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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

... vandalismos do amor ilícito

... seguiu naquela noite para casa sozinho, carente até mesmo da companhia da lua, preço do pedágio de nuvens inflacionando a moeda lunar. Mastigava despeitos e consumia alergias durante o trabalhoso aclive. Integrava uma nova cadeia de preconceitos à sua identidade pessoal, novas repulsas e orgulhos. Mas se tornando assim um pouco mais vacinado, mau e malicioso, queria sobretudo punir o mundo pela sua injustiça. Desagravava uma egoísta sede de justiça ao invocar o cinismo. Sequestrava a razão ao alvejá-la de desconfianças maliciosas, prometendo que ela não teria defesa contra seus projéteis de ceticismo e esclarecimento armargurado. Quando foi a última vez que teve motivos para confiar em alguém? Nem se lembrava. E assim seu espírito colhia a cultura da experiência, quando a atenção da escalada de rotina foi roubada pelo vulto branco que vibrou num assomo de pânico em cima do telhado vizinho à sua casa. Era o Romeu gatuno, sobressaltado pelo aparecimento do menino.
Os olhos do bicho engataram com os do homem, numa troca fluvial de mensagens indizíveis, um mergulhando na alma do outro. Em um único impulso o gato voltou a si e disparou com uma leveza que encrespava cachos de seda de inveja, calçando solas de algodão e queimando o carvão sutil das calorias etéreas. Era como um fluído em movimento. Aquela noite era dele mais que de qualquer homem e, em Florianópolis, “hoje” – pensou Laio – havia pelo menos a presença de um genuíno boêmio, desafiando a simbologia estrangeira, resgatando o valor da ideia por trás do distante estrangeirismo e a aplicando a um caso que não pertence aos célebres bares de Paris: o caso do delinquente animal brasileiro vandalizando as convenções do dia em sua carreira noturna. O namorador fluía na escuridão como um líquido alcoólico, projetado para injetar paixões embriagadas nas gatas felizes.
Mais alguns passos em direção a casa e divisou outra aparição avultando veloz junto aos caules que preenchiam o caminho entre a casa do vizinho e a sua. Dirigia-se na mesma direção que ele, para cima, mas numa velocidade muito mais acelerada. O rapaz continuou batalhando a subida lenta e aferrou-se enfim ao portão, atravessando a última barreira entre ele e consolo do descanso, quando encontrou velando ao lado de fora, na pequena área que preludiava a porta, a gata, como uma esfinge absorta em regiões da imaginação. A gata gravitava nas bolhas das representações. Fora Montaigne quem, observando um cavalo de batalhas tremendo durante o sono como se estivesse em ação, concluíra que o animal sonhava e, portanto, reservava uma vida interior onde tiros de canhão não precisam de pólvora e o fio das lanças não precisam de amolador, onde, em uma palavra, os detalhes materiais são descontados face à imaculada forma das imagens e afigurações. Esse submundo simbólico misterioso visitado durante o sono é a prova de que os animais não humanos também sofrem o castigo da gramática. E, inclusive, é a prova de que inferem, uma vez que inferir não é mais que explorar as possibilidades e alternativas de combinação autorizadas pela interdependência entre as formas, cujas combinações sólidas e infalíveis nos tornam cativos de mundos semânticos, mitologias analíticas. Mas isso é, sobretudo, a prova de que os desejos e vontades das bestas, além da carga instintiva vulgar, também invocam o crédito para uma ambição maior, o financiamento de uma clareza angelical, algo digno da transcendência das preces: eles também querem a Verdade. Se isso parece metafísica vulgar aplicada aos bichos, é porque não pode ser diferente. Seus desejos são mais que meros desejos: são paixões como as nossas, oscilando entre o barato e o profundo. Era essa elevação espiritual que se filtrava na expressão de transe da gata na soleira da porta.

