Dona
Eusébia tentou de tudo, até trancar a filha no quarto. E trancá-la no quarto o
fez. Mas como fosse plástica, a própria parede confabulava contra ela,
se não a própria lei física que se subvertia para colaborar com os subterfúgios misteriosos do diálogo amoroso. Nem a geografia deixou de ser recrutada. Como ele entrava e ela saía,
sem essa explicação? A fiscal materna conferia o quarto de manhã, e não havia
um vestígio de truque. A mágica era legítima! Tarde
demais. Não deixa de ser
curioso como os cuidados diligentes do bem são vagos e inseguros comparados à
vigília incansável das intenções lascívias, que perdem o sono e ignoram os
apelos do próprio corpo, mas não adormecem antes de terem seus planos
satisfeitos. Eventualmente os bons conselhos vencem, mas jamais por excesso de
força ou superioridade de número. Basta às inteligências concupiscentes um
pequeno ateio de fogo, e ela se alastra com uma velocidade que não deixa
pensamento algum escapar ao seu alcance. Os seduz e convence a pesar a seu
favor na disputa sempre violenta que trava com as inteligências serenas, que
quando chegam já é tarde; apenas arrebanham os últimos e menos capazes
fragmentos de pensar, a sobra. A tentação de consumar os atos proibidos é
industriosa; a força de vontade para evitá-lo já sempre sucumbiu à preguiça.
statcounter
sábado, 30 de setembro de 2017
Ossos do Ofício (um mini-conto). Durante a manhã uma notícia, mistura de cômico, fantástico e horror, ganhava horizontes nos ares do bairro que abrigava o cemitério: acharam o corpo de um rapaz com mais ou menos vinte e cinco anos enfartado na ala das tumbas engavetadas, com a roupa enganchada em um osso protuberante que saía em projeção de uma das urnas de defuntos exumados. O osso desorbitado de sua caixa era obra de um dos cachorros frequentadores, que fazem companhia aos coveiros e provocam ingênuos sacrilégios nas caixas de concreto rachadas pelas más condições da instituição dos mortos, irrepreensivelmente tentados pelo banquete de esqueletos que jaz através daquelas pequenas ruínas. Diziam as línguas curiosas que o defunto mais recente tinha na face uma interjeição de susto pintada com um esmalte gramatical que nem a química mórbida dos cosméticos da morte removeu de sua expressão. Ai! - parecia uma redação escrita em seus olhos, dizendo “fui pego”. “Segundo o laudo médico, morreu de infarto do miocárdio. Provavelmente um desses profanos vândalos de santuários, que desta vez foi agarrado pelos ossos da profissão”.
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Meu apoio aqui é o segundo Wittgenstein nas
Philosophical Investigations:
"654. Our mistake is to look for an explanation where we ought to
look at what happens as a 'proto-phenomenon'. That is, where we
ought to have said: this language-game is played."
"Suppose I say of a friend: "He isn't an automaton".—What information
is conveyed by this, and to whom would it be information? To
a human being who meets him in ordinary circumstances? What
information could it give him? (At the very most that this man always
behaves like a human being, and not occasionally like a machine.)
"I believe that he is not an automaton", just like that, so far makes
nosense.
My attitude towards him is an attitude towards a soul. I am not of
the opinion that he has a soul." (Wittgenstein, Philosophical Investigations)
"654. Our mistake is to look for an explanation where we ought to
look at what happens as a 'proto-phenomenon'. That is, where we
ought to have said: this language-game is played."
"Suppose I say of a friend: "He isn't an automaton".—What information
is conveyed by this, and to whom would it be information? To
a human being who meets him in ordinary circumstances? What
information could it give him? (At the very most that this man always
behaves like a human being, and not occasionally like a machine.)
"I believe that he is not an automaton", just like that, so far makes
nosense.
