A cidade de Lençóis é uma cidade de garimpeiros, me disse com relut^ancia o guia, resistindo retoricamente à minha pergunta sobre a atividade ilegal de
extração de pedras, como se me avisasse para não tocar no assunto com essa
honestidade semântica tão violenta. Contudo, ele gostava de apontar cada
armação de pedras fragmentadas que enfeitava a trilha, recompondo a véspera
transparente, sugerindo o passado movimentado daquelas estradas sem pavimento.
Eram os destroços do que antes foram abrigos solidários aos homens tomados pela
febre do diamante, uma vez que a pé a cidade mais próxima poderia custar cinco
horas de trabalho atrasado. Quem eram esses homens? Tive vontade de perguntar.
Mas minha pergunta não faria sentido, o guia jamais entenderia a raiz da minha
curiosidade, minha vontade de saber a que vazio humano essa raça obedecia, que
grande épico da angústia espiritual eles protagonizavam, com que íntima coragem
exploravam as condições de uma ambição ilimitada e solitária. Queria saber a
qual cultura de sofrimento e de prazer eles pertenciam, que tipo de músicas
nasceria de sua experiência, que literatura seria escrita inspirada por suas
frustrações e sucessos. Passamos por uma casa de garimpeiro intacta, uma
metáfora de madeira embutida harmoniosamente na estrutura de pedras, como uma
miscigenação poética de obra humana e natural. Ali ainda poderia viver alguém,
e era inverossímil que não houvesse um dono contemporâneo. Foi quando fiz a
pergunta, e o guia tergiversou, ambíguo, como se protegesse um segredo que não
era seu. E eu queria fazer minha pergunta: quem eram esses homens? Mas aqueles
misteriosos homens dessa breve civilização em ruína não teriam para ele nenhum
encanto. Ele provavelmente acompanhou a sua trajetória sem reconhecer nenhum
vestígio de mágica: eram seus tios, seus pais. E o sacrifício? O abandono e o
delírio da riqueza? Mesmo o fracasso, nesses casos, tem de ser grandiloquente.
Resolvi traçar minha estratégia para roubar a verdade com essa pergunta: muita
gente enriqueceu naquela época? Ao que ele respondeu: olha... só quem
enriqueceu mesmo com os diamantes foram as prostitutas. Sim, pensei, as
prostitutas. Mas, ele continuou, não é bom usar esse nome para falar das
mulheres da vida em Lençóis não, me advertiu. Não precisei de mais explicação,
se era verdade que a origem das árvores genealógicas de famílias respeitadas
foi aninhada nos diamantes conquistados pelo suor sexual de persuasivas
oportunistas. E por que não? O próprio mito da fundação de Roma, quem sabe lá
se não encobre uma dessas verdades rasteiras que a elite se esforça por
erradicar dos livros da memória. Esbocei abordar o assunto, porém, o guia
tergiversou novamente, mais uma vez me ditando um limite retórico, um aviso
amigável de recuo: fim da linha. Ali podia estar em jogo a reputação de sua avó – com todo
o respeito.
statcounter
sábado, 28 de julho de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Chael Sonnen e a semântica
A
comissão atlética de Nevada concedeu a Chael Sonnen, lutador do Ufc e
desafiante de Anderson Silva, cuja apresentação hoje em dia é mais ou menos
supérflua, o direito a usar um tratamento de reposição de testosterona na
preparação para a luta no dia 7 de julho. O motivo é a alegação de
hipogonadismo, uma condição médica que afeta o nível de testosterona do
organismo. Tudo parece legítimo quando é embasado pela sabedoria impecável dos
médicos. Porém, esse caso especial acorda as pulgas detrás dos ouvidos, pois se
trata de um lutador dessas jaulas de violência que ganharam repercussão nos
últimos anos e que, para todos os efeitos, exigem do corpo do atleta uma
resistência e uma estrutura corporal extraordinária. O fato de faltar
testosterona a um homem para habilitá-lo a lutar no Ufc, longe de causar
espanto, apenas concorre com o esperado, uma vez que a grande maioria de humanos
vivos hoje não tem a média necessária para competir naquele nível de
agressividade. Por sorte, lutar no Ufc não é uma determinação médica, mas uma condição
que depende da liberdade do arbítrio, e por essa razão muito cara ninguém é obrigado
a receber reposição de hormônios para entrar em jaulas com monstros de fisiologia
anômala até para a ciência médica mais heterodoxa.
