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quarta-feira, 7 de junho de 2017

O Impasse entre a técnica e a energia na comunicação entre os corpos (na dança de salão social)

Apesar de ser um assunto com poder de sedimentar uma atmosfera de tensão, a dança de salão moderna, quanto mais amadurece sua expressão artística independente, já não pode esconder suas controvérsias. Um dos seus traços mais fortes é a capacidade de empregar modelos de comunicação inéditos, um diálogo entre os corpos, e explorá-lo até os limites de uma criação ilimitada. Por isso mesmo surge, como uma questão inevitável, o que eu chamarei didaticamente e sem muita seriedade de “primeiro impasse da dança de salão”. O impasse entre a técnica e energia da comunicação (entre os corpos). Aqueles que decidem enfatizar apenas a técnica tendem a agir como os falantes de uma só língua, acreditando que nenhuma troca é possível fora do paradigma de um conjunto fixo de regras. Os que dançam apenas com sua energia pretendem que a comunicação avance sem sintaxe ou estrutura, pura intuição. A energia sem técnica produz uma dança cega, a técnica sem energia produz uma dança dogmática. No discurso dos professores, o tecnicismo se apresenta como uma forma de intolerância a linguagens diferentes, produzindo alunos sem juízo próprio, que precisam confiar na correlação simpliciter entre estímulo e instrução, semelhantes aos ratos condicionados pelos choques de Skinner, mas com um agravante: ratos que acreditam na linguagem de seu professor como se ela fosse a linguagem de deus, e que a reproduzem nos bailes e nas aulas em uma campanha pedagógica para policiar cada pequeno detalhe dos corpos dos demais que não correspondem ao “gesto absoluto” como lhes foi ensinado pelo mestre inquestionável. A maior parte dos tecnicistas só dançam com os alunos de uma mesma escola, e os tecnicistas mais fanáticos tem apenas um parceiro, cuja voz corporal ele/a entende perfeitamente graças ao hábito e repetição, e agora julga qualquer desvio a esse padrão como um erro intolerável. Os professores mais inclinados a um ceticismo técnico, no entanto, tendem a incentivar a combustão de alunos incapazes de padronizar formas de comunicação rápidas, efetivas e práticas, promovendo uma dança onde o único remédio para o erro é a tolerância. Por outro lado, a sensibilidade à energia do outro corpo é a única forma de oferecer pistas para correção de técnicas que se provaram pouco práticas, e é possível dizer que a dança em par não começa pela técnica, mas que as diferentes técnicas surgem depois da experimentação entre as energias em troca durante a dança. Se isso é verdade, não existe ainda melhor ethos para a comunicação entre os corpos do que a generosidade ou pressuposição de que a outra voz tem tanto valor quanto a sua, a tolerância a diferentes linguagens, o ceticismo racional ou capacidade de dar o benefício da dúvida ao outro lado, o senso de humor ou capacidade de debochar da devoção supersticiosa a uma interpretação escolar do gesto, ignorar o fanatismo técnico, em suma, maneiras de aperfeiçoar a sensibilidade ao outro corpo. E do outro lado, esse ethos, que é posto em prática nos bailes, onde funciona o mercado onde são comercializadas todas as linguagens técnicas, não perde nada por ser abafado  nas escolas, onde se deve conceder a autoridade ao professor durante aquela hora inteira sem questões. Uma coordenação combinada entre técnica e energia só traz benefícios, e aprender a navegar no meio dessas tendências é importante para preservar a auto-estima e a persistência durante os (muitos) anos de aprendizado.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Ludmilla e sua Irmã


É porque o Fábio é o que sempre foi: uma espécie de coroinha que passou da idade, um ingênuo romântico utópico desmiolado, que ainda por cima mistura requintes de cavalheirismo antiquado aos ingredientes do seu coração tolinho... 