My attitude towards him is an attitude towards a soul. I am not of
the opinion that he has a soul." (Wittgenstein, Philosophical Investigations)
Wittgenstein entendeu que a palavra teológica
"alma" transmite todos os mesmos problemas que pretensões palavras empíricas
como "estímulo", "emoções”,"sentimentos", etc. Isso
não significa que os cientistas não tem insights sobre fetos que faltaria para
uma pessoa normal sem nenhum conhecimento de anatomia e neurologia. Mas isso é
uma vantagem que eles têm, da mesma forma que alguém que sabe japonês tem
melhor visão para negociar com japoneses do que alguém que não. Os cientistas
estão apenas usando outro idioma (o idioma do estímulo e conexões causais) para
traduzir o que já temos. Essa linguagem pode dar alguns insights. Mas pode
prevenir outros. O ponto é: não há nenhuma razão para pensar que os cientistas
descobriram a língua original real dos sentimentos, traduzindo-a para o
"estímulo". Para ser honesto, essa tradução é, na verdade, um
empobrecimento do conceito de "feeling", "conhecimento
cognitivo", etc. Alguém lendo Shakespeare tem, com certeza, mais
entendimento do que um neurocientista sobre sentimentos e emoções.
quarta-feira, 7 de junho de 2017
O Impasse entre a técnica e a energia na comunicação entre os corpos (na dança de salão social)
Apesar de ser um assunto com poder de sedimentar uma atmosfera de
tensão, a dança de salão moderna, quanto mais amadurece sua expressão artística
independente, já não pode esconder suas controvérsias. Um dos seus
traços mais fortes é a capacidade de empregar modelos de comunicação inéditos, um
diálogo entre os corpos, e explorá-lo até os limites de uma criação ilimitada. Por
isso mesmo surge, como uma questão inevitável, o que eu chamarei didaticamente
e sem muita seriedade de “primeiro impasse da dança de salão”. O impasse entre
a técnica e energia da comunicação (entre os corpos). Aqueles que decidem
enfatizar apenas a técnica tendem a agir como os falantes de uma só língua,
acreditando que nenhuma troca é possível fora do paradigma de um conjunto fixo
de regras. Os que dançam apenas com sua energia pretendem que a comunicação
avance sem sintaxe ou estrutura, pura intuição. A energia sem técnica produz
uma dança cega, a técnica sem energia produz uma dança dogmática. No discurso
dos professores, o tecnicismo se apresenta como uma forma de intolerância a
linguagens diferentes, produzindo alunos sem juízo próprio, que precisam
confiar na correlação simpliciter
entre estímulo e instrução, semelhantes aos ratos condicionados pelos choques
de Skinner, mas com um agravante: ratos que acreditam na linguagem de seu
professor como se ela fosse a linguagem de deus, e que a reproduzem nos bailes e
nas aulas em uma campanha pedagógica para policiar cada pequeno detalhe dos
corpos dos demais que não correspondem ao “gesto absoluto” como lhes foi
ensinado pelo mestre inquestionável. A maior parte dos tecnicistas só dançam
com os alunos de uma mesma escola, e os tecnicistas mais fanáticos tem apenas
um parceiro, cuja voz corporal ele/a entende perfeitamente graças ao hábito e
repetição, e agora julga qualquer desvio a esse padrão como um erro
intolerável. Os professores mais inclinados a um ceticismo técnico, no entanto,
tendem a incentivar a combustão de alunos incapazes de padronizar formas de
comunicação rápidas, efetivas e práticas, promovendo uma dança onde o único
remédio para o erro é a tolerância. Por outro lado, a sensibilidade à energia
do outro corpo é a única forma de oferecer pistas para correção de técnicas que
se provaram pouco práticas, e é possível dizer que a dança em par não começa
pela técnica, mas que as diferentes técnicas surgem depois da experimentação
entre as energias em troca durante a dança. Se isso é verdade, não existe ainda
melhor ethos para a comunicação entre
os corpos do que a generosidade ou pressuposição de que a outra voz tem tanto
valor quanto a sua, a tolerância a diferentes linguagens, o ceticismo racional
ou capacidade de dar o benefício da dúvida ao outro lado, o senso de humor ou
capacidade de debochar da devoção supersticiosa a uma interpretação escolar do
gesto, ignorar o fanatismo técnico, em suma, maneiras de aperfeiçoar a
sensibilidade ao outro corpo. E do outro lado, esse ethos, que é posto em
prática nos bailes, onde funciona o mercado onde são comercializadas todas as
linguagens técnicas, não perde nada por ser abafado nas escolas, onde se deve conceder a
autoridade ao professor durante aquela hora inteira sem questões. Uma
coordenação combinada entre técnica e energia só traz benefícios, e aprender a
navegar no meio dessas tendências é importante para preservar a auto-estima e a
persistência durante os (muitos) anos de aprendizado.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Ludmilla e sua Irmã
É porque o Fábio é o que sempre foi: uma espécie de coroinha que passou da idade, um ingênuo romântico utópico desmiolado, que ainda por cima mistura requintes de cavalheirismo antiquado aos ingredientes do seu coração tolinho...