Mas Chael Sonnen parece estar se
beneficiando da confusão entre uma condição
médica e uma condição para lutar.
A primeira constitui uma determinação de especialistas fundamentada em um
conceito geral de saúde corporal, enquanto a segunda é apenas um esporte, e sua
condição varia dependendo contra quem você vai lutar, o nível da competição,
etc. Para entrar em uma jaula com o Anderson Silva, não basta ter uma condição
médica satisfatória, é preciso se basear na saúde de super-humanos, e se munir
com as drogas do super-soldado ou com uma dose de exposição a raios gama. O
assunto põe em questão muito mais do que a simples saúde de Sonnen, mas sim a
sua capacidade de superar Anderson Silva. Ora, mas então os senhores médicos
são aqui outra coisa: são senhores da retórica. Na medida em que sua decisão
afeta menos a saúde do paciente do que sua condição profissional, os médicos
fazem aqui um papel político, não científico.
De qualquer forma, uma condição
médica pressupõe uma deficiência involuntária, e lutar profissionalmente
não é uma obrigação. Chael Sonnen é livre para
escolher outra profissão. Seu índice baixo de hormônios não afetará suas
relações conjugais ou os outros empregos que ele decida exercer. Seu problema
se limita a lutar, mas socar outra pessoa obviamente não é uma condição médica,
e o profissional da saúde que se atreva a dar opinião sobre isso está
atravessando os limites impostos por seu diploma: não é mais médico, mas sim um
estrategista de combate. Pela mesma lógica, poderíamos trocar as mãos de
lutadores com pouco poder de knockout por outras mais duras, quem sabe com um
implante de metal nos dedos. Não apenas médicos, como engenheiros e técnicos de
todo gênero poderiam ser chamados para suplementar as pobres carências de galos
de briga.
Nem falei ainda do que mais sofre o
prejuízo dessa decisão da comissão atlética: a própria justiça. Pois, pensemos
juntos, o que é justo e o que é injusto em uma luta profissional? Alguém dirá
que uma luta vale tanto como uma guerra, não podendo ser injusta ou justa: tudo
vale. Mas aqui falamos de uma luta profissional, onde alguns sinais servem como
a expressão absoluta da voz dos participantes, como os famosos tapinhas, que
significam pedir água, desistir. Portanto, é uma modalidade de luta que ainda se
submete à política. Como nos outros campos políticos da vida, é a natureza das
leis que protege a justiça. Não há outro jeito de decidir o que é justo em uma
luta, senão como se decide o mesmo no contexto doméstico ou público: as leis
devem ser cumpridas sem exceções para os ricos ou para os pobres, para os
negros ou para os brancos, etc. Ora, há regras no Ufc. Se através de retórica a
interpretação dessas regras começa a ser feita cheias de exceções, concessões,
não há mais a justiça. A falácia de Sonnen consiste em transformar com um golpe
corrupto de semântica a palavra “esteroide/anabolizante” na outra mais suave,
aliciante: “tratamento de reposição de testosterona”. Dessa maneira ele consegue
inserir a semente da injustiça, que jamais cresce saudável: mas fecunda
contágios doentios nas negociações humanas.
A alternativa é argumentar que o tal
tratamento é como uma “ação afirmativa”. Mas comparar galos de briga com pouco
testosterona com personagens civis paralisados socialmente por preconceitos arraigados
na interpretação das leis é, no mínimo, uma manobra ridícula. Ao cabo, não é
diferente de compará-los com deficientes físicos. Seja a alternativa que for,
Sonnen não pode desmentir sua irrestrita liberdade para não lutar, procurar
outra coisa para fazer. E por mais triste que isso seja para um lutador, não é
nem de perto triste como não poder andar, ou não ter chances na competitividade
social. Em uma luta profissional, provavelmente
se alguém tem uma habilidade maior, ou a capacidade de explorar suas vantagens
melhor, ele sairá o vencedor, mas se, por outro lado, ele não puder fazer isso,
não é razoável que ele possa compensá-lo através de uma maneira artificial, um golpe de semântica com ajuda de médicos, ou
uma ação afirmativa. Isso fere o próprio conceito que temos de esporte.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
A eterna rinha dos boêmios com os moralistas
Passei os olhos pelos jornais dos
últimos dias e me deparei com o mais novo assalto contra a própria reputação cometido por Ronaldinho Gaúcho, sempre mais leal à sua inclinação boêmia que ao
desejo de satisfazer as chefias, ou quem quer que seja. Lembrei-me então de
Romário em sua fase memorável. Dizem que o carioca barganhava com o técnico sua
saída do campo para o carnaval, e quando interrogado sobre sua volta ao Brasil,
durante sua melhor fase no exterior, apenas sugeriu ao repórter: “você não sabe
o que é morar no Rio de Janeiro”.