Mas não é mentira: ele até conseguiu o que queria... só a condição que pode parecer demais cara, para pessoas como nós, pelo menos, eu acho.
O que todo mundo sabia da Ludmila é que a irmã dela causava em todas as festas, e as histórias nunca paravam. Uma vez, na minha casa, quando tocou a banda de samba-rock do pantanal, o que dizem os linguarudos é que ela fez com dois na piscina. Não, eu não vi. Essa conversa demorou um pouco para chegar em mim, já era uma história meio sem tronco, um complexo selvagem de vegetação indisciplinada. Mas eu não tinha motivos para duvidar. Por amor ao rigor cético, aprendi a podar os galhos das fofocas muito engenhosas, e especulo que pelo menos com um ela fez alguma coisa em público, o que já é picante o suficiente e, para o gosto de Fábio, algo que beira o escândalo.
Mas se ele até preferia que a Ludmila tivesse outra irmã, isso não lhe impedia de descer em queda livre em arroubos de paixão adolescente por ela. Quem é que ia fazer ele mudar de ideia? A guria era discreta, isso eu não nego. Parecia o oposto da irmã. E bonitinha. Sempre com sua luva preta, no calor ou no inverno. Voltaremos à luva preta. Eu também paguei um pau para ela, durante um tempo. Mas a minha vaidade não é mais forte que a sinceridade: sim, confesso que ela sempre arrastou uma asinha para o Fábio. Por que, não me pergunte.
Essas silenciosas profundidades supersticiosas até que não são tão secretas: pedem ouvidos, precisam de interlocução. Para mim ele sempre contou o que sentia. Um confidente malicioso, mas tinha a sua confiança. Existe uma fórmula que os apaixonados ignoram, mas que lhes seria extremamente útil recordar: é que ser indiferente e grosseiro, nos assuntos do coração, é sempre mais fácil e natural. Quando se pegam abatidos e esmagados pelo que sentem por alguma menina, poderiam lembrar que o mais difícil eles já fizeram: que é estar desse jeito. Voltar ao original, a ser como eu, é o mais fácil. Custa-nos muito admitir, é verdade, mas a nossa malandragem, mesmo a mais refinada, nunca dá tanto trabalho. Se eu quisesse ser como Fábio, talvez não conseguisse. Mas ele precisaria de bem pouco para ser como eu. 
Ludmila era, como eu disse, reservada, tímida e parecia envergonhada de alguma coisa. Parecia carregar uma culpa, uma manchinha da consciência. Como era uma sombra da irmã, que chegou um ano antes na universidade e deixou um rastro difícil de superar, ninguém jamais desconfiou que essa personalidade não estava ligada a ela. Todos suspeitavam que ela tinha interesse em deixar sua diferença com a irmã bem marcada. Por isso ensaiava ser o oposto. Imaginava-se que ela queria subverter o espelho, e quando olhassem para ela, veriam refletido o oposto da irmã.
Fábio, paladino branco consumado, como jurasse que precisaria muito mais do que uma irmã escandalosa para afastá-lo do objetivo, nunca esmoreceu. Ofereceu guerra à resistência da menina, que julgava existir por vergonha da família.
Estavam no bosque depois de um dos almoços do RU, ela sempre mexendo encabulada em sua luva preta, e sempre furtiva, evitando muitos contatos, tímida, quando Fábio resolveu lançar mão de um acesso de heroísmo gratuito e discursar sobre o que julgava ser seu grande instinto de sacrifício, o tolo, orgulhoso:

- Sabe que a sua irmã nunca foi e nem nunca será obstáculo para o meu sentimento né?

 Quanto foi sua surpresa quando a menina fez uma cara de nojo e desgosto, retorquindo que ele era um machista presunçoso. No auge de sua indignação, Ludmilla mostrou o verdadeiro motivo do seu recato. Nada tinha que ver com sua irmã, que para ela era a mais saudável e normal das pessoas vivendo sob a lua e as estrelas, mas era o que havia por trás de sua luva. Um braço falso, desses de plástico, explicava alguns de seus maneirisimos. E explicava sua personalidade. A menina perdeu um braço quando nova, e desenvolveu uma personalidade que era, sim, o oposto da irmã, mas não por qualquer moralismo barato, que isso ela não tinha, mas por um secreto medo de rejeição, que cultivou desde muito nova, apesar de ser tão linda. Mas nisso eu e Fábio continuamos diferentes: perdi toda minha vontade por ela quando soube disso, enquanto ele permaneceu fiel ao seu sentimento de coroinha ingênuo, o que, de fato, não lhe invejo.

A briga no bosque deu lugar a novas conversas, todos os dias, até que, como já se sabe, os dois começassem a namorar. Fábio uma vez disse, e desse vez, uma única, lhe admirei o senso de humor, apesar de desconfiar que quem viu a frase com ironia fui eu, e ele estava apenas a ser honesto:
"Talvez, se ela tivesse o braço, não seria mesma Ludmila..."