Laio experimentou um segundo e meio de ressentimento. Apontou para a gata com olhos de gancho. Ele sabia agora, sem dúvida, quem era o vulto de cores desbotadas e dissolvidas nas cores do fundo que corria pelas árvores em direção à República. Estava demais desconfiado, infeliz, envenenado, para que se deixasse enganar pelo silêncio dissimulado de uma gata eufórica. A densa amargura vertida recentemente sobre si lhe acoplou aos órgãos uma nova habilidade intuitiva, um olho de lince para os segredos da felicidade ilícita. Era a habilidade dos ressentidos; que é, pelo menos, um instrumento de faro realmente útil, uma vez que dificilmente erra. E não errava: era mesmo a gata correndo como cinderela antes da carruagem virar abóbora. Foi veloz o bastante para evitar que o menino chegasse primeiro. Mas o que a acusou sem apelo, o seu sapatinho de cristal esquecido, foi a vagueza pintada na expressão, a profundidade de abismos secretos e paixões virulentas vivificadas no fundo do seu olho reverente. Comparando esses suspiros da sua alma jovem com a imagem do boêmio branco elegante e flexível nas telhas do vizinho, era inevitável induzir que ela estivesse com ele. O resto das pistas eram somente confirmações adjacentes.   

domingo, 4 de outubro de 2015

Sementes de intuição

A janela aberta do quarto deixava entrar uma ideia ou outra, ressabiadas e tímidas como as brisas do mormaço. O painel que se dilatava pela veneziana aberta com sorte pintava a passagem de uma candidatura ao belo, embora em sua fugitiva natureza e independência. Não raro a atenção se dirigia a um prédio, ou a uma rua do bairro comercial, onde pessoas encenavam todos os dias mais um capítulo da pressa humana, o seu lépido e ocioso passo de lugar qualquer para lugar nenhum. Mas iam e vinham como em dança de ratos no laboratório, sugerindo ao pesquisador apenas simulacros de experiências controladas, nada de espontâneo e livre, nem de levemente despeitado e delinquente. Nenhuma fonte de inspiração.

            Diante do tribunal da vida, que é curta, é um luxo indesculpável recusar a ocasião de uma viagem que cai do céu como uma mensagem gratuita da providência. Ignorar os seus favores chega a ser uma arrogância. O que piora a reputação da ousadia é que ela é uma perfeita infração da política dos modestos. Uma espécie de superstição: pois esta é também um luxo, um capricho de quem acha que pode dispensar a inteligência. Quando a janela do quarto é a única ventilação da alma, nunca é demais advertir: algo está errado. Nada compara o efeito de uma viagem para difundir sementes no jardim da experiência.
Tércio chegou, entrou e sentou-se, esperando alguém que não lhe fosse estranho. Apenas por acaso a sua ruim pontualidade não fora mais atrasada que a dos demais, que ousaram não entrar senão antes que a hora exata os obrigasse. Haviam se acercado aos poucos e se deixado à porta. Porém havia pretextos para estar dentro, mais do que para estar fora: o frio do exterior carcomia a malha da pele sem nem aquela justa piedade das traças, que dão aos livros pelo menos tempo suficiente para se preservarem nas memórias de um leitor.
            Mais fácil era erodir-se em paulatino esquecimento pela exposição àquela extinção glacial.
            Mas o povo ficava lá fora falando, falando, e lá dentro sozinho parecia até mais inverno. Por um minuto, Tércio ponderou se tinha feito bem em lançar mão das malas e colocar-se à disposição de uma viagem desconhecida mesmo depois de seu único contato advertir-lhe a ausência. Não demorou, porém, a que chegasse um rosto familiar. Cassiano era seu amigo quase tanto quanto Patrick, ou seja, pouco, mas a sua presença o abrigava da pior solidão: a do estranho em lugar de familiares. Já se pode agora deixar para trás esse primeiro minuto de tensão dentro do ônibus. De agora em diante tinha casa: o amigo servir-lhe-ia como as linhas de um papel para retificar sua caligrafia e torná-lo legível a todos os outros. Era sua ponte de contato e seu ponto de apoio. Com esse pequeno traço de ansiedade não precisava mais se preocupar.  