Vi em seguida outra enxurrada de
reações dos cronistas indignados erigindo promessas de inferno contra o jogador.
Houve quem o chamasse de vagabundo, outros de farsa. O que esses muito
respeitáveis velhos encalhados em sua ilha de decência têm de superar é o fato
de que nascerão sempre versáteis moleques cheios de molejo e vida, talentosos o
bastante até para desperdiçar seu talento. Têm de aprender que o seu
comportamento escandaloso não é uma questão de domínio público, ou uma
exploração da confiança civil, e muito menos a carga de uma dívida que eles
fazem com os invejosos. Pode parecer uma injustiça dos céus, mas não há no
mundo cláusula alguma reputando aos jovens levianos a responsabilidade de
indenizar a amargura de anciões reprimidos que sofrem entediados com a própria
memória. A propósito, é de desconfiar do moralismo de quem cobra essa dívida
inexistente. Parecem aqueles infelizes que xingam de vadia a mulher que não
concedeu em dar-lhes a felicidade.
Por outro lado, o moleque e a menina
muito encantados por sua própria liberdade não deveriam tampouco tentar
desmentir a existência da palavra experiente, a voz da idade, que ganhou a
confiança de falar mais alto e cravar na terra o valor de sua lei e censura.
Por mais modelos em que a sociedade possa se camuflar, permanece fixa a
condição de fidelidade exigida de seus membros. Os vários modos de
credibilidade que estruturam a coexistência social são mapeados justamente pelo
sistema de débitos instaurados dos antigos para os novos, e não se deve jamais
subestimar o poder de sua cobrança. É essa verdade simples, porém capital, que
falta à inteligência de uma camada de descontentes sociais. Ou aquela que eles
preferem não ver.
Eu, que me considero um boêmio até
onde posso, acredito que a boemia é a vida como ela deve ser vivida, porém não
dissimulo ignorar que a sua energia prazerosa nasce de um abuso do crédito
social, não da conformidade com a regra do dia. O boêmio vive, justamente, ao
avesso da regularidade diária. E se não
fosse assim, ainda seria bom?
domingo, 20 de maio de 2012
Noriel Vilela - O Umbanda, o samba e o funk
Não se pode calcular numa doutrina exata a
quantidade inumerável de formas com que os ambíguos elementos da cultura
africana se dissolvem no submundo das sutilezas musicais. Porém, a assinatura
de sua origem é feita com letras fortes. E seu sangue negro continua a ser
filtrado e semeado na estrutura fina do estilo, pela ordem de uma regra
incompreensível capaz de soletrar a cifra do continente-mãe seja em blues, seja
em samba, em salsa ou em mambo. Noriel Vilela traduz o espírito das religiões
afro-brasileiras na tristeza e na alegria do samba, aproveitando em
contrapartida a inteligência de cintura emprestada dos sopros de influência norte-americana,
os abraços elétricos do balanço ritmado do funk. A sua música narra uma
constelação de sensações, dando a elas fluidez e fluxo. Mistura uma vibração que
vêm dos cantos repetitivos aliterando sílabas rebeldes de escombros de dialetos
tribais, balbucios desenterrados do fundo da infância negra: “Ororum dá ah haha
ah há”. Noriel era um homem religioso, violentamente envolvido com os poderes
de invocação de sua alma. Não podia ser diferente, sabemos quando ouvimos sua obra.