Mas
não é mentira: ele até conseguiu o que queria... só a condição
que pode parecer demais cara, para pessoas como nós, pelo menos, eu
acho.
O
que todo mundo sabia da Ludmila é que a irmã dela causava em todas
as festas, e as histórias nunca paravam. Uma vez, na minha casa,
quando tocou a banda de samba-rock do pantanal, o que dizem os
linguarudos é que ela fez com dois na piscina. Não, eu não vi.
Essa conversa demorou um pouco para chegar em mim, já era uma
história meio sem tronco, um complexo selvagem de
vegetação indisciplinada. Mas eu não tinha motivos para
duvidar. Por amor ao rigor cético, aprendi a podar os galhos
das fofocas muito engenhosas, e especulo que pelo menos com um
ela fez alguma coisa em público, o que já é picante o suficiente
e, para o gosto de Fábio, algo que beira o escândalo.
Mas
se ele até preferia que a Ludmila tivesse outra irmã, isso não lhe
impedia de descer em queda livre em arroubos de paixão adolescente
por ela. Quem é que ia fazer ele mudar de ideia? A guria era
discreta, isso eu não nego. Parecia o oposto da irmã. E bonitinha.
Sempre com sua luva preta, no calor ou no inverno. Voltaremos à luva
preta. Eu também paguei um pau para ela, durante um tempo. Mas a
minha vaidade não é mais forte que a sinceridade: sim, confesso que
ela sempre arrastou uma asinha para o Fábio. Por que, não me
pergunte.
Essas
silenciosas profundidades supersticiosas até que não são tão
secretas: pedem ouvidos, precisam de interlocução. Para mim ele
sempre contou o que sentia. Um confidente malicioso, mas tinha a sua
confiança. Existe uma fórmula que os apaixonados ignoram, mas que
lhes seria extremamente útil recordar: é que ser indiferente e
grosseiro, nos assuntos do coração, é sempre mais fácil e
natural. Quando se pegam abatidos e esmagados pelo que sentem por
alguma menina, poderiam lembrar que o mais difícil eles já fizeram:
que é estar desse jeito. Voltar ao original, a ser como eu, é o
mais fácil. Custa-nos muito admitir, é verdade, mas a nossa
malandragem, mesmo a mais refinada, nunca dá tanto trabalho. Se eu
quisesse ser como Fábio, talvez não conseguisse. Mas ele precisaria
de bem pouco para ser como eu.
Ludmila
era, como eu disse, reservada, tímida e parecia envergonhada de
alguma coisa. Parecia carregar uma culpa, uma manchinha da
consciência. Como era uma sombra da irmã, que chegou um ano antes
na universidade e deixou um rastro difícil de superar, ninguém
jamais desconfiou que essa personalidade não estava ligada a ela.
