  Como se não fosse o bastante, o canadense afirmou que só leu uma resenha do livro de Scilar e que não via motivos para ler e estragar o encanto de uma ideia boa estragada por um “autor menor”. Provavelmente, com isso ele quer dizer que está corrigindo uma falha do correio internacional das Ideias, que entregou cá no Brasil por erro uma Ideia que estava destinada ao Canadá, mais especialmente, a sua brilhante e bem aventurada cabeça canadense. Ou talvez ele queira dizer que as pobres Ideias são ingênuas e confusas virgens inexperientes que acabam, por acidente, nas mãos abusivas de “autores menores”. Nada mais justo do que restituí-las a um “autor maior”, portanto, e, não mais por acidente, esse autor seria: ele.
 Não exploramos a opção de que ele estivesse simplesmente sendo traído pela vaidade, envergonhado por ter sido surpreendido em dívida com um autor de terceiro mundo, e, por fim, inventando uma desculpa para o flagrante. Isso seria psicologicamente degradante: desmascararia o caráter covarde de um ingrato esnobe que, para parecer mais original do que é, tenta desvalorizar e desmoralizar aqueles a quem, na verdade, inveja. A covardia se acentua quando se pensa que se trata de um autor superstar aproveitando sua recente fama para jogar lama gratuita em um autor mais ou menos desconhecido pelo público e a crítica da língua Inglesa, cujo único erro foi ser bom o suficiente para agradar e inspirar alguém sem muito escrúpulo. E, enfim, quando se pensa na quantidade de vaidade presente em alguém que não hesita em se candidatar a “autor maior”, mais o menosprezo profissional de quem tenta jogar lama em um companheiro de ofício, ficamos com a imagem de um grande imaturo que sequer calcula o risco de se pronunciar a favor de si mesmo na discussão infinita da literatura. Parece-me que esses defeitos tornam o canadense bem pouco interessante, e isto me põe predisposto contra qualquer Ideia que saia de sua cabeça – mesmo as “carinhosamente” emprestadas.
 O tempo irá dizer quem é maior e quem é menor. Não é um autor egocêntrico, autoindulgente e sem humildade, que vai colocar ponto final na discussão sem fim a respeito do que é boa e o que é má literatura. Seria, todavia, menos suspeito se ele não estivesse tão bem cotado no seu próprio ranking. Parece um juiz um tanto parcial. E seria, no mínimo, surpreendente se descobrirmos que ele estava certo. Nesse caso, o maior teria copiado o menor. Alguma coisa não estaria errada nessa matemática? Seria muito curioso se os grandes autores não tivessem capacidade de usar suas próprias Ideias, e ainda mais se estivessem reduzidos à condição de usar Ideias de autores piores!
O que essa estória nos ensina, e isto agora, é a suspeitar desses fantásticos prêmios internacionais. Se fosse o contrário, e o “autor menor” roubasse a ideia do “autor maior”, o escândalo seria enorme, e a própria discussão sobre propriedade seria muito mais simples: ora, a Ideia é do “maior”, ponto final. Não haveria espaço para cortejar ou raptar a Ideia, como se ela fosse a esposa indefesa de um mau marido. Pobre do Scilar, se o seu livro houvesse sido publicado depois por algum acidente de terceiro mundo.  