É difícil dizer de onde vem o gênio de um homem, de que fonte nasce sua
pulsação de energia elementar, seu talento para oferecer num gesto pessoal toda
a invocação de uma fase da cultura, da história, da música. Teria vindo, em
Vilela, da sua compreensão do Umbanda? Deixemos essa dúvida fútil de lado. Outra
coisa é mais importante. É que se vê logo que candidato ao título de gênio assim sub-repticiamente, sem segundas explicações, um homem que é uma incógnita da música brasileira. Mas não
me podem criticar o pressuposto do texto, é essa tese, afinal, da genialidade
incontestável do homem, que peço ao leitor como uma hipótese garantida pelo
benefício da tolerância. Tenho meus motivos para gastar minha credibilidade em
alguns eleitos do meu gosto. Mas me surpreendo de ter procurado mais sobre ele
e nunca achado uma bibliografia mais substanciosa, nem uma homenagem mais expressiva,
tendo visto o alcance intuitivo de sua realização no cenário da música. Até hoje
não vi o que o rivalizasse: inigualável não apenas pela voz de baixo, mas pelo
tom geral que ele dava ao som. E tudo isso em apenas uma gravação de álbum (“Eis o ôme”), o que nos deixa a insinuação dos milagres interrompidos, nunca feitos,
pelo mago intérprete de divindades cheias de molejo. Morreu cedo demais. Cedo
demais para que fosse reconhecido pelas toneladas de seu espírito, apesar de
ter conhecido uma fama efêmera que era inevitável pelo caráter popular de suas
canções. Não será, entretanto, injustiçado pela burocracia tardia do tempo:
cada vez que o escuto em meu carro com uma carona ou amigo um novo ouvido é
alistado, invariavelmente perguntam o que é aquilo, e se dão o tempo de uns
momentos de reflexão pelo sambista de tão singular sonoridade, dono de tanta
marca autoral. Há gente que não acredita que passou tanto tempo sem conhecê-lo –
a não ser pela música gravada pelo Funk
como le gusta e que, a rigor, é a que menos transmite a regra de seu valor
musical. E há muito pouco parecido no labirinto confuso das influências
musicais, embora a época tenha dado outras expressões similares de sua arte. Até esse texto apenas se redime pela humilde ambição de fazer mais pessoas procurá-lo e ouvi-lo. Quem sabe possamos esperar com um otimismo ingênuo que a repetição incansável
da sua produção miúda, agora que novas gerações podem lançar os olhos sobre ela
com a ajuda da distância, imprima em novos músicos a carga de suas sensações
lidas através dos sons, e quem sabe o futuro guarde o fruto das sementes
africanas que o grande regou. E que novos fatos concorram para exumá-lo do anonimato. Que sejam desvelados sinais e vestígios da vida misteriosa desse tesouro do estilo brasileiro.
terça-feira, 8 de maio de 2012
A humilhação pública do autor na era das novas políticas editoriais
Francamente: não se pode deixar todo mundo feliz. Os blogs hoje são um símbolo de como o conceito de “publicação” é adaptável e relativo. Junto com a onda do progresso na forma de divulgar literatura, entendida da forma mais ampla o possível, as antigas juízas solenes do que será e o que não será lido também adotaram modelos reformados. Há agora um grupo de editoras que abriga aquelas de pequena tiragem. Basicamente, são as editoras que cobram ao autor o custo de sua publicação. Se isto começou ou não como um modelo elegante de golpe já não é possível avaliar, mas hoje a difusão da prática já lhes deu o direito de se arvorarem com a mais descarada das faces inocentes. Estão quase sufocadas com seu ar de legitimidade. Qualquer que seja a verdade, de todos os que aproveitarem alegremente dessa facilidade nova na história do mercado editorial, não se pode deixar de mencionar quem sobra: a própria dignidade do autor, que sofre essa sumária defasagem da confiança básica que, antes de tudo, deveria ser investida pelo patrocínio da editora. Pois sem ela, sobra apenas o autor; e ninguém é mais suspeito que o próprio autor do livro na propaganda de sua obra: é suspeito porque é pressuposto, e o fato de fazer uma boa crítica de si mesmo não será jamais um evento surpreendente. Com mais frequência será tomado por arrogante, ou autocomplacente. Imaginem se os prefácios do próprio autor deixassem de usar o tom de respeito e humildade, e passassem a usar o tom predador e desrespeitoso dos pregadores e conversores religiosos! Impossível imaginar boa literatura escrita assim. Essa nova política, porém, considera as vantagens de submetê-lo à humilhação de ser o único a investir em si mesmo, traindo seus sonhos pela raiz. A editora tira habilmente o seu corpo fora, e sequer atesta a qualidade da obra com o seu próprio exemplo: afinal, se nem a editora patrocina a qualidade do texto, que exemplo oferece ao possível comprador? É uma boa distorção do conceito editorial. O autor agora deve carregar um papelão de mendigo escrito: “me compre”. Não se pode deixar todo mundo feliz, como disse. E não há que culpar um lado ou outro, a verdade inapelável é que se depender do mercado a editora que aposta em literatura com a ajuda do próprio faro irá fatalisticamente ser condenada às chamas da falência. As opções são restritas: trabalhar apenas com planejamentos de mercado, que devem levar em conta sempre os tratados de psicologia infantil que reduzem o ser humano ao seu complexo de fetiches e vaidades pueris; ou pedir que o próprio autor arque com as despesas e o risco de seu fracasso, devassando preliminarmente o benefício da dúvida e colocando a nova literatura em uma perigosa encruzilhada: a de ser suspeita até que se prove o contrário. Mas: sem advogado de defesa!