domingo, 20 de março de 2016

O método de jardinagem Adelmo-Figueira

Adelmo-Figueira não perdia uma refeição sem seu gole de cachaça. Levava o elixir num cantil, de modo que imprevisto algum o podia surpreender. Adelmo tampouco abdicava da oportunidade de magoar os ouvidos de seu amigo Josué com o flagelo de uma campanha de opiniões egocêntricas. Sentado ao seu lado, a viagem era longa. Já era o segundo dia suportando notícias polêmicas e assuntos enxutos de sangue. Agora ele dava opinião sobre a onda ecológica. “Aguentar você por dois dias e sua matraca é serviço de santo! – desembuchou Josué ao figueira quando chegaram a um posto no meio da estrada.
            -... eu sei, eusei que é difícil de ouvir, quando alguém tem mão pra dizer a verdade, ninguém tem culhão pra ouvir... Mas é certo: esse negócio de aquecimento global é asneira. O petróleo é a melhor fonte de energia, e não vai acabar nada! Eu, você, vamos tudo virar petróleo! E árvore é boa cortada, que em pé só atrapalha o progresso... O planeta só se aquece, não tem jeito não, esfriar é que não vai.  Reclamar de aquecimento é como chorar porque o relógio não corre pra trás...
            O posto esquelético, com catadura de abandonado, era o único vestígio de povoamento humano que a vista alcançava.  A paisagem lembrava o intestino do sertão, um ermo absoluto que a estrada condescendia em contornar, como uma promessa de resgate cobrando um favor no meio do deserto. E aquela massa de viajantes acalorados descia do ônibus com pressa de chegar ao ar; esse ar seco do nordeste que, por intragável que fosse, ainda vencia a bolha de abafamento daquela atmosfera enclausurada de quatro rodas durante a hora do almoço.
            Seu Josué passeava de um lado para o outro esticando as pernas enquanto os demais se serviam de água na lanchonete caindo aos pedaços. Felicitava-se os minutos de sossego sem o camarada e as conversas de ciência. No estacionamento, além da embarcação negreira que vinha vencendo asfalto de Socorro-SP ao norte do Brasil havia um único carro, em cuja porta aberta uma mulher de pé vinha empoleirada, de bruços com o peso sobre o capô, analisando antenadamente um por um aos pacientes que se estendiam em sua linha de visão como uma manada migrando de miragem para miragem. Vestida conservadoramente, com saia cumprida, de branco, fazia bem a imagem da família caipira. Curiosamente, seus olhos trabalhadores pareceram descansar em Seu Josué, como se nele algum problema se acalmasse. Pintado com a tinta atraente de uma solução, um pouco encabulado, o senhor de seus quarenta e poucos anos se deixou assediar e até se fez de vaidoso, redefinindo a regra de seu ritmo corporal ao capricho da passarela de calçamento esfolado e rachado, entremeado por intervalos de terra.
            Atrás, um berro de cachorro acossado. “... de novo, seu safado!”, gritou uma voz íntima que, em contraste, vinha se projetando desde a esquina do galpão pela garganta de um homem com uma perna levantada à altura da bunda de um cão vira-lata, em um decreto que seu pé lhe fazia ao rabo. O bicho tinha a destreza para soluçar em um pulo com o efeito da bicuda, sem deixar de agarrar no ar um membro carnudo de frango assado que acabara de lhe escapar das mandíbulas com o impacto, prova de sua culpa no saque à marmita do zangado. Era vida naquele clima de necrotério escaldante! Seu Josué observara com divertimento a dinâmica daquela relação, onde o cachorro abusado certamente também abusava do dono do pé carimbado em seu traseiro. Provavelmente era uma dupla de amigos ranzinzas, uma família desafiando os limites da própria paciência, para todo o sempre enquanto durasse o reinado do sol e da poeira na única habitação de um deserto sem fronteiras.
            Do outro lado da margem da interpretação, a mulher, sinceramente descontente, saiu do conforto inerte da sua posição de observadora para assumir a de atora enérgica. Atravessou a distância que separava seu juízo da ação, chegando perto do rapaz enquanto soltava pelo caminho as exclamações urgentes: “Que é isso? Você sabia que está explorando esse animal?”, ao que o outro não soube responder senão com um rosto que de tão ingênuo soava cínico. Achou mesmo que ela não merecia resposta. Mas de seus olhos emanavam uma energia tão cheia de dúvida e descrença, marejados de uma desconfiança tão sincera, que acusavam mesmo sem propósito o ridículo que a pergunta representava para ele. No entanto, o respeito pelo caráter da dona, mais velha e de aspecto reservado, vestida com classe, pelo menos aos olhos de quem ela podia enganar impunemente no atual ermo desamparado, preveniram o agressor de explodir em risos.
            - Como é dona? – respondeu, com traços infantis no rosto de desentendido.
            Mas a pergunta inofensiva ainda ofendeu à endereçada os brios da autoridade. Assim dócil e curioso, o audacioso devolveu o questionamento sobre a interrogadora. O cachorro, regozijado pela conquista, criava coragem para se expor novamente ao alcance da bota do mecânico – que era a profissão denunciada por seu macacão azul sujo de graxa. O cão inclinava o focinho levemente, interessado no comércio de intimidações que se dava através daquela indecifrável cadeia de grunhidos de seu “amigo” e a nova humana. Pressentiu que estava seguro e abusou da confiança, com o rabo abanando e posicionado a duas jardas mais próximo à dona do que ao homem. Ela respondeu:
            - Não se faça de desentendido! Pensa que eu não vi você explorando esse animal? Sabia que isso dá cadeia?
            O mecânico ficou desconcertado, olhando em volta para ver se não havia tropeçado em alguma criança, coçando a cabeça numa caçada de lembranças enfurnadas, cedendo já a um pensamento de culpas que não tinha, mas que poderia em todo caso ter aos olhos de alguém mais poderoso e sabido do que ele na interpretação do certo e do errado.
            - Não carece desses assuntos de polícia não senhora... – falou, com um toque de envergonhado – o que foi que eu fiz?
            - Estava maltratando esse cãozinho. Não tem vergonha? – a esta altura o cãozinho já se posicionava quase inteiramente no campo da dona, bem consciente de que aquela conjunção de ruídos havia triunfado. E o próprio animal já esboçava o seu grunhido oportunista por trás das pernas da protetora.
            - Olha dona, você não conhece mesmo essa peste... Se conhecesse...
            Mas ela lhe interrompeu sem cerimônias. Deu-lhe a chance de desaparecer enquanto ela virava as costas, pegava o pobre malandro quadrúpede vestido de maltratado, e balbuciasse uma jorrada de palavras infantis ao cachorrinho, que ao peludo assim martirizado pareciam piores do que latidos de um cachorro rival. Por algum segredo do instinto, no entanto, o animal se conformou, como sabendo que ali estava sua nova fonte incompreensível de alimentação nesse mundo de cadeia alimentar distorcida, onde sobreviver e se alimentar depende de muito mais do que da mera saúde dos dentes. Quanto cachorro doente e definhado, de casa, não come melhor do que um robusto vira-lata cheio de imunidade?


