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sexta-feira, 13 de abril de 2012

A alma do Pavão-pavãozinho

             
O apartamento que me hospeda no Rio de Janeiro pertence à família de vizinhos da Rua Sá Ferreira. Parece que o carteiro fica profissionalmente satisfeito situando o local em Copacabana. O metrô mais próximo, entretanto, e bem próximo, para dizer de passagem, é o último ponto dessa linha, convencionalmente entendido como o ponto de Ipanema, o General Osório.  A controvérsia dura, seja como for. Certamente é um lugar fronteiriço, e os dois hemisférios concorrentes estão equilibrados: não há, de fato, motivo coerente para comprar a guerra. Fico feliz de estar em um como no outro. Se estiver em Ipanema é a memória da Bossa Nova que roubo em minha experiência grata, se estiver na Princesinha do Mar, ainda não saí do cenário de tanto tumulto humano singular, de tanto vulto de expressão carioca. Aliás, ali é o berço da Bossa, segundo Ruy Castro. E as praias, ambas, são lindas. Na verdade, desdenham sorridentemente do juízo do olhar, como se desprezassem os ângulos, as linhas de perspectiva, que parcelam a completude inefável de sua beleza. São imponentes, sob a custódia de seus pedregulhos robustos.
   Que não se pode negar a divergência de espírito entre essas duas regiões, contudo, é um fato.  Há diferentes espíritos camuflados nos lugares? Não será uma emboscada da nossa própria visão, que empresta a eles associações, que às suas partículas de situação junta as sutilezas dos desejos, sonhos e assombrações? Não, há sim. Já não hesito em dar essa resposta. Há diferentes espíritos inculcados nos sítios. São bagagens de experiências disponíveis que como que pairam em uma performance de contágio, e mudam o comportamento de quem pisa nessas margens. Quando saio do apartamento e enfio à direita, é uma cadeia de gestos coletivos que predomina. Quando enfio à esquerda, é outro. E não preciso da credibilidade de uma metodologia acadêmica, ou da enganação retórica de um estilo científico, para que despeje essa interpretação como fato. Ninguém o nega, mesmo que não o explique. São tão poucos metros de distância, algumas ruas apenas, mas Copacabana e Ipanema representam mais que distintas localidades geográficas. São também diferentes conceitos.
Avultando como um inimigo se projetando de um esconderijo, um terceiro espírito se manifesta às costas de ambos os bairros. Da minha posição na sala não há outra vista. O apartamento fica no fundo dos prédios, e as janelas se abrem para a favela de Pavão-pavãozinho. Há quem alardeie inveja da vista espetacular oportunizada à gente do morro, mas suspeito desse disfarce barato da condescendência dos ricos, essa cilada dos valores, de quem joga biscoitinhos ao cachorro domesticado ou bate palmas exageradas ao perdedor. Dizer que o favelado da zona sul é privilegiado é como o tapinha nas costas egoísta que o vencedor prodigaliza, em sua ofensiva prodigalidade. Seja como for, lá de cima deve ser com orgulho intransferível que os moradores tomam posse da paisagem, reivindicando-a como sua. Imagina-se que Copacabana e Ipanema tornam-se suas concubinas especiais, posando com posições eróticas às lentes sofridas do povo, que com isso se vingam suavemente dos elevadores de serviço que frequentam cá embaixo - com a satisfação do o jardineiro que come a mulher do patrão. Eu confesso que nesse comércio há retribuição. As casinhas enfileiradas e encavaladas devolvem outra beleza, que é só delas. São mil janelas encaixadas em um conjunto de torreões, formando um imenso castelo medieval de lajes, enfeitado com as cores elencadas nos varais de roupas que desfilam como oferendas ao sol da tarde. Ah, verão infinito. Isso também determina o espírito, muda o humor. O que mais me impressiona na vista é, contudo, a singular emanação de uma euforia que reúne o efeito de muitas agitações, uma algaravia que nunca passa, seja de manhã, de tarde ou de noite. Há tantas vozes e tumultos como cores. Os gritos lembram antigos puxadores de escola de samba alugando as cordas vocais ao serviço de feirantes, durante o resto do ano ocioso. E sobe e desce a escadaria uma heterogeneidade de carne e espírito humano, uma fauna que seduz os olhos, porque uma coisa que nunca deixa de entreter o homem é o próprio homem, em todas as suas expressões. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O nome do samba