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

As barracudas acadêmicas

 O orientador geral da turma com que Tércio viera se destacava na área com suas incontáveis publicações, inumeráveis participações em congressos, mais a sua experiência já meio maliciosa da dinâmica das interações nestas festas. Continha aquela leviandade que distingue tão bem o professor universitário moderno daqueles carrascos bem alimentados dos templos medievais, e dos mal pagos pedagogos das escolas públicas. 
 Na segunda noite se encontraram novamente todos os seus pupilos em uma democrática mesa de bar onde todos tinham o mesmo direito à opinião, mas com pesos diferentes, naturalmente, que onde fala o galo não pode provocar o mesmo efeito a palavra do pintinho. Assim é o mundo: meio injusto, e sem remorso. Há pouco crédito em risco na objeção do excluído, o pobre aluno que ainda não conquistou a proteção da instituição acadêmica. Por outro lado havia muita coisa em jogo cada vez que se pronunciava o orientador: era preciso lhe captar o sentido, entendê-lo, fazer-se íntimo, rir com ele e mesmo daquilo que não tinha graça. 
 Na noite de quarta feira o assunto versava sobre os peixes e algas vistos durante o dia, no mergulho de turismo feito no passeio de barco. Tércio apenas por acaso estava com seus óculos de natação na mochila, e ainda expunha sua surpresa com a fartura de beleza pulverizada em matizes infinitos de cores e movimentos: a dinâmica da submersão aquática, cada gesto cadenciado em um ritmo de sonho, de um lado para o outro, vagarosos como a sutileza mitológica de passos de valsa no aquário da noite estrelada. Pareciam imitar a flexibilidade de um rebolado extraterreno; como bundas oscilando em um planeta com menor força gravitacional. Cada peixinho um membro involuntário da coreografia. O entusiasmo dos encantamentos ainda povoava o seu espírito, e como uma criança ele despejava suas impressões na mesa, sob a fiscalização complacente do professor: 
 – Nossa, nunca vi tanta enchova junto, e sem medo nenhum de mim, só  faltou me deixarem passar a mão nelas como se faz com um cachorro domesticado... 
 – Enchova não, Barracudas, Sphyraena barracuda, volveu o mestrando – que conhecemos também por Diego – ligado à mesa pela ponta. Disse isso relanceando os olhos para o professor. 
 – Tá, obrigado – continuou sem temperar o fôlego – aquele coral lindo, e aquelas árvores lá embaixo, dançando em esbeltos pares ao embalo das correntes marítimas... – foi interrompido neste ponto, não sem enraizar na mesa uma impressão de estranheza que refletia o efeito de indigestão gerado pelo conflito de regiões discursivas. Os cientistas, acostumados ao freio do discurso acadêmico, não viam nessas expressões de entusiasmo líricas senão a carreira desvairada de um palavreado vácuo, uma promiscuidade confusa para escolher as palavras.  
 – Árvore não, uma alga, uma Cianophyta, por favor, isso é uma mesa de fitólogos, foi como lhe interrompeu a prolixidade Diego, e olhou em volta esperando a aprovação dos “fitólogos”, com um sorriso maquiado no rosto de puxa saco; depois olhou para o professor, disparando súplicas subentendidas ao venerando mestre, mas não foi correspondido nem por uns nem pelo outro. 
 Tércio parou, ponderou, pensou em voltar à sua viagem pela memória das árvores marinhas, mas percebeu que não tinha mais caminho livre; o mestrando havia jogado caules, galhos e animais, cada qual com o seu nome em latim, obstruindo o meio da pista em que corria a sua ingênua eloquência. O seu silêncio durou muitos segundos de reflexão, mas queria desaparecer, em um tom novo, darwinianamente adaptado. Pensou consigo: 
 “Realidade é o nome pomposo que vocês dão para a dimensão artificial do seu laboratório. Todo esse alfabeto de definições enciclopédicas não passa de um exercício de musculação intelectual: quanto mais catalogados bichos e vegetais, mais fácil aguentar o peso do discurso nos seus braços e adquirir a autoridade para falar e falar, palestrar e palrar, pesando a verdade em uma balança intuitiva fabricada. Mas também isso só vale nos limites do seu encerramento acadêmico... Que, de onde eu venho: helicóptero é avião de rosca e lagartixa é jacarezinho de parede. O que vocês chamam de errado, para mim, é a poesia ordinária da vida real, para a qual lhes falta talento” – mas nada disso falou. Encerrou como um tumor no seu âmago. Quem quer brigar precisa de pretexto. E se a caça de pretextos está fraca: espera-se até a próxima estação!