            Foi-se o ônibus...

            O mecânico desertou jogando bravatas ao ar com os braços e com meias palavras que evaporavam antes de formar uma frase, sugerindo que o azar de quem ficava com o canino ainda lhe aumentava o prazer de se ver livre dele. Como Seu Josué assistisse a tudo, perdia a noção do tempo e se abandonava às próprias reflexões, sofrendo em solidariedade o destino do cachorrinho mimado brutalmente em troca de abrigo. Trocou o pontapé por uma vida de barganhas indignas. Mas lamentaria ainda mais o seu próprio destino se nesse momento tivesse virado para trás e testemunhado seu ônibus fugindo pelo rabo da estrada solitária, levando suas malas e a esperança de apressar a fuga da opressão daquele calor furibundo. Pressentiu e virou, mas era tarde demais: já longe iam os seus pertences pelos tentáculos sem fim do nordeste brasileiro, eles com Adelmo, pouco se lixando para o dono que ficava para trás.
            “Amaldiçoada mulher!” – pensou em um rompante da raiva, transferindo a ela uma culpa que não queria para si; era muito peso para aturar. Voltou ao caixa do restaurante:
            - Oba! Acredita você que eu dormi enquanto ia o meu ônibus? Meu camarada nem pra avisar... Só serve mesmo pra encher o saco com abobrinha!
            - Ixi – respondeu o desconhecido por trás do balcão, onde também uma mocinha mais nova peregrinava com pratos e talheres chocalhando em uma bandeja de plástico – agora, só amanhã de manhã... Por aqui não passa muito carro não...
            - Amanhã? – relinchou o descrente com exclamação. Mas não adiantava argumentar, nem esquadrinhar a reserva de conhecimentos do outro com perguntas mais criativas, porque ele nunca voltou atrás de sua primeira informação. Não passava ônibus por ali, e nem na estrada, ele mesmo não podia fazer nada; que se fosse por ele, desviava o caminho principal e fazia tudo que é transporte vir por ali, que é como se vinha antigamente, “há muitos anos, na época em que isso aqui se via sempre cheio”. E iam comentando sobre as duas estradas, essa, a antiga, e a outra, mais nova e mais cheia de trânsito, embora a entrada ficasse longe, quando apareceu ao lado a mulher com o cachorrinho no colo. O bicho tinha uma cara de sofrido impagável, com o rabinho para baixo. Ela foi logo se intrometendo, dando a mão:
            - Olá, eu sou a Dona Fabíola do Carmo, você deve ser João Batista certo? O jardineiro que contratei lá de Perquezinho da Serra?
            A cara de Josué esbarrou com a do animal, aninhado nos braços protetores dela e farejando no outro uma competição na liga dos impostores. Grunhiu baixinho. “Que é isso, Bilu. Esse é o João Batista, vocês dois vão ser amigos”, admoestou a dona, que já tinha um nome preparado para a nova aquisição.
            - Sou eu mesmo, não existe outro... – respondeu o mentiroso. O jantar ia ganhar de graça, e até uma cama para não passar noite em banco de rodoviária.
            E enquanto se apresentava foi interrompido pela língua atarefada dela, que conseguia numa única investida abordar centenas de assuntos dispersos. Perguntou das bagagens, da vida, de seu tio, do último patrão, falou do marido morto, dos negócios, tanta coisa escapou dos seus lábios que já não era tão difícil ser João Batista quando só precisava ouvir e falar tão pouco.
            - Minha bagagem ficou no ônibus, acredite você minha senhora...
            - Ah, que desaforo... Essas empresas de ônibus e seus motoristas afobados, até parece que tem algo mais importante para fazer que dirigir. Nós vamos recuperar elas amanhã, não se preocupe. É fácil, basta um telefonema... De qualquer forma, nós temos as coisas e roupas do outro jardineiro, e você pode ficar com elas por hoje...
           