Uma breve reflexão sobre os direitos autorais


Vimos que Yan Martel ganhou um dos maiores prêmios literários da língua Inglesa usando uma ideia presente em outro livro, do brasileiro Moacir Scilar, Max e os Felinos. Não mencionei se ele roubou, emprestou, alugou ou reciclou a ideia. Não há nada tão difícil de definir do que o endereço e a data de nascimento de uma ideia, e se estiverem certos os filósofos mais tradicionais, ideias não pertencem à espécie de coisas que se pode identificar por um registro psicológico documentado no momento em que elas aparecem na mente de seu pai. O tempo exato e a localização são supérfluos, porque Ideias tem um conteúdo, e, além disso, uma relevância. Pertencem ao contexto da experiência de seu autor, pesam com maior ou menor importância no seu sistema global de crenças e, se tiradas do contexto, correm o sério risco de virarem outra Ideia – e assim elas crescem, prosperam e se transformam nas avenidas da comunicação e da história. É a natureza desse saque de contexto que importa, portanto, quando queremos julgar o débito de um autor que usou a Ideia de outro. Nesse comércio, contudo, tudo se passa sem cobiça e não se paga juros. O que são os trabalhos acadêmicos, afinal, senão os esforços arqueológicos para descobrir dívidas intelectuais entre tradições e autores?
As Ideias não são mercadoria, portanto. E roubar uma ideia parece uma classificação um pouco severa demais; melhor seria chamar o feito de apropriação. A vergonha apenas aparece quando o roubo é tão transparente, que carrega somente a parte superficial da ideia, isto é, justamente aquela parte dela que está presa na circunstância particular de seu aparecimento, como um lance de criatividade que se deve inteiramente à energia intelectual de uma pessoa ou grupo. Nesse caso é plausível começar a falar de direitos autorais, porque se trata da parte da ideia elaborada com um fim financeiro, isto é, o modo de apresentá-la ao público, ou de torna-la agradável, sedutora. Tudo isso envolve um esforço menos intelectual que publicitário, e seria injusto negar ao autor os frutos de seu talento profissional e sua despesa de energia laboral. Ideias não têm idade nem data, mas os modos como escolhemos apresentá-las exigem um gasto de tempo pessoal e, portanto, são passiveis de serem convertidas em uma espécie de capital. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Permissão para falar da beleza perdida de Florianópolis...


A natureza às vezes é tendenciosa. Não teme ser desmascarada beneficiando seus favoritos, quando, despendendo tanta atenção engordando alguns cantos do globo, deixa a outros uma aparência magra e mesquinha. Florianópolis é reconhecida por um público mais ou menos desinformado e influenciável, muito conhecido pela sua sensibilidade fraca e a euforia turística, como um éden, um desses locais onde a natureza fez seu ninho, esperando fecundar um prodigioso leque de tesouros em cheiros, cores, reflexos e gostos. Um espetáculo para a visão. Mesmo um veterano visitante dos confins desse enorme mundo pode, sem recaída, admirar o trabalho do sol pintando sombras e distribuindo as perspectivas pela paisagem quando a fita pela primeira vez de cima do morro da Lagoa.  E isso é só o começo. Porém, o escândalo é inimigo da beleza. Mesmo a mulher mais linda não terá fibra o bastante em seus traços para resistir à expectativa de um virgem escandalizado. Aqui na ilha não é diferente. Uma multidão plebeia de pseudo-milionários barulhentos e desengonçados há algumas décadas tem indiscretamente se vangloriado da oferta da natureza nessas paragens, atraindo o hálito da cobiça e cegando o homem comum com promessas falsas de prazeres gratuitos. Hoje, ainda há uma sequela de hippies endinheirados mal resolvidos e novos empreendedores bem aventurados que se recusam a ver o que a cidade se tornou, e o que ela já avisou se tornar, crentes de que o crédito investido pelos espíritos é de tal maneira inesgotável que ignora os custos da prostituição. Se há ainda quem pense que o espírito da cidade é imune às transformações em sua superfície estrutural, pense a segunda vez, quando estiver no trânsito agressivo, olhando o horizonte se fechando pela perspectiva do concreto predador que vai colonizando o céu, oprimindo as ideias. Florianópolis já não precisa de prognósticos aterradores que nos previnam sobre seu futuro calamitoso, pois ela já é a cidade estreita e neurótica que os sonhos das Cassandras sociológicas e ecológicas profetizaram. Parecia impossível, eu também confesso. Mas os morros estão ficando pequenos, os matos escassos, as garapuvus cada vez menos imponentes, toda a expansiva energia da vastidão, do mistério escondido em cada galho, que faz o homem voltar a ser criança na sua prostração ao infinito, está se esvaindo, maculando a experiência. Não tendo sequer a desculpa da proporção, como o Rio de Janeiro, Florianópolis vai se tornando um medíocre aquário de hotel, uma maquete de amostras artificiais, compacto demais para que possa fecundar as inspirações da alma. Os cariocas ganharam alguma coisa ainda estética - e em muitos casos sublimes - em troca do aniquilamento perpetrado no último século, uma simbiose artesanal das pedras e favelas, das raízes de árvores seculares e os prédios beirando a areia; nós, infelizmente, não vamos ter nada que possa se aparentar à beleza. Ninguém se toca de quanto Florianópolis é sensível até vê-la do assento de um avião: um pedacinho de terra, de fato, como diz a música. Seu espírito não sobreviverá a essa violação. Alguns locais da ilha, à semelhança do que já são os bairros marginais à universidade, competem em feiúra com as mais provincianas e insípidas cidadezinhas do interior, daquelas em que o ônibus estaciona e nos desperta para uma angústia sem fim, torcendo aos céus para levantarmos âncora. Em breve não se poderá mais ver a beleza com os olhos, e dependeremos de outros artifícios da sensibilidade, da linguagem, dos acontecimentos, da ajuda da noite, das trevas, quem sabe, para reproduzir a poesia mística que habita cada grão de matéria do universo. Assim já é em São Paulo: se não houvesse lá a mágica soturna da noite, todos os seus cidadãos já teriam concordado com a ideia de suicídio coletivo. E já não será assim nessa ilha? O próprio turismo é apenas retórica, linguagem, experiência fabricada pela boca profana de uma necessidade especulativa e técnica. Em breve o último refúgio será o mar, para roubar o que ainda resta de impronunciável na garganta do infinito. Aqui em terra, só buzina e asfalto.  