Olhou para o professor que continuava com um sorriso complacente, um traço que não lhe sabotava a reconhecida supremacia, nem ofendia a ninguém. Levantou o copo em uma mensagem de abandono formulado em brinde, e encabeçou de volta para a sua turma, onde o recolheram com pressa e o receberam com as saudades de quem já não o via há muito tempo. “Afinal, uma teoria da roda tem que ser melhor que a teoria do quadrado para pôr um carro em movimento; e comer de garfo sempre é mais fácil do que comer de pauzinhos, não importa o quão poéticos sejam os orientais” – pensou ainda Tércio, retratando-se de si para si mesmo pela covardia cancerígena. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os tesouros férteis de uma experiência artesanal

Já não faz pouco tempo que cheguei e o tema de minhas impressões não mudou junto com o clima. Pois ele é o próprio clima, que não muda.
            A cadeira que sobrava no meu quarto eu pus para fora, e embora prometendo-lhe resgate breve, debitei mais um valor junto com a conta abismal dos juramentos não cumpridos, cedendo à regra da procrastinação. Lá fora ela toma a água da chuva interminável. Muitas vezes pensei que aquilo ia tomar cheiro de mofo e outras, respondi a mim mesmo dizendo que ia tirá-la de lá logo. Mas nunca fui. Hoje percebi que quanto mais eu prorrogo, mais vai a cadeira se ambientando ao dilúvio sorrateiro que se conspira no céu de Florianópolis. Fui assistindo ela tornar-se um artigo orgânico, as suas pernas se desenvolvendo como raízes pantanosas, como o fóssil de um sambaqui imemorial dando à paisagem a aparência de um cemitério de mobílias naufragadas. Enfim, desisti de tirá-la de lá. Já é o novo lar de centenas de fungos que prosperam na umidade. Como um navio que virou coral no fundo do mar. Foi absorvida pela chuva interminável, que a nada poupa. Meu medo é sair na rua e ter meus pés dilatados em ventosas de polvo.
            Mas é bom estar de volta à minha cidade, como um marinheiro com novas estórias. Preparado também para ouvi-la com novas orelhas. As cidades têm personalidades, disse alguém que provavelmente entrou em diálogo com elas. Ou teve uma discussão, um desacordo; tanto faz. Quanto mais personalidade, mais brigona. Eu também o diria, mas hesito em cometer mais um desgaste em um texto que já vai se cansando de tanto efeito. Apesar disso, confesso que o falei, embora transferindo a responsabilidade para a boca de um alguém.
            A vantagem dos simulacros sobre as definições científicas é que aqueles têm peso, tom, e até cheiro, enquanto estas são insípidas e neutras como a vida privada de um banqueiro. Se os primeiros são instrutivos ou não é matéria de controversa. Os cientistas vão sempre caluniá-los, acusá-los de enganadores. Eu gosto mesmo é da linguagem gorda, criativa, que confunde, mas romanceia, e não essa formalidade amarga de leis e princípios, que define, mas desilude. Por isso repito: as cidades têm personalidades. Acredito que algo parecido já foi dito em muitos lugares e por muitas pessoas; e não é à toa, se todas elas apenas dependessem de ter dialogado com uma cidade para elaborar o enunciado. Há vozes que nunca se calam nas esquinas e endereços. Ninguém fica sem assunto. Basta, pois, ter ouvidos para suas sugestões. Há cidades convidativas e hostis, senis e joviais, doentes e saudáveis, determinando as perspectivas que nela podem nascer, os conflitos e armistícios que nela se podem assinar, as convulsões artísticas provocadas pelas suas dores estomacais, seus espasmos culturais. Há uma diversidade rica de possibilidades discursivas e de leis e ideias presas nas malhas da polis.