            O carro foi embora com os dois novos passageiros acomodados: um humano e o outro rabudo. Fabíola do Carmo não fechava a boca, ora alisava os pelos do animal e o torturava a preço de gemidos histéricos, ora abordava o homem com um tom mais sério e controlado. Contava como havia sido apresentada ao jardineiro e suas técnicas heterodoxas: “só ouvi falar bem de você”. Dizia que ela também era afeita às rupturas, às quebras de paradigmas. Que lia sobre magia, magia boa, do bem... enfatizava: “só do bem”. Tinha uma relação pura com a natureza, e conversava todos os dias com suas plantinhas. Tinha grandes expectativas para a intervenção do homem. Esperou por ele toda a semana, e tinha certeza de que ele gostaria da nova casa.
            - Sabe como é difícil nesse clima manter a sobrevivência das plantas...
            Chegaram e após mostrar a casa toda ao novo jardineiro, lhe ofereceu o jantar. A casa era habitada por outras três crianças, que festejaram o novo cachorro com um entusiasmo assombroso. Foi servida uma salada frondosa. “Você sabe que na minha casa não entra carne”, disse ao quieto jardineiro de conveniência, que a esta altura continuava apenas acenando com a cabeça e concordando com tudo.
            - Mas você é um mistério Seu João Batista. Quer me matar de tanta expectativa?  Conte-me mais sobre o seu famoso método...
                O quadrúpede embaixo da mesa rosnou mais alto. O pobre seu Josué, cheio de pompa, abriu seu conhecimento:
            - Ah, dona, o meu método é chamado “Adelmo-Figueira”. Adelmo-Figueira é um autor eminente de Socorro, Lá de São Paulo, grande gênio, precursor da jardinagem new wave, que consiste em  uma perfeita harmonia entre os elementos vegetais e os animais. Mas é uma surpresa, e te garanto que não vai se arrepender de esperar mais um dia...
            Decidiram que depois da janta era hora de dormir, e encaminhou o jardineiro para seu quarto. Pela manhã a Dona acordou com o barulho insistente do cortador de grama. Parecia mais estar embaixo de um autódromo. Desceu ainda de roupão e encontrou o cachorro preso ao cortador de grama por uma corda, qual um cavalo atrelado a uma carroça, levando a máquina sem pena da grama e das plantas que se iam decapitando.
            A campainha tocou. Na porta Fabíola do Carmo, ainda escandalizada, distinguiu um homem com chapéu de bruxo, roupa extravagante e um saco com o que parecia ser uma classe de instrumentos de jardinagem.
            - Quem é o senhor?
            - Sou o jardineiro. Só consegui chegar hoje.
             A mulher pôs a mão na cabeça. Esboçou um cacoete misterioso, que não se sabe se dava sinal de que pensava ou apenas abismava. Disse na sequência:

            - Mas não um discípulo do método Adelmo-Figueira né...?

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

... vandalismos do amor ilícito

... seguiu naquela noite para casa sozinho, carente até mesmo da companhia da lua, preço do pedágio de nuvens inflacionando a moeda lunar. Mastigava despeitos e consumia alergias durante o trabalhoso aclive. Integrava uma nova cadeia de preconceitos à sua identidade pessoal, novas repulsas e orgulhos. Mas se tornando assim um pouco mais vacinado, mau e malicioso, queria sobretudo punir o mundo pela sua injustiça. Desagravava uma egoísta sede de justiça ao invocar o cinismo. Sequestrava a razão ao alvejá-la de desconfianças maliciosas, prometendo que ela não teria defesa contra seus projéteis de ceticismo e esclarecimento armargurado. Quando foi a última vez que teve motivos para confiar em alguém? Nem se lembrava. E assim seu espírito colhia a cultura da experiência, quando a atenção da escalada de rotina foi roubada pelo vulto branco que vibrou num assomo de pânico em cima do telhado vizinho à sua casa. Era o Romeu gatuno, sobressaltado pelo aparecimento do menino.
Os olhos do bicho engataram com os do homem, numa troca fluvial de mensagens indizíveis, um mergulhando na alma do outro. Em um único impulso o gato voltou a si e disparou com uma leveza que encrespava cachos de seda de inveja, calçando solas de algodão e queimando o carvão sutil das calorias etéreas. Era como um fluído em movimento. Aquela noite era dele mais que de qualquer homem e, em Florianópolis, “hoje” – pensou Laio – havia pelo menos a presença de um genuíno boêmio, desafiando a simbologia estrangeira, resgatando o valor da ideia por trás do distante estrangeirismo e a aplicando a um caso que não pertence aos célebres bares de Paris: o caso do delinquente animal brasileiro vandalizando as convenções do dia em sua carreira noturna. O namorador fluía na escuridão como um líquido alcoólico, projetado para injetar paixões embriagadas nas gatas felizes.
Mais alguns passos em direção a casa e divisou outra aparição avultando veloz junto aos caules que preenchiam o caminho entre a casa do vizinho e a sua. Dirigia-se na mesma direção que ele, para cima, mas numa velocidade muito mais acelerada. O rapaz continuou batalhando a subida lenta e aferrou-se enfim ao portão, atravessando a última barreira entre ele e consolo do descanso, quando encontrou velando ao lado de fora, na pequena área que preludiava a porta, a gata, como uma esfinge absorta em regiões da imaginação. A gata gravitava nas bolhas das representações. Fora Montaigne quem, observando um cavalo de batalhas tremendo durante o sono como se estivesse em ação, concluíra que o animal sonhava e, portanto, reservava uma vida interior onde tiros de canhão não precisam de pólvora e o fio das lanças não precisam de amolador, onde, em uma palavra, os detalhes materiais são descontados face à imaculada forma das imagens e afigurações. Esse submundo simbólico misterioso visitado durante o sono é a prova de que os animais não humanos também sofrem o castigo da gramática. E, inclusive, é a prova de que inferem, uma vez que inferir não é mais que explorar as possibilidades e alternativas de combinação autorizadas pela interdependência entre as formas, cujas combinações sólidas e infalíveis nos tornam cativos de mundos semânticos, mitologias analíticas. Mas isso é, sobretudo, a prova de que os desejos e vontades das bestas, além da carga instintiva vulgar, também invocam o crédito para uma ambição maior, o financiamento de uma clareza angelical, algo digno da transcendência das preces: eles também querem a Verdade. Se isso parece metafísica vulgar aplicada aos bichos, é porque não pode ser diferente. Seus desejos são mais que meros desejos: são paixões como as nossas, oscilando entre o barato e o profundo. Era essa elevação espiritual que se filtrava na expressão de transe da gata na soleira da porta.