‘Eu componho samba. Pagode é festa na casa de pobre’ – disse Bezerra da Silva. Sendo honesto, eis aí uma daquelas distinções desafiadoras, meio frouxas, meio fixas. Para diminuir o caráter especulativo da discussão não irei recorrer à etimologia. Quem quiser ler se contente. Alguém mais reservado pode diminuir as chances de errar definindo a diferença entre pagode e samba pelos instrumentos. Um explora com mais intensidade o trabalho de grupo do violão, da voz do cavaquinho, da flauta, piano, enquanto seu parente pobre recolhe as sobras musicais abandonadas com a ajuda da percussão quase improvisada e o cavaquinho só. Provavelmente essa caracterização herda, junto com a vantagem de ser simples, a desvantagem de ser incompleta. Por que o acréscimo de um ou outro instrumento deveria ser tão decisivo na composição da linha de tons que caracteriza o ritmo, o seu sentimento fundamental, sua raiz melódica? Boa pergunta. Quem usa essa distinção seriamente, no entanto, quer dizer algo mais: quer dar uma ideia do abismo que separa o amadurecimento do samba, paralelo ao do jazz e de outras influências estruturalmente elegantes, do histórico carente do pagode, feito apenas de paixões cruas em estado de ebulição popular, muitas vezes baratas. A meu ver essa divisão tem um pouco de cruelmente aleatório: esses dois elementos não precisam estar separados, subsistiram, na verdade, e contribuíram por muito tempo para um mesmo destino artístico. Mesmo o samba e o choro mais finos carregam elementos populares irrevogáveis, a carga barata de sensações faveladas indispensáveis a sua nutrição, e os preservam misturados em seu interior como se permitissem assim integrá-los à sua substância, perdoando um pouco complacentemente a sua existência. Há momentos de descanso onde aparecem marcas de sua diferença: o samba de fundo de quintal, que revela uma tendência mais enfática de alguns traços do que viria a ser o pagode. Mas logo se acorda do desmaio e não se encontra o pretexto para criar um nome exclusivo, uma nova história e um novo nascimento para essa versão do samba curtido na laje da comunidade. Se, de uma hora para outra, o samba olhasse com olhos injetados e dissesse a uma parte de si “agora você é pagode”, desconfia-se de uma crise de autoestima, um esgotamento de paciência e de tolerância, uma insegurança sobre as suas próprias capacidades de continuar sendo uma unidade entre todos os seus componentes. Ameaçado por qualquer indício que rumoreja seu fim e morte, o ritmo orgulhoso já não pode tolerar essas cadeias pervertidas de tons que permeiam o seu organismo, que degeneram sua pureza, que gritam o samba grosseiro interpretado por suas linhas salientes, como o desenho de um artista ruim que delineia a cópia dos olhos e dos ouvidos, do perfil e da boca, porém sem absorver a matéria sutil que percorre as veias e artérias. Pode-se imaginar que a crise demanda uma cláusula. Exige a identificação de um culpado. O pagode, que não passava então de um nome alternativo, um apelido carinhoso para fazer justiça a uma parte do caráter do samba, ao seu estado dionisíaco, como sua segunda personalidade, bêbada, cambaleante, exultante, torna­­-se o bode expiatório de uma degeneração que exige medidas de segurança. Torna-se o culpado, aos olhos do mundo que anseia nostalgicamente a volta das eras clássicas, a saudade da poesia inigualável.  A mutação, a rigor, corre de ambos os lados. Sentindo-se excluído, esse velho irmão que se descobre de repente tachado de bastardo também passa a repugnar aquele que o rejeitou. E não é mentira que em casos particulares tenha virado de fato um monstro. Juntando o pandeiro, a percussão e o cavaco, o pagodeiro por vezes esboçou uma triste violência ao samba, cometeu um desacato, promovendo um festival de emoções baratas transformados em melodias bregas e arrastadas, chorosas e desgarradas, sem aquela energia penetrante do verdadeiro choro, apenas pobre e exagerado. Quando, enfim, essa diferença se tornara reconhecível por qualquer um, o nojo se instalou. Mesmo um gringo percebe logo a diferença: “não, esse não é o samba, o ritmo que me fez quase chorar e agir como uma criança, débil e impressionado. Não, isso é outra coisa”. E ninguém mais ignora, apesar de não poderem contar a diferença apenas de acordo com o número de instrumentos. Mas é tudo ainda parte de uma grande injustiça. A crise existe, o pagode virou o bode expiatório. Nas rodas de samba do rio de janeiro o grande fundamento é o que se aprendeu do pagode, contudo. O mundo acadêmico, com efeito, aprende muito mais com as cores da favela do que o contrário.  E, afinal, se pode sempre perguntar: "por que o samba precisa de um nome?".   