            E a sensibilidade fica mais aberta, porosa, quando as habitamos na qualidade de hóspedes. Quando podemos medir o modo como ela trata as visitas. Porém, é nesse estado que estamos mais sujeitos a cometer más interpretações, esperando um conforto pacífico e uma recepção pouco agitada, incapaz de sacudir o espírito. O turismo geralmente tem esse efeito: comprar a hospitalidade de lugares estranhos, anular as suas vozes e esterilizar aquela mesma estranheza. Há pessoas que são eternamente turistas, pois vivem pagando a hospitalidade alheia. E vencer completamente esse estado é muito difícil, pois é vencer um inimigo poderoso: a inclinação a preservar as fronteiras de nossa zona de conforto, nossa economia íntima, onde administramos nossas dívidas e cobranças. É preciso ser amplo e abrangente na administração dos próprios preconceitos, para curtir os lugares estranhos em vez de apenas estranhá-los.
            Nas colheitas de outros mundos, não haverá senão estéril refeição de vivências se o viajante não souber ver toda a riqueza humana encerrada dentro das possibilidades domésticas de sua própria experiência. A areia do deserto, o gelo da montanha e os animais silvestres serão apenas redundâncias. Não sou do partido contrário ao de Marco Polo e nem advogo contra a frase de Fernando Pessoa (“viajar é preciso...”), que mesmo depois de desgastada em clichê não perdeu a pimenta e nem deixou de estimular faíscas. Só lembro que o cego do espírito não pode tirar vantagem da velocidade de um avião para compensar a lerdeza tardia dos olhos. Nenhuma palavra será tirada de outras cidades se a sua própria, e quiçá sua casa, não for uma estufa igualmente poderosa para fermentar o álcool embriagante da vida. Não foi a pressa insensível de certos europeus míopes que enterrou a cultura dos índios? Queriam caminhos mais econômicos, os brutos de vanguarda, e inventaram o trânsito, foram precursores apenas da marginal Pinheiros. Posso não dar o exemplo da minha própria doutrina, e disso me recrimino. Mas se alguém tem consigo a cobiça das horas leves e calmas dilatadas, não ligará para a diferença mesquinha de alguns séculos, nem invejará a rapidez artificial da indústria de velocidades. E há imponderáveis eternidades adormecidas no tesouro lerdo das horas artesanais.  

            Voltei cheio de novos cenários, mas é com o conteúdo artesanal da minha própria sensibilidade com que tenho que me preocupar.  Durante essa viagem passei por diversas cidades, mas não me sinto tão modificado a ponto de ter aprendido algo a mais, ou escalado novas etapas do monte das ideias. Há muito turismo invencível em mim, que me impede de navegar abertamente pelas correntes e fluxos de perspectivas ofertados pelas cidades. E só não menciono os museus e as cabines enferrujadas do passado, motorizadas a dinheiro, aceleradas por pontos de vista estapafúrdios, e explodidas por combustíveis de ganância. A experiência que se nutre dos bares e da rua mantém a identidade romântica in corrompida, se alimenta da noite e do dia durante os momentos em que uma trama típica dos contornos citadinos pode acontecer ou repetir-se, reacendendo o espírito do lugar na encenação dos seus personagens.