Laio experimentou um segundo e meio de ressentimento. Apontou para a gata com olhos de gancho. Ele sabia agora, sem dúvida, quem era o vulto de cores desbotadas e dissolvidas nas cores do fundo que corria pelas árvores em direção à República. Estava demais desconfiado, infeliz, envenenado, para que se deixasse enganar pelo silêncio dissimulado de uma gata eufórica. A densa amargura vertida recentemente sobre si lhe acoplou aos órgãos uma nova habilidade intuitiva, um olho de lince para os segredos da felicidade ilícita. Era a habilidade dos ressentidos; que é, pelo menos, um instrumento de faro realmente útil, uma vez que dificilmente erra. E não errava: era mesmo a gata correndo como cinderela antes da carruagem virar abóbora. Foi veloz o bastante para evitar que o menino chegasse primeiro. Mas o que a acusou sem apelo, o seu sapatinho de cristal esquecido, foi a vagueza pintada na expressão, a profundidade de abismos secretos e paixões virulentas vivificadas no fundo do seu olho reverente. Comparando esses suspiros da sua alma jovem com a imagem do boêmio branco elegante e flexível nas telhas do vizinho, era inevitável induzir que ela estivesse com ele. O resto das pistas eram somente confirmações adjacentes.   

domingo, 4 de outubro de 2015

Sementes de intuição

A janela aberta do quarto deixava entrar uma ideia ou outra, ressabiadas e tímidas como as brisas do mormaço. O painel que se dilatava pela veneziana aberta com sorte pintava a passagem de uma candidatura ao belo, embora em sua fugitiva natureza e independência. Não raro a atenção se dirigia a um prédio, ou a uma rua do bairro comercial, onde pessoas encenavam todos os dias mais um capítulo da pressa humana, o seu lépido e ocioso passo de lugar qualquer para lugar nenhum. Mas iam e vinham como em dança de ratos no laboratório, sugerindo ao pesquisador apenas simulacros de experiências controladas, nada de espontâneo e livre, nem de levemente despeitado e delinquente. Nenhuma fonte de inspiração.

            Diante do tribunal da vida, que é curta, é um luxo indesculpável recusar a ocasião de uma viagem que cai do céu como uma mensagem gratuita da providência. Ignorar os seus favores chega a ser uma arrogância. O que piora a reputação da ousadia é que ela é uma perfeita infração da política dos modestos. Uma espécie de superstição: pois esta é também um luxo, um capricho de quem acha que pode dispensar a inteligência. Quando a janela do quarto é a única ventilação da alma, nunca é demais advertir: algo está errado. Nada compara o efeito de uma viagem para difundir sementes no jardim da experiência.
Tércio chegou, entrou e sentou-se, esperando alguém que não lhe fosse estranho. Apenas por acaso a sua ruim pontualidade não fora mais atrasada que a dos demais, que ousaram não entrar senão antes que a hora exata os obrigasse. Haviam se acercado aos poucos e se deixado à porta. Porém havia pretextos para estar dentro, mais do que para estar fora: o frio do exterior carcomia a malha da pele sem nem aquela justa piedade das traças, que dão aos livros pelo menos tempo suficiente para se preservarem nas memórias de um leitor.
            Mais fácil era erodir-se em paulatino esquecimento pela exposição àquela extinção glacial.
            Mas o povo ficava lá fora falando, falando, e lá dentro sozinho parecia até mais inverno. Por um minuto, Tércio ponderou se tinha feito bem em lançar mão das malas e colocar-se à disposição de uma viagem desconhecida mesmo depois de seu único contato advertir-lhe a ausência. Não demorou, porém, a que chegasse um rosto familiar. Cassiano era seu amigo quase tanto quanto Patrick, ou seja, pouco, mas a sua presença o abrigava da pior solidão: a do estranho em lugar de familiares. Já se pode agora deixar para trás esse primeiro minuto de tensão dentro do ônibus. De agora em diante tinha casa: o amigo servir-lhe-ia como as linhas de um papel para retificar sua caligrafia e torná-lo legível a todos os outros. Era sua ponte de contato e seu ponto de apoio. Com esse pequeno traço de ansiedade não precisava mais se preocupar.  