terça-feira, 3 de abril de 2012

A convalescência do Samba - crônica sobre a saúde de Ismael Silva

         Ali por volta de 1924, em algum hospital instalado na cidade do Rio de Janeiro ou Niterói, estrebuchava de dores, diz-se que à beira da morte, um humilde sambista. Que fosse sambista a essa época é coisa para confundi-lo com o próprio início do samba. Falamos de uma época inacessível ao nosso intelecto, quando uma diversidade de ritmos africanos migrados da Bahia lutava para naturalizar uma identidade carioca, e que mal sabiam se passariam do próximo ano, quanto mais que teriam um nome tão ilustre e uma dinastia de rebentos tão duradoura. 
                O humilde instalado em seu leito mortuário provavelmente não desconfiava de seu papel no desenrolar dessa história. Como poderia? Mestre Ismael Silva. Por pouco então a natureza não ceifara esse tesouro de uma cultura em gestação. Nossa sorte consiste em que, vez ou outra, coincidem os interesses dessas duas dimensões, e a doença desiste sem prejuízo da ideia que ela apagaria dos registros. Viveu muito, graças a deus. Gravou até vídeo. Hoje em dia posso ver vídeos no youtube com o mestre em pleno embalo de locomotiva, fôlego cheio de energia, mostrando com os braços a origem simbólica de suas melodias. É possível desenterrar de seus gestos, o sotaque do seu corpo, a raiz dos tons que o moço ventilara ao mundo. E que conjunção mágica de acentos na sua assinatura!
                Lembro-me de escutar “Se você jurar...” a primeira vez em uma festa de pandeiro e tamborim da Lagoa da Conceição, e no furdunço de vozes e doces euforias, distinguir muito mal a letra. A força da melodia, portanto, me tinha indefeso. A voz e a língua, o português miscigenado do país com nome de árvore, somava-se ao acento da melodia para desfalecer minha alma naquele misto de alegria e tristeza indefinível dissolvido numa solução harmônica que caracteriza uma das mais fortes contribuições do samba para o estilo. E Ismael o tinha como ninguém. Vinícius de Morais dissera que “a grande força do samba [de Ismael] é a melodia”. De fato, o é. Difícil imaginar maiores evoluções das escalas enfáticas em uma música tão suave e simples.  É como se um carro freasse e fizesse curvas de surpresa. Por isso que o seu samba é seguido pelo próprio estômago, que não menos que o pé calcula tonturas e enjoos no interior da alma. Mas paramos de falar da substância do samba, que é inefável, “nem se atreva a me dizer”.
                Diz a anedota que o moço doente de 1924 foi interrompido em sua cama de hospital pela notícia de que um tal Alcebíades Barcelos o queria ver. Aquele que viria a ser posteriormente autor de “Escola de Malandro” – junto com Noel – provavelmente seguiu algum escrúpulo de deixar entrar alguém na sua paz. Visitas de hospital, o malandro sabe, só compensa a aporrinhação se for para cobrar dívida. Mas se a morte o esperava tão de perto, que mal havia em dar uma última chance aos seus credores? Ismael o deixou falar, e recebeu a notícia de que Francisco Alves queria comprar a sua música “Não me faz carinhos...” por cem mil réis. Não faço ideia de como converter esse número para um valor atual. Mas certamente era dinheiro para motivar um doente malandro, um incentivo moral que dava à cultura uma oportunidade nova contra as garras da natureza severa. Porque se diz que depois disso o mestre regenerou, como jurou em sua música (desde que ela jurasse lhe ter amor). Virou a página do hospital para a rua, vendeu sem ciúmes a cobiçada melodia e convalesceu com honras.
                A anedota continua, contando que Ismael, bom novamente, na sua famosa escola de samba do Estácio – (o mestre se nomeia ironicamente o inventor das escolas de samba) – foi surpreendido com uma turma de pagode por um carro suspeito espreitando a esquina da música como se procurasse por alguém. Polícia? Até quem não devia nada ficou tenso, paralisado como um lagarto esperando a águia passar. Estacionado, o carro deu saída ao próprio Francisco Alves. Este foi cercado pela turma atônita e sem cerimônia de celebridade agarrou o violão, dando ao niteroiense e o seu bando uma de suas noites mais inesquecíveis, de samba vivo, pujante, anunciador, que foi até a emergência da alvorada. Ao fim, aproveitando o encantamento, o visitante ofereceu a Ismael seu contrato. A parceria todos nós conhecemos. Silva, fiel, teve a energia de não esquecer Newton Bastos na assinatura do novo projeto. E atrás dessa alvorada inesquecível, outras tantas se seguiram. Nossos ouvidos gemem de saúde graças a esse episódio de convalescência.  