sábado, 27 de setembro de 2014

          São mil janelas encaixadas em um conjunto festivo de torreões, formando um imenso castelo medieval de lajes, enfeitado com as cores elencadas nos varais de roupas, que em seu carnaval desfilam como oferendas ao sol da tarde. O verão não tem prazo, o sol enfeita os corpos durante o ano inteiro num esbanjamento de cor. Isso também determina o espírito, muda o humor. A pele carioca concentra doses de riqueza solar. Nos sobrados do Botafogo e Catete perduram antigas gafieiras, hoje convertidas em escolas. É a singular emanação de uma euforia que reúne o efeito de muitas agitações, uma algaravia que nunca passa, seja de manhã, de tarde ou de noite. Jovens com os pés grávidos de ideias passam ali o dia inteiro, e vão até a madrugada, em um laboratório de criação que faz às universidades inveja.  Há tantas vozes e tumultos como cores.  Lembram antigos puxadores de escola de samba alugando as cordas vocais ao serviço de feirantes. E a escadaria dos casarões e sobrados é trafegada por uma heterogeneidade de carne e espírito humano, uma fauna que seduz os olhos, porque uma coisa que nunca deixa de entreter o homem é o próprio homem, em todas as suas expressões. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O Mito dos cabarets paulistanos

 Na descrição mais detalhada já feita por quem não estava absolutamente lá, direto da boca de um autêntico amigo meu – embaixador de um legítimo cunhado de um comprovado seu primo – ouvi ontem o interessante relato de um show pitoresco de cabaré. Distintivo pelo caráter de lenda urbana. Essa é a narrativa suja de um operário de um puteiro de São Paulo, desperdício de um dom raro e exemplo de uma misteriosa vocação genética, vivendo como um animal exótico fazendo dinheiro miúdo ao prostituir seu talento de visionário em alguma espelunca que o esconde da civilização. Como um grato explorado, está satisfeito: protege-se assim da insegurança de seus pares. Compreensível é que o abordem com medo.  A humanidade nunca deixou de cobrar a existência do desusado e do pioneiro, embora – coisa injusta! – não aumente o imposto para os estúpidos e malandros que exploram as facilidades vulgares para se tornarem poderosos, ricos e privilegiados.
E assim, na calada de alguma colônia imunda de zonas paulistanas, a troco de risos grosseiros e ao julgo do olhar ignorante de clientes sem sutileza para entender uma piada, ele performa o seu número de mágica poluída, sem deixar de ser valorizado, entretanto, por nosso confiável anônimo; padroeiro de todas as estórias perdidas na marginalidade das sarjetas. 
Conta a lenda que o fenômeno era um homem comum, careca, com olhos castanhos e nariz achatado, baixinho, magro e de compleição nordestina, a mais comum das figuras do cotidiano paulista, embora no olhar meditativo refletisse luzes de um orgulho incompreensível, um toque sutil de monge tibetano exilado, de homem não mundano, aspectos que poucos percebiam. Enrolado em uma toalha e de resto nu, a sua chegada invariavelmente ceifava murmúrios de impaciência seguidos de vaias hostis, porque tomava de repente o palco que minutos antes fora de criaturas do belo sexo, e ameaçava amargurar os olhos do público com a queda catastrófica da toalha bendita, véu abençoado separando os clientes de uma  visão lamentável. E era então que a toalha caía! Todas as luzes miravam o que menos se queria ver - uma manobra enfática. Absorvidos pela escuridão nas periferias que rodeavam o astro, o público esboçava vozes de quem está sendo torturado e o murmúrio conjunto do recinto fazia lembrar os lamentos imemoriais de um jardim de almas penitentes. Ruídos de cadeiras caindo e pés de mesa rangendo; passos desesperados tentando achar o caminho da saída.
 Ato contínuo, o silêncio gradualmente se expandia, o silêncio da surpresa, dos atônitos com o tamanho desproporcional que se desenrolara como uma jibóia treinada. Uma risada: “seu jumento!”, pulava de alguma boca, e a gargalhada ressoava em ecos, irrompendo o clima de perdição, lembrando um ambiente de orgias romanas ou de macacos brincando com a própria merda. Ao palco, com os braços flexionados sobre a cintura na postura prosaica do super-herói, o rosto do superdotado assumia uma expressão de foco, o queixo se movia para diante ligeiramente, o bico do lábio inferior se pronunciava, e os olhos dilatados dardejavam o vácuo à sua frente como se tentasse levantar as mesas com a força do pensamento. Quando, sem mexer os braços, a cintura ou os dedos, semelhante a uma mangueira içada por manivelas rangentes dos bastidores, seu órgão – perdoem-me; em algum momento teria de mencioná-lo sem eufemismos! – subia implacável e contínuo como um ser dotado de vontade, como a ponta de um raciocínio que persegue uma verdade, o céu apenas por limite.
Sei que a imagem é degradante, caros leitores, e não costumo convidá-los sempre à conversação neste blog, embora agora veja a necessidade de apaziguá-los. Aviso que não deixam de prever o valor do seu sacrifício de ler até o fim, entretanto, mitigados por saber da existência desse ser desleal que se esconde da ciência e da cultura, mas não dos relatos que viajam de boca em boca – os quais se devem à ação do proverbial espirito da cidade que o assistiu e transformou em mito. Eu mesmo, quem sou, para negar o espaço modesto de meu blog para repassar a informação?
 Na posição em que o deixamos no palco, o impassível telepata fálico cerrou os olhos devagar como se acessasse a estrutura do mundo invisível, e numa apoteose de mágica incognoscível, o arauto do mistério assombrosamente concluiu sua amostra de poderes sobrenaturais eclodindo em um orgasmo de dois minutos. Dessa imagem eu lhes poupo a descrição mais minuciosa! A experiência aterradora provavelmente deixa catatônicos por dias os que chegaram a ver o colonizador salivando seu pródigo cofre de sementes, mensageiro de uma nova técnica tântrica. A sala mal iluminada de um beco qualquer o esconde da civilização.  Não vai ganhar um contrato milionário, e melhor é que continue discreto, não se expondo à ambição dos invejosos. Ainda por cima, nasceu no hemisfério errado: seria a grande sensação de uma sociedade poligâmica. Sua mulher, uma simples senhora sem consciência da própria sorte, e ainda ingrata, jamais reclamará das obrigações noturnas, porém não deixará de tortura-lo quando chegar bêbado ou esquecer de baixar a tampa do vaso. Injusta distribuicao de méritos!