Ps. Usei o título como pedido de permissão, uma vez que há assuntos que não se perdoam facilmente. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Os blogs e a imaturidade da sua expressão como mídia

Tenho sempre a impressão de que ainda não se aprendeu com precisão que tipo de força comunicativa um blog entretém, e por isso me sinto sempre hesitante com o valor e o peso da mensagem que veiculo aqui. Sem dúvida, tem um parentesco muito nítido com um jornal, porém, editado muitas vezes por uma única pessoa, o que faz toda a diferença. Como instrumento jornalístico o seu valor é realmente controverso, lhe falta algo como a credibilidade; como científico, é pouco legítimo, lhe falta aquele toque de patente acadêmica dado aos sobreviventes de uma banca de seletores editoriais. É ainda pouco compreendido o poder de transmissão de conteúdo, o modo de legitimar uma comunicação, em uma expressão – embora vaga: a estrutura de mídia desse veículo e, em virtude dessa incompreensão, talvez, seja tão difícil produzir algo com a substância de um texto real por aqui. Talvez a semelhança muito suspeita com uma espécie de diário arruíne até mesmo sua reputação literária. O tamanho dos textos, a forma de interação deles com o título, por vezes desejando seguir modelos de publicidade, e uma série de outros modos típicos de expressão dessa força evocativa relativamente nova, que irão ficar mais claros no futuro, assim como com a boca é mais fácil veicular certos símbolos e com as mãos outros, tudo isso ainda é muito preliminar e prematuro – provavelmente assim continuará sendo enquanto não tivermos distância para vê-lo amadurecer, se é que ele vai se firmar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A oficina retórica das Olimpíadas