sexta-feira, 30 de março de 2012

Um Araújo do deserto


            É um patrimônio um pouco vão de nosso orgulho – e também um pouco infantil e iludido, confesso – ter durante essa travessia universitária cultivado entre os amigos alguns entre os quais é fácil ver um segundo brilho, mais interior e mascarado, mais intenso e confinado, um brilho que anuncia ambições menos ordinárias e projetos despojados de vulgaridade. Adivinha-se em seu ventre o feto de muitos futuros. Conto Diogo Araújo entre um desses motivos de um pueril peito estufado. Não me confundam com um amigo antigo: não tenho esse interesse distorcendo o elogio. Quando o conheci, tinha apenas uma ideia vaga do valor de sua energia, do tom que predomina em seus segmentos de voz, de verbo, logos. Hoje só posso invocar sua presença mediante a imagem de um solitário beduíno colhendo inspirações evanescentes através das enxadadas de seus passos no deserto. Desenterrando histórias dos grãos de datas ancestrais. E seu avanço entre o assédio de monstros de areia me assombra com a estatura de uma tarefa. Não sou um amigo autorizado pelas camadas do tempo, mas desculpo minha vaidade de querer ser, entre ele e eles, um alvo da mesma regra, abarcado pela mesma universalidade restrita, seleta, terráquea, embora apontada para a lua de sua plataforma espacial. É uma ideia que incendeia as turbinas. Um pedaço ainda precoce de projetos abstratos tomando a forma de cultura. As poesias de Araújo mostram, mais do que poderia eu propagandear, o talento da visão, da dilatação e manipulação das bolhas intuitivas, a suavidade na composição das imagens, a capacidade de ser um hospedeiro das formas. Quem puder conferir, não se faça de intimidado: http://aspipas.blogspot.com.br/search/label/Cantos%20do%20Matita%20Per%C3%AA. Minha admiração é um investimento. Não preciso de pretexto para bajular quem o merece, mas também não faço nada de graça: um futuro próximo guarda um sucesso que me enaltece como um dos primeiros anunciadores. 