sábado, 17 de maio de 2014

Nelson Sargento, Lagoa, 07/10/2012

Lua do dia 07 de outubro de 2012: Uma noite como outras na Lagoa? Exceto pela lenda do samba que pisou suas margens, aos passos miúdos da experiência, carreta humana de um armazém do tempo que vai ficando para sempre mumificado nos cadernos das crônicas da Mangueira; lá onde, em um desfile de mitos, andaram juntos poetas que valem a oferta de uma constelação, e que agora só podem mesmo ter se convertido em estrelas, habitando um céu que prorroga a chegada do “Nelson remanescente”, que sobrou para contar a história aos netos da cultura que ele ajudou a semear. O sargento desceu do carro na porta, baixinho, andou encurvado, sem pressa, cumprimentou e distribuiu autógrafo a quem pediu, e, desafiando quem achou que a madrugada ia vencê-lo, começou a cantar só uma e meia, com uma voz modificada, mas ainda atinada, fecunda, mensageira de gerações e profeta de influências do passado. Ritual de gestos musicais: deu a mão a todos os músicos do palco com a parcimônia de um cerimonioso pastor, cantou músicas suas e de seus próximos, Cartola, Cavaquinho, bancando viagens pela memória do samba, transportando os ouvidos mal alimentados do presente a um cofre de joias sonoras, tristes ou alegres, autênticas. Foi ele quem disse: ‘Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve’. Ora, mas emprestou a “Alvorada” desse sonho coletivo do Brasil, e todos nós adormecemos juntos. Domingo alvoreceu uma primavera de aplausos atrás do morro da praia mole, refletindo os ecos de uma época de gratidão.