            Uma vantagem de ser leigo como expectador das Olimpíadas é não ter perdido o olhar para o que há de estranho, pitoresco, e excessivamente particular em algumas de suas verdades sedentárias. Antes de tudo, isso não é uma crítica, mas uma observação irônica. Pitoresco e estranho são qualidades da arte. E não é obrigação do esporte ter qualquer semelhança com a competição da vida real, seja lá o que isso signifique. Ninguém cobraria o inventor do futebol por não ter arrumado uma melhor metáfora para a vitória do que a codificada por uma bola entrando por entre duas traves de metal. Nem o surfe perde o valor por ser inútil dirigir uma tábua de madeira pelas ondas do mar em um caso de naufrágio ou coisa parecida. Com efeito, o salto com varas não é menos emocionante por não corresponder ao modo real como se emprega a força e a destreza em uma caçada, ou em uma guerra. O fato de zerar em valor evolucionário zerado não impede que possamos vibrar com os desafios de um esporte, por assim dizer, bizarro.
            Mas ainda assim tem valor meu próprio comentário. Porque, seja lá qual for o modelo dos jogos, a vontade de ganhar, o desafio dos limites do corpo e da mente, e a justiça das regras são as únicas ligações invariáveis entre o praticante iniciado e o expectador leigo. Em conjunto, tal é a única fonte de identidade entre o esporte e a admiração do público, que sente no atleta uma empatia amistosa, uma inspiração sobre o próprio significado da vida. Quem estaria reclamando, assim, da estrutura geral de cada modalidade pitoresca que entra nas Olimpíadas, se não existe regra que as obriguem a ser normais? – e o que é considerado normal em um esporte, afinal?
            Existe um sentido, no entanto, em que a dívida do esporte com os três elementos citados condiciona toda sua validade. É esse o sentido em que o leigo tem vantagem sobre o iniciado. O primeiro, não obstante sua ignorância sobre as regras da ginástica ou do volleyball, consegue ver o quanto o esporte em questão corrompeu o seu vínculo com aqueles objetivos: a vontade de ganhar porventura se torna um vício acadêmico, semelhante às obsessões sociais dos alpinistas de cargos empresariais. Nem o corpo e nem a mente são jamais desafiados, posto que o atleta apenas precisa se esforçar por saber como explorar da melhor maneira os pontos cegos de seu manual, as zonas de conforto, amparado em tradições herméticas e fundamentalistas sem interesse em colocar à prova a efetividade de sua técnica. Também nesse caso o esporte não tem evolução, fica estagnado em vencedores conservadores que foram bem sucedidos apenas na arte macaqueante de aprender os truques, ou evolui como um monstro híbrido com mais cabeças que o necessário. Por fim, não raro as regras do jogo dependem demais da interpretação dos juízes, fazendo com que a vitória deixe de ser um triunfo, para tornar-se um mero apelo à subjetividade de pessoas com o emprego e a carreira em jogo.
            Esses são os problemas que o leigo verá em uma parte enorme dos esportes que assiste nessas Olimpíadas. E subestimaremos o olhar do leigo? No caso do judô, que é exemplo marcante, um esporte cuja origem remonta a técnicas de combate, os pontos são distribuídos à realização de golpes que realmente não existem a não ser na interpretação de seus manuais, cuja efetividade em um combate real é gritantemente discutível, e que podem ser manobrados com malandragem pelos atletas.
            Alguém irá dizer: mas assim também é a vida! – cheia de truques, artimanhas, onde os justos nunca vencem! Sim, a vida. Mas não é a vida real com suas imperfeições morais que queremos ver fielmente traduzida nas Olímpiadas, e sim um retrato moral perfeito do que ela deveria ser, de quem mereceu ganhar, de quem tem uma vontade triunfante. Só isso vincula o atleta a um ideal heroico, que nós amamos seguir porque enriquece a nossa compreensão da dignidade e da inteligência humana. Não é a toa que o xadrez tenha sido popular por tantos séculos – e ainda assim não tem o mesmo valor do futebol, pois pode ser vencido por computadores.
            A respeito desse último, cumpre observar que o pitoresco da maioria dos esportes olímpicos se opõe justamente a sua estrutura. Apesar de estar aberto também a muita dissimulação e jogo sujo, isso não desvirtua o leigo de sua admiração porque este encontra até mesmo nas faltas premeditadas parte de desafios a talentos verdadeiros, elementos fundamentais da rivalidade. O próprio fato de ser o esporte mais praticado e popular do planeta, saído dos pés de meninos das favelas, intensifica o caráter da competição que ele gera, radicalizando o sentido da vitória até o seu significado mais profundo, e envolvendo o expectador – mesmo o mais leigo – no âmago de suas emoções, medos e sofrimentos mais fortes. Comparado a ele, os demais esportes olímpicos não passam de treinos particulares e esportes acadêmicos, oficina de vencedores retóricos gerados em laboratórios de países de primeiro mundo, cujas medalhas não são diferentes de troféus de políticos mentirosos que ganham debates aprendendo como impor e proteger a sua arena de linguagem.  