domingo, 18 de março de 2012

Vento Sul

Quando os galhos dos coqueiros são arrastados no ar em direção ao sul, é que o vento norte comanda o leme das nuvens. Da minha janela eu sei então que a praia Brava não dá a luz senão a lombadas bastardas, fecundada pela fúria do “maral” madrasto. Ao mesmo tempo o canto esquerdo do Santinho prospera em uma trégua de “terral”. Se o sopro caprichoso resolver encabeçar para nordeste não sobra praia do norte para surfar, porque o leste daí é apenas uma questão de tempo, e é um castigo: ao vir com força, saqueia até um pouco da beleza do mar, arruinando o seu penteado de chapinha.
            Se assim encrespado continua a sugerir paixões, é apenas porque é o mar, e na minha ilha linda não é o prejuízo de alguns cachos que vai empobrecer a imensa franja ondulada do oceano.
            Rapunzel vaidosa, dificilmente erra na cor. Está tingido de um azul e verde regular. Embora não seja particularmente caribenho, vence com grande margem as águas injetadas de barro de rio do norte e nordeste do país. Quando dorme, é como uma criança sem pesadelos. Mas eventualmente acorda de um sono pesado com uma tonelada de desejos reprimidos, remoendo as inigualáveis profundidades, e projetando sobre a superfície sua carga espumante de problemas não resolvidos. A Joaquina é então a melhor aposta. Com muita sorte sua estrutura oceanográfica permite abrigar uma estória havaiana no cenário florianopolitano. Quem se lembra dos raros swells da Joaca, quem entrou no mar de jet ski e quem se arriscou na braçada, tem mais a contar do que eu, que assisti a famosa lestada com vento oeste de 2005 das pedras.
            E quando falamos de tantos mistérios e elementos, não podemos deixar de falar do vento sul, cuja trajetória esconde conspirações em gestação nas proximidades da solidão polar. Quem vai saber o que se discute por lá? Os locais o tratam familiarmente, já sabem que três dias serão ceifados quando ele chega, trazendo um frio de inverno ou de verão, espalhando sementes de um humor novo – pois os ventos trazem humores. Zunindo como um torpedo, faz as águas do Campeche desfalecerem como paçocas desmaiadas no polegar, esfarelando a água em pó, forçando a greve de surfistas do norte e do sul. Joaquina, Mole, ou Praia Brava e Matadeiro, são boicotadas em grupo. Somente algum segredo entre pedras e lajes – que não denunciarei – resiste ao despovoamento. Toda a comunidade espera, espera, subordinada à agenda de lufadas do imprevisível. Já se sabe que o tempo é dele, três dias ceifados.
            Quando a noite chega, ele uiva, facultando imagens poéticas pelas frestas das persianas. Uiva como um cão apaixonado acusando o próprio sofrimento. Os primeiros fantasmas da minha infância foram talvez provocados pelo canto de mágoas desse hóspede indisciplinado, que me fazia imaginar por trás da janela do quarto a presença de um fôlego vivo, o hálito de alguém forçando sua história pelo filtro de cada estreito hiato das portas e janelas. É o vento castigando as gerações com sua vaidade de experiente. E minha imaginação, assim, deve muito a ele. Sou-lhe grato, sobretudo, pelos exageros inflacionando minha concepção de realidade e sem os quais eu talvez fosse tão simplório quanto um cientista. 
               Essa ilha que é território de seu domínio, há muitos e muitos séculos, foi esculpida pelas mesmas carícias mágicas que deram paternidade às bruxas. Há nessa ilha açoriana, como em nenhuma outra, sulcos profundos e rugas marcantes, cavidades que não esquecem. O vento sul soprou incansavelmente sobre a sua alma erodida. 