sexta-feira, 13 de abril de 2012
A alma do Pavão-pavãozinho
Que não se pode negar a divergência de
espírito entre essas duas regiões, contudo, é um fato. Há diferentes espíritos camuflados nos
lugares? Não será uma emboscada da nossa própria visão, que empresta a eles associações,
que às suas partículas de situação junta as sutilezas dos desejos, sonhos e assombrações?
Não, há sim. Já não hesito em dar essa resposta. Há diferentes espíritos inculcados
nos sítios. São bagagens de experiências disponíveis que como que pairam em uma
performance de contágio, e mudam o comportamento de quem pisa nessas margens. Quando
saio do apartamento e enfio à direita, é uma cadeia de gestos coletivos que
predomina. Quando enfio à esquerda, é outro. E não preciso da credibilidade de
uma metodologia acadêmica, ou da enganação retórica de um estilo científico,
para que despeje essa interpretação como fato. Ninguém o nega, mesmo que não o
explique. São tão poucos metros de distância, algumas ruas apenas, mas Copacabana
e Ipanema representam mais que distintas localidades geográficas. São também
diferentes conceitos.
Avultando como um inimigo se
projetando de um esconderijo, um terceiro espírito se manifesta às costas de
ambos os bairros. Da minha posição na sala não há outra vista. O
apartamento fica no fundo dos prédios, e as janelas se abrem para a favela de
Pavão-pavãozinho. Há quem alardeie inveja da vista espetacular oportunizada à
gente do morro, mas suspeito desse disfarce barato da condescendência dos
ricos, essa cilada dos valores, de quem joga biscoitinhos ao cachorro
domesticado ou bate palmas exageradas ao perdedor. Dizer que o favelado da zona
sul é privilegiado é como o tapinha nas costas egoísta que o vencedor
prodigaliza, em sua ofensiva prodigalidade. Seja como for, lá de cima deve ser
com orgulho intransferível que os moradores tomam posse da paisagem,
reivindicando-a como sua. Imagina-se que Copacabana e Ipanema tornam-se suas
concubinas especiais, posando com posições eróticas às lentes sofridas do povo,
que com isso se vingam suavemente dos elevadores de serviço que frequentam cá
embaixo - com a satisfação do o jardineiro que come a mulher do patrão. Eu confesso que nesse comércio há retribuição. As casinhas
enfileiradas e encavaladas devolvem outra beleza, que é só delas. São mil
janelas encaixadas em um conjunto de torreões, formando um imenso castelo
medieval de lajes, enfeitado com as cores elencadas nos varais de roupas que
desfilam como oferendas ao sol da tarde. Ah, verão infinito. Isso também
determina o espírito, muda o humor. O que mais me impressiona na vista é,
contudo, a singular emanação de uma euforia que reúne o efeito de muitas agitações, uma algaravia que nunca passa, seja de manhã, de tarde ou de noite. Há tantas vozes e
tumultos como cores. Os gritos lembram antigos puxadores de escola de samba alugando as cordas vocais ao serviço de feirantes, durante o resto do ano
ocioso. E sobe e desce a escadaria uma heterogeneidade de carne e espírito
humano, uma fauna que seduz os olhos, porque uma coisa que nunca deixa de
entreter o homem é o próprio homem, em todas as suas expressões.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O nome do samba
‘Eu componho samba. Pagode é festa na casa de pobre’ – disse Bezerra da
Silva. Sendo honesto, eis aí uma daquelas distinções desafiadoras, meio
frouxas, meio fixas. Para diminuir o caráter especulativo da discussão
não irei recorrer à etimologia. Quem quiser ler se contente. Alguém mais reservado pode diminuir as chances de errar
definindo a diferença entre pagode e samba pelos instrumentos. Um explora com
mais intensidade o trabalho de grupo do violão, da voz do cavaquinho, da
flauta, piano, enquanto seu parente pobre recolhe as sobras musicais
abandonadas com a ajuda da percussão quase improvisada e o cavaquinho só.