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

As barracudas acadêmicas

 O orientador geral da turma com que Tércio viera se destacava na área com suas incontáveis publicações, inumeráveis participações em congressos, mais a sua experiência já meio maliciosa da dinâmica das interações nestas festas. Continha aquela leviandade que distingue tão bem o professor universitário moderno daqueles carrascos bem alimentados dos templos medievais, e dos mal pagos pedagogos das escolas públicas. 
 Na segunda noite se encontraram novamente todos os seus pupilos em uma democrática mesa de bar onde todos tinham o mesmo direito à opinião, mas com pesos diferentes, naturalmente, que onde fala o galo não pode provocar o mesmo efeito a palavra do pintinho. Assim é o mundo: meio injusto, e sem remorso. Há pouco crédito em risco na objeção do excluído, o pobre aluno que ainda não conquistou a proteção da instituição acadêmica. Por outro lado havia muita coisa em jogo cada vez que se pronunciava o orientador: era preciso lhe captar o sentido, entendê-lo, fazer-se íntimo, rir com ele e mesmo daquilo que não tinha graça. 
 Na noite de quarta feira o assunto versava sobre os peixes e algas vistos durante o dia, no mergulho de turismo feito no passeio de barco. Tércio apenas por acaso estava com seus óculos de natação na mochila, e ainda expunha sua surpresa com a fartura de beleza pulverizada em matizes infinitos de cores e movimentos: a dinâmica da submersão aquática, cada gesto cadenciado em um ritmo de sonho, de um lado para o outro, vagarosos como a sutileza mitológica de passos de valsa no aquário da noite estrelada. Pareciam imitar a flexibilidade de um rebolado extraterreno; como bundas oscilando em um planeta com menor força gravitacional. Cada peixinho um membro involuntário da coreografia. O entusiasmo dos encantamentos ainda povoava o seu espírito, e como uma criança ele despejava suas impressões na mesa, sob a fiscalização complacente do professor: 
 – Nossa, nunca vi tanta enchova junto, e sem medo nenhum de mim, só  faltou me deixarem passar a mão nelas como se faz com um cachorro domesticado... 
 – Enchova não, Barracudas, Sphyraena barracuda, volveu o mestrando – que conhecemos também por Diego – ligado à mesa pela ponta. Disse isso relanceando os olhos para o professor. 
 – Tá, obrigado – continuou sem temperar o fôlego – aquele coral lindo, e aquelas árvores lá embaixo, dançando em esbeltos pares ao embalo das correntes marítimas... – foi interrompido neste ponto, não sem enraizar na mesa uma impressão de estranheza que refletia o efeito de indigestão gerado pelo conflito de regiões discursivas. Os cientistas, acostumados ao freio do discurso acadêmico, não viam nessas expressões de entusiasmo líricas senão a carreira desvairada de um palavreado vácuo, uma promiscuidade confusa para escolher as palavras.  
 – Árvore não, uma alga, uma Cianophyta, por favor, isso é uma mesa de fitólogos, foi como lhe interrompeu a prolixidade Diego, e olhou em volta esperando a aprovação dos “fitólogos”, com um sorriso maquiado no rosto de puxa saco; depois olhou para o professor, disparando súplicas subentendidas ao venerando mestre, mas não foi correspondido nem por uns nem pelo outro. 
 Tércio parou, ponderou, pensou em voltar à sua viagem pela memória das árvores marinhas, mas percebeu que não tinha mais caminho livre; o mestrando havia jogado caules, galhos e animais, cada qual com o seu nome em latim, obstruindo o meio da pista em que corria a sua ingênua eloquência. O seu silêncio durou muitos segundos de reflexão, mas queria desaparecer, em um tom novo, darwinianamente adaptado. Pensou consigo: 
 “Realidade é o nome pomposo que vocês dão para a dimensão artificial do seu laboratório. Todo esse alfabeto de definições enciclopédicas não passa de um exercício de musculação intelectual: quanto mais catalogados bichos e vegetais, mais fácil aguentar o peso do discurso nos seus braços e adquirir a autoridade para falar e falar, palestrar e palrar, pesando a verdade em uma balança intuitiva fabricada. Mas também isso só vale nos limites do seu encerramento acadêmico... Que, de onde eu venho: helicóptero é avião de rosca e lagartixa é jacarezinho de parede. O que vocês chamam de errado, para mim, é a poesia ordinária da vida real, para a qual lhes falta talento” – mas nada disso falou. Encerrou como um tumor no seu âmago. Quem quer brigar precisa de pretexto. E se a caça de pretextos está fraca: espera-se até a próxima estação!

Olhou para o professor que continuava com um sorriso complacente, um traço que não lhe sabotava a reconhecida supremacia, nem ofendia a ninguém. Levantou o copo em uma mensagem de abandono formulado em brinde, e encabeçou de volta para a sua turma, onde o recolheram com pressa e o receberam com as saudades de quem já não o via há muito tempo. “Afinal, uma teoria da roda tem que ser melhor que a teoria do quadrado para pôr um carro em movimento; e comer de garfo sempre é mais fácil do que comer de pauzinhos, não importa o quão poéticos sejam os orientais” – pensou ainda Tércio, retratando-se de si para si mesmo pela covardia cancerígena. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os tesouros férteis de uma experiência artesanal