domingo, 11 de março de 2012

A música e os músicos segundo Tolstói

            Já faz um tempo que venho caçando ocasião para discutir a opinião de Tolstói sobre a música, usando como referência o primeiro presto da sonata a Kreutser de Bethoven no conto com o mesmo nome. Injustiça, talvez, atribuir ao autor a opinião de um de seus personagens. Afinal, é a opinião de um personagem suspeito. Para quem não leu e não se importa de ouvir parte do enredo, falamos de um marido enganado, e enganado por um músico. É um personagem com motivos para odiar a influência da música sobre a sensibilidade do animal que é o homem, e sobretudo do animal que se torna a mulher. A má fama dos músicos pelas casas de família do século XIX até que não devia ser incomum, porque não só por gasto de tempo esta deixou de difamá-lo: essa reputação do sedutor amigo da noite e finório, erudito dos segredos da persuasão, sábio de botequim e malandro. Tolstói descreve o inimigo dos lares personificado em seu conto como, além de alguém com alta afinação e possuidor daquilo a que chamam “tom”, um homem “com seus olhos de amêndoa, úmidos, lábios vermelhos, sorridentes, bigodinho com fixador, penteado da última moda, (...), com um traseiro particularmente desenvolvido, parecendo de mulher, como, segundo dizem, existem entre os hotentotes. Estes, segundo se diz, também são musicais”. Mas essa imagem heterogênea e rica de miscigenações linguísticas é uma distração. O personagem é uniforme, reflete o modo como o autor compreende mais intimamente a imagem da música, como esta se moveria nos salões se tivesse pés, e como se pentearia se tivesse cabelos e bigodes lisos. É a música a inimiga do personagem ciumento. É a música que empina aos seus intérpretes o traseiro, o pronunciando como um acento melodioso de consequências desastrosas para a fidelidade dos casais. Mas por que mais um russo traído deveria ser o mensageiro de um ódio à música que vem mais vocal que o de Platão? O filósofo convocou a sua perseguição como um assunto da república, pois hipnotizar pessoas indefesas e dominar a sua vontade é um desserviço à razão. A música inaugura um fluxo de tonalidades que infringe a razão, tira o julgamento da sensibilidade, prostrando o ouvindo sob o julgo de sensações que não são dele, que não têm presença em sua alma, que vêm de fora, como o honroso fantasma de invocações primais. Não é por acaso que as orações e preces sejam originalmente musicais. Pela música o ouvido, as mãos, os olhos, a boca e os pés, aprendem a imitar, e pela imitação sistemática chega à simulação de estados: se convence, se contradiz, se nega, afirma, acredita, em suma, pensa e sente, e sem o ter feito de fato, mas apenas por ter imitado, seguindo a cadeia do fluxo musical, como faria o corpo enquanto dança.  Basta uma digna distribuição de acentos e ênfases, declives e aclives sonoros, para criar o simulacro de uma verdade, para dispor da mesma força de um argumento, sem que de fato o conteúdo do argumento seja avaliado – é apenas a sua superfície tônica que seduz, arrasta, inclina. E por isso diz Tolstói: “a música obriga-me a esquecer-me de mim mesmo, da minha verdadeira condição, ela me transporta a outra, que não é minha: sobre o influxo da música, tenho a impressão de sentir o que, de fato, não sinto, de compreender o que, a bem dizer, não compreendo, de poder o que, na verdade, não posso”. Há o drama dos românticos, sentimentais e moralistas nessa abordagem. E, no entanto, ela poderia ser a mais correta e justa. A mesma compreensão, sem o drama do traído nem a severidade do filósofo, captura a particularidade da música em sua expressão mais elementar: sua potencialidade para incentivar imagens, invocar espíritos, ampliar a visão, em uma palavra, dilatar os poros intuitivos. Assim se corrobora o dito de que é a “janela da alma”. Porém, de fato, ela apela a nossa dimensão animal mais do que a qualquer outra, embora toque essa animalidade inspirada que pode desaguar em uma loucura inteligente, e que será sempre um empecilho à fidelidade das esposas, pois deixa a verdade e o certo nas mãos do que decide o alegre violeiro de traseiro loquaz – embora este não decida nada por si mesmo, sendo não mais que um serviçal dos tons.       