sábado, 28 de julho de 2012

Os diamantes e as prostitutas da Chapada



A cidade de Lençóis é uma cidade de garimpeiros, me disse com relut^ancia o guia, resistindo retoricamente à minha pergunta sobre a atividade ilegal de extração de pedras, como se me avisasse para não tocar no assunto com essa honestidade semântica tão violenta. Contudo, ele gostava de apontar cada armação de pedras fragmentadas que enfeitava a trilha, recompondo a véspera transparente, sugerindo o passado movimentado daquelas estradas sem pavimento. Eram os destroços do que antes foram abrigos solidários aos homens tomados pela febre do diamante, uma vez que a pé a cidade mais próxima poderia custar cinco horas de trabalho atrasado. Quem eram esses homens? Tive vontade de perguntar. Mas minha pergunta não faria sentido, o guia jamais entenderia a raiz da minha curiosidade, minha vontade de saber a que vazio humano essa raça obedecia, que grande épico da angústia espiritual eles protagonizavam, com que íntima coragem exploravam as condições de uma ambição ilimitada e solitária. Queria saber a qual cultura de sofrimento e de prazer eles pertenciam, que tipo de músicas nasceria de sua experiência, que literatura seria escrita inspirada por suas frustrações e sucessos. Passamos por uma casa de garimpeiro intacta, uma metáfora de madeira embutida harmoniosamente na estrutura de pedras, como uma miscigenação poética de obra humana e natural. Ali ainda poderia viver alguém, e era inverossímil que não houvesse um dono contemporâneo. Foi quando fiz a pergunta, e o guia tergiversou, ambíguo, como se protegesse um segredo que não era seu. E eu queria fazer minha pergunta: quem eram esses homens? Mas aqueles misteriosos homens dessa breve civilização em ruína não teriam para ele nenhum encanto. Ele provavelmente acompanhou a sua trajetória sem reconhecer nenhum vestígio de mágica: eram seus tios, seus pais. E o sacrifício? O abandono e o delírio da riqueza? Mesmo o fracasso, nesses casos, tem de ser grandiloquente. Resolvi traçar minha estratégia para roubar a verdade com essa pergunta: muita gente enriqueceu naquela época? Ao que ele respondeu: olha... só quem enriqueceu mesmo com os diamantes foram as prostitutas. Sim, pensei, as prostitutas. Mas, ele continuou, não é bom usar esse nome para falar das mulheres da vida em Lençóis não, me advertiu. Não precisei de mais explicação, se era verdade que a origem das árvores genealógicas de famílias respeitadas foi aninhada nos diamantes conquistados pelo suor sexual de persuasivas oportunistas. E por que não? O próprio mito da fundação de Roma, quem sabe lá se não encobre uma dessas verdades rasteiras que a elite se esforça por erradicar dos livros da memória. Esbocei abordar o assunto, porém, o guia tergiversou novamente, mais uma vez me ditando um limite retórico, um aviso amigável de recuo: fim da linha. Ali podia estar em jogo a reputação de sua avó – com todo o respeito.