Já não faz pouco tempo que cheguei e o tema de minhas impressões não mudou junto com o clima. Pois ele é o próprio clima, que não muda.
            A cadeira que sobrava no meu quarto eu pus para fora, e embora prometendo-lhe resgate breve, debitei mais um valor junto com a conta abismal dos juramentos não cumpridos, cedendo à regra da procrastinação. Lá fora ela toma a água da chuva interminável. Muitas vezes pensei que aquilo ia tomar cheiro de mofo e outras, respondi a mim mesmo dizendo que ia tirá-la de lá logo. Mas nunca fui. Hoje percebi que quanto mais eu prorrogo, mais vai a cadeira se ambientando ao dilúvio sorrateiro que se conspira no céu de Florianópolis. Fui assistindo ela tornar-se um artigo orgânico, as suas pernas se desenvolvendo como raízes pantanosas, como o fóssil de um sambaqui imemorial dando à paisagem a aparência de um cemitério de mobílias naufragadas. Enfim, desisti de tirá-la de lá. Já é o novo lar de centenas de fungos que prosperam na umidade. Como um navio que virou coral no fundo do mar. Foi absorvida pela chuva interminável, que a nada poupa. Meu medo é sair na rua e ter meus pés dilatados em ventosas de polvo.
            Mas é bom estar de volta à minha cidade, como um marinheiro com novas estórias. Preparado também para ouvi-la com novas orelhas. As cidades têm personalidades, disse alguém que provavelmente entrou em diálogo com elas. Ou teve uma discussão, um desacordo; tanto faz. Quanto mais personalidade, mais brigona. Eu também o diria, mas hesito em cometer mais um desgaste em um texto que já vai se cansando de tanto efeito. Apesar disso, confesso que o falei, embora transferindo a responsabilidade para a boca de um alguém.
            A vantagem dos simulacros sobre as definições científicas é que aqueles têm peso, tom, e até cheiro, enquanto estas são insípidas e neutras como a vida privada de um banqueiro. Se os primeiros são instrutivos ou não é matéria de controversa. Os cientistas vão sempre caluniá-los, acusá-los de enganadores. Eu gosto mesmo é da linguagem gorda, criativa, que confunde, mas romanceia, e não essa formalidade amarga de leis e princípios, que define, mas desilude. Por isso repito: as cidades têm personalidades. Acredito que algo parecido já foi dito em muitos lugares e por muitas pessoas; e não é à toa, se todas elas apenas dependessem de ter dialogado com uma cidade para elaborar o enunciado. Há vozes que nunca se calam nas esquinas e endereços. Ninguém fica sem assunto. Basta, pois, ter ouvidos para suas sugestões. Há cidades convidativas e hostis, senis e joviais, doentes e saudáveis, determinando as perspectivas que nela podem nascer, os conflitos e armistícios que nela se podem assinar, as convulsões artísticas provocadas pelas suas dores estomacais, seus espasmos culturais. Há uma diversidade rica de possibilidades discursivas e de leis e ideias presas nas malhas da polis.
            E a sensibilidade fica mais aberta, porosa, quando as habitamos na qualidade de hóspedes. Quando podemos medir o modo como ela trata as visitas. Porém, é nesse estado que estamos mais sujeitos a cometer más interpretações, esperando um conforto pacífico e uma recepção pouco agitada, incapaz de sacudir o espírito. O turismo geralmente tem esse efeito: comprar a hospitalidade de lugares estranhos, anular as suas vozes e esterilizar aquela mesma estranheza. Há pessoas que são eternamente turistas, pois vivem pagando a hospitalidade alheia. E vencer completamente esse estado é muito difícil, pois é vencer um inimigo poderoso: a inclinação a preservar as fronteiras de nossa zona de conforto, nossa economia íntima, onde administramos nossas dívidas e cobranças. É preciso ser amplo e abrangente na administração dos próprios preconceitos, para curtir os lugares estranhos em vez de apenas estranhá-los.
            Nas colheitas de outros mundos, não haverá senão estéril refeição de vivências se o viajante não souber ver toda a riqueza humana encerrada dentro das possibilidades domésticas de sua própria experiência. A areia do deserto, o gelo da montanha e os animais silvestres serão apenas redundâncias. Não sou do partido contrário ao de Marco Polo e nem advogo contra a frase de Fernando Pessoa (“viajar é preciso...”), que mesmo depois de desgastada em clichê não perdeu a pimenta e nem deixou de estimular faíscas. Só lembro que o cego do espírito não pode tirar vantagem da velocidade de um avião para compensar a lerdeza tardia dos olhos. Nenhuma palavra será tirada de outras cidades se a sua própria, e quiçá sua casa, não for uma estufa igualmente poderosa para fermentar o álcool embriagante da vida. Não foi a pressa insensível de certos europeus míopes que enterrou a cultura dos índios? Queriam caminhos mais econômicos, os brutos de vanguarda, e inventaram o trânsito, foram precursores apenas da marginal Pinheiros. Posso não dar o exemplo da minha própria doutrina, e disso me recrimino. Mas se alguém tem consigo a cobiça das horas leves e calmas dilatadas, não ligará para a diferença mesquinha de alguns séculos, nem invejará a rapidez artificial da indústria de velocidades. E há imponderáveis eternidades adormecidas no tesouro lerdo das horas artesanais.  

            Voltei cheio de novos cenários, mas é com o conteúdo artesanal da minha própria sensibilidade com que tenho que me preocupar.  Durante essa viagem passei por diversas cidades, mas não me sinto tão modificado a ponto de ter aprendido algo a mais, ou escalado novas etapas do monte das ideias. Há muito turismo invencível em mim, que me impede de navegar abertamente pelas correntes e fluxos de perspectivas ofertados pelas cidades. E só não menciono os museus e as cabines enferrujadas do passado, motorizadas a dinheiro, aceleradas por pontos de vista estapafúrdios, e explodidas por combustíveis de ganância. A experiência que se nutre dos bares e da rua mantém a identidade romântica in corrompida, se alimenta da noite e do dia durante os momentos em que uma trama típica dos contornos citadinos pode acontecer ou repetir-se, reacendendo o espírito do lugar na encenação dos seus personagens.