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Velho oeste medieval

Pelos meados do século XV os reis de Espanha, nação cuja reputação de superstição e intolerância durou séculos, expulsaram de suas terras sob decreto de morte todos os Judeus. Este povo, acostumado às movimentações diaspóricas, encontrou um asilo insincero nas graças suspeitas de Dom João de Portugal, que pelo favor lhes cobrou oito escudos por cabeça. Sem alternativa, os escolhidos de deus não puderam sequer participar da pechincha, e como o são todos os mais fracos, explorados, cederam sem reclamar. A condição não incrimina o rei: pondo preço em sua bondade, deixava expresso o caráter comercial de seu interesse e não se pronunciava como aliado de nenhuma parte, evitando desmoralizar a autoridade do vizinho castelhano. Assim funciona o mercado: é preciso medir o seu preço pelo dos outros comerciantes para competir. Negociando o que é certo ou errado, no entanto, o rei endividava a própria consciência. É o peso da coroa, tomar decisões difíceis.
 Como bom vendedor, para todos os efeitos, prometeu além do asilo o transporte para a África. Que satisfação pessoas nascidas na Europa poderiam ter com essa proposta de despejo? Quem pergunta esquece talvez a motivação independente fornecida pela carinhosa e abençoada instituição religiosa conhecida pelo nome invocativo de Santa Inquisição. Seu eco sugeria calafrios mesmo em não-Judeus da época. De modo que pagar para estar longe dela não podia ser assim um mau negócio na mente de um, ainda que tivesse que abordar a África selvagem e muçulmana para livrar-se da condenação histórica perene que lhes fazem os cristãos pela responsabilidade da morte de seu precursor espiritual. A proposta, a princípio desencorajadora, podia ao fim do raciocínio soar mesmo imperdível.  
Dom João lhes impôs um prazo, após cujo vencimento os reduziria à condição conveniente para terras de sectários fanáticos de cristo: a escravidão. Afinal, não era de se esperar que o interesseiro monarca fosse arriscar-se a uma controvérsia com o vizinho por causa de meros Judeus. Na contagem final do tempo concedido, verificou-se, entretanto, que o número de embarcações era escassa e precária. A frota se distribuía desorganizadamente ao longo do porto de Lisboa no dia da viagem. Em seu convés porco, fitando maliciosamente os novos passageiros de sua majestade, se empoleiravam vulgares marinheiros de sensibilidade engrossada pela força da circunstância, gordos e sujos, ou robustos de trabalhos braçais, criaturas de profundos preconceitos e vasta ignorância. Grandes gigantes de roupas largas e rosto moreno lascado pelo sol, animais de gestos bruscos e voz forte, displicentes e comediantes profanos, sem respeito por nada exceto por suas superstições marítimas e religiosas. Observando seus companheiros de viagem, a grande população de exilados, como cães maltratados habituados à desconfiança, reconhecia-os como essa classe de homens simples e obedientes que há em todo povo, até mesmo inofensivos, mas sempre prontos para tirar vantagem sem remorso das margens permitidas pela sua própria tradição. E o que eram eles, Judeus - o nome diz tudo - naquelas embarcações, senão mercadorias de menor valor que as comercializadas? Quem notaria ou cobraria uma avaria em seu corpo?
Viajar embalados de um lado para o outro como ciganos anônimos era o seu resignado destino. Os que puderam embarcaram; os que sobraram esperaram. A data de expiração fora prorrogada. E enquanto isso os deixados para trás fundavam raízes em Portugal com seu talento sempre louvado para o cálculo e o dinheiro, sua intimidade com as nuances virtuais da moeda, sua face viciosa, capaz de gerar inflações e levantar riquezas através da sacrílega economia de promessas e juras, modificações do crédito. Séculos de servidão lidando com a contabilidade da casa de fidalgos lhes antecipou a vocação para especuladores, que hoje tanto se aplaude nos operários de Wall Street. Para os cristãos, fazer dinheiro nascer do dinheiro daquela maneira não poderia parecer menos que bruxaria, pacto com o demônio. Explorar o valor do valor, o crédito da moeda, coisa blasfema de anticristos, vendendo a fé que só se deve a deus. Motivos e superstições para odiar Judeus fecundavam.