Provavelmente essa caracterização herda, junto com a vantagem de ser simples, a
desvantagem de ser incompleta. Por que o acréscimo de um ou outro instrumento deveria
ser tão decisivo na composição da linha de tons que caracteriza o ritmo, o seu
sentimento fundamental, sua raiz melódica? Boa pergunta. Quem usa essa distinção
seriamente, no entanto, quer dizer algo mais: quer dar uma ideia do abismo que
separa o amadurecimento do samba, paralelo ao do jazz e de outras influências
estruturalmente elegantes, do histórico carente do pagode, feito apenas de
paixões cruas em estado de ebulição popular, muitas vezes baratas. A meu ver
essa divisão tem um pouco de cruelmente aleatório: esses dois elementos não precisam
estar separados, subsistiram, na verdade, e contribuíram por muito tempo para
um mesmo destino artístico. Mesmo o samba e o choro mais finos carregam
elementos populares irrevogáveis, a carga barata de sensações faveladas indispensáveis
a sua nutrição, e os preservam misturados em seu interior como se permitissem
assim integrá-los à sua substância, perdoando um pouco complacentemente a sua
existência. Há momentos de descanso onde aparecem marcas de sua diferença: o
samba de fundo de quintal, que revela uma tendência mais enfática de alguns traços
do que viria a ser o pagode. Mas logo se acorda do desmaio e não se encontra o
pretexto para criar um nome exclusivo, uma nova história e um novo nascimento
para essa versão do samba curtido na laje da comunidade. Se, de uma hora para
outra, o samba olhasse com olhos injetados e dissesse a uma parte de si “agora
você é pagode”, desconfia-se de uma crise de autoestima, um esgotamento de
paciência e de tolerância, uma insegurança sobre as suas próprias capacidades
de continuar sendo uma unidade entre todos os seus componentes. Ameaçado por
qualquer indício que rumoreja seu fim e morte, o ritmo orgulhoso já não pode
tolerar essas cadeias pervertidas de tons que permeiam o seu organismo, que
degeneram sua pureza, que gritam o samba grosseiro interpretado por suas linhas
salientes, como o desenho de um artista ruim que delineia a cópia dos olhos e
dos ouvidos, do perfil e da boca, porém sem absorver a matéria sutil que
percorre as veias e artérias. Pode-se imaginar que a crise demanda uma
cláusula. Exige a identificação de um culpado. O pagode, que não passava então
de um nome alternativo, um apelido carinhoso para fazer justiça a uma parte do caráter
do samba, ao seu estado dionisíaco, como sua segunda personalidade, bêbada,
cambaleante, exultante, torna-se o bode expiatório de uma degeneração que
exige medidas de segurança. Torna-se o culpado, aos olhos do mundo que anseia
nostalgicamente a volta das eras clássicas, a saudade da poesia inigualável. A mutação, a rigor, corre de ambos os lados.
Sentindo-se excluído, esse velho irmão que se descobre de repente tachado de
bastardo também passa a repugnar aquele que o rejeitou. E não é mentira que em
casos particulares tenha virado de fato um monstro. Juntando o pandeiro, a
percussão e o cavaco, o pagodeiro por vezes esboçou uma triste violência ao
samba, cometeu um desacato, promovendo um festival de emoções baratas
transformados em melodias bregas e arrastadas, chorosas e desgarradas, sem
aquela energia penetrante do verdadeiro choro, apenas pobre e exagerado.
Quando, enfim, essa diferença se tornara reconhecível por qualquer um, o nojo
se instalou. Mesmo um gringo percebe logo a diferença: “não, esse não é o
samba, o ritmo que me fez quase chorar e agir como uma criança, débil e
impressionado. Não, isso é outra coisa”. E ninguém mais ignora, apesar de não
poderem contar a diferença apenas de acordo com o número de instrumentos. Mas é
tudo ainda parte de uma grande injustiça. A crise existe, o pagode virou o bode
expiatório. Nas rodas de samba do rio de janeiro o grande fundamento é o que se
aprendeu do pagode, contudo. O mundo acadêmico, com efeito, aprende muito mais
com as cores da favela do que o contrário. E, afinal, se pode sempre perguntar: "por que o samba precisa de um nome?".
Assinar:
Postagens (Atom)