Os que conseguiram embarcar rumo à África sofreram o peso das humilhações, maltratados como vira-latas indesejados, fretados tal qual um pacote de má sorte forçosamente tolerado. A primeira nuvem de ruins agouros levantou na tripulação o desejo de arremessa-los ao mar. Eram responsabilizados por qualquer empecilho. O que era uma viagem ao continente encostado se transformou em uma ida e vinda interminável, posto que os passageiros ilustres do rei fossem tudo menos prioridade. Submeteram-se a um elenco pródigo de escalas comerciais enquanto seu suprimento pessoal ia chegando ao fim. Como não tinham exatamente o direito a uma opinião, nunca lhes fora dada uma estimativa do destino. E com a resignação e paciência hebraica de quem espera ser desagravado por um deus vingativo, singraram mares pagando caro para comer e beber da provisão dos seus carrascos pilotos. Essa condição se estendeu até o ponto absurdo de desembarcar com apenas a camisa do corpo: um figurino atraente para começar a nova vida em um terreno hostil, não bastando já o estigma do povo execrado – e escolhido.
A notícia do transporte abominável chegou aos ouvidos dos que ficaram e os conformou com a alternativa de se estabelecer em Portugal, como servos. O sucessor de João, o célebre Manuel patrono das navegações, aboliu a sua miserável situação concedendo o benefício dos direitos políticos. Porém, a liberdade não os converteu a cristãos e o povo de Abraão permanecia instanciando as leis como estrangeiros sem raízes, o que seria a sua tragédia até o século XX. Faltava sempre a confiança, o benefício da dúvida, para que lei pudesse ser interpretada da mesma maneira com relação a eles e os outros súditos. Sua presença instaurava essa desproporção na distribuição do crédito social que cativa os pobres e alimenta a impunidade dos ricos, faz escravos mesmo numa democracia. O rei esperava ingenuamente que o apego pela Europa e a terra de Portugal, onde já tinham granjeado riquezas, mais a intimidação dos marinheiros e o conforto de uma terra conhecida, houvesse lhes influenciado ao cristianismo. Subestimou a reconhecida obstinação de ânimo religioso desses herdeiros inveterados do antigo testamento. Não demorou a que, mudando de opinião, Manuel lhes ordenasse a saída do reino. Nem assim ganhou o monarca novos súditos. Os perseguidos infelizes preferiram enfrentar o temperamento imprevisível dos piratas que decepcionar seu deus antigo.       
     Manuel, frustrado, suprimiu dois dos portos assinalados ao transporte dos estrangeiros. Assim radicalizava as consequências da decisão dos firmes circuncisados, os forçando a colher apenas desvantagens dela. E qual a vantagem disso para o rei? Por um lado intimidava mais passageiros, temerosos de compartilhar uma nave pequena com ambiciosos e agressivos animais do mar em um percurso agora ainda maior. Com efeito, alguns judeus, encantados pelos seus próprios tesouros, não temiam nada mais que um saque. Por outro lado, dessa maneira facilitava a execução de seu plano de separar os pais dos filhos menores de quatorze anos, os aglomerando todos em um mesmo cais. O projeto macabro envolvia a possibilidade de recrutar os jovens ao cristianismo em um período mais liberal da educação.  
Novamente fora subestimada a paixão e fidelidade dos banidos. Ou talvez fora superestimada a incondicionalidade do seu amor à vida dos próprios filhos. Cercados pela milícia do Estado, percebendo que lhes roubavam dos braços os primogênitos, por egoísmo e compaixão, essa miscigenação insana de emoções, se lançaram aos fossos do mar junto com os filhos, deixando-se esmagar pelos navios que descansavam rente aos muros do porto. Um espetáculo horroroso de sacrifício calculado, resignado e cruel registrado por Bispo Osório, historiador latino. Poupavam os filhos da violência que não conseguiram impor aos pais, os banindo da própria vida, sentença radical talvez demais para quem não teve sequer opção do livre-arbítrio ante os dilemas sufocantes que acometiam aquele povo de compleição estóica. É como se arrastassem uma lógica maldita: se houvesse algum futuro cristão entre os precoces projetos de homem, os pais não faziam mal em vingar a desonra os chacinando e, a respeito dos firmes moleques que em circunstância normal não negariam as raízes, lhes prestavam o serviço de salvá-los de uma vida imperceptivelmente vivida na fé errada. Portanto, praticavam essa regra fatídica dos pais: decidir sabendo que os filhos lhe agradecerão no futuro. Exceto que nesse caso não haveria ocasião futura de agradecimento, a não ser na outra vida, aquela de felicidade eterna, para onde as almas iriam na condição de não aceitarem o falso Messias, o cristo. Vê-se que o egoísmo dos pais vale fácil por altruísmo.  Finalmente, esgotado o prazo de partida e sem meios de transporte, os Judeus remanescentes retornaram à servidão, condição na qual construíram sua micro-história e sua participação na rede de negociação da liberdade, deixando seu testamento paralelo aos séculos e ciclos de ideias que nós, muito orgulhosos, lemos nos livros e documentos contados pela versão dos vencedores, convencidos de que nasceu tudo de uma peregrinação espontânea do espírito livre da humanidade.
Uma minúscula fração se converteu ao cristianismo. Nunca se pôde acusar hipocrisia à fé e identidade desses assolados.