Todos suspeitavam que ela tinha interesse em deixar sua diferença
com a irmã bem marcada. Por isso ensaiava ser o oposto. Imaginava-se
que ela queria subverter o espelho, e quando olhassem para ela,
veriam refletido o oposto da irmã.
Fábio,
paladino branco consumado, como jurasse que precisaria muito mais do
que uma irmã escandalosa para afastá-lo do objetivo, nunca
esmoreceu. Ofereceu guerra à resistência da menina, que julgava
existir por vergonha da família.
Estavam
no bosque depois de um dos almoços do RU, ela
sempre mexendo encabulada em sua luva preta, e sempre
furtiva, evitando muitos contatos, tímida, quando Fábio resolveu
lançar mão de um acesso de heroísmo gratuito e discursar sobre o
que julgava ser seu grande instinto de sacrifício, o tolo,
orgulhoso:
-
Sabe que a sua irmã nunca foi e nem nunca será obstáculo para o
meu sentimento né?
Quanto
foi sua surpresa quando a menina fez uma cara de nojo e desgosto,
retorquindo que ele era um machista presunçoso. No auge de sua
indignação, Ludmilla mostrou o verdadeiro motivo do seu recato.
Nada tinha que ver com sua irmã, que para ela era a mais saudável e
normal das pessoas vivendo sob a lua e as estrelas, mas era o que
havia por trás de sua luva. Um braço falso, desses de plástico,
explicava alguns de seus maneirisimos. E explicava sua personalidade.
A menina perdeu um braço quando nova, e desenvolveu uma
personalidade que era, sim, o oposto da irmã, mas não por qualquer
moralismo barato, que isso ela não tinha, mas por um secreto medo de
rejeição, que cultivou desde muito nova, apesar de ser tão linda.
Mas nisso eu e Fábio continuamos diferentes: perdi toda minha
vontade por ela quando soube disso, enquanto ele permaneceu fiel ao
seu sentimento de coroinha ingênuo, o que, de fato, não lhe invejo.
A
briga no bosque deu lugar a novas conversas, todos os dias, até que,
como já se sabe, os dois começassem a namorar. Fábio uma vez
disse, e desse vez, uma única, lhe admirei o senso de humor, apesar
de desconfiar que quem viu a frase com ironia fui eu, e ele estava
apenas a ser honesto:
"Talvez, se ela tivesse o braço, não seria mesma Ludmila..."
"Talvez, se ela tivesse o braço, não seria mesma Ludmila..."
domingo, 20 de março de 2016
O método de jardinagem Adelmo-Figueira
Adelmo-Figueira não perdia uma refeição sem seu
gole de cachaça. Levava o elixir num cantil, de modo que imprevisto algum o
podia surpreender. Adelmo tampouco abdicava da oportunidade de magoar os
ouvidos de seu amigo Josué com o flagelo de uma campanha de opiniões
egocêntricas. Sentado ao seu lado, a viagem era longa. Já era o segundo dia
suportando notícias polêmicas e assuntos enxutos de sangue. Agora ele dava
opinião sobre a onda ecológica. “Aguentar você por dois dias e sua matraca é
serviço de santo! – desembuchou Josué ao figueira quando chegaram a um posto no meio
da estrada.
-... eu sei, eusei que é difícil de ouvir, quando alguém
tem mão pra dizer a verdade, ninguém tem culhão pra ouvir... Mas é certo: esse
negócio de aquecimento global é asneira. O petróleo é a melhor fonte de
energia, e não vai acabar nada! Eu, você, vamos tudo virar petróleo! E árvore é
boa cortada, que em pé só atrapalha o progresso... O planeta só se aquece, não
tem jeito não, esfriar é que não vai. Reclamar
de aquecimento é como chorar porque o relógio não corre pra trás...
O posto esquelético, com catadura de
abandonado, era o único vestígio de povoamento humano que a vista alcançava.
A paisagem lembrava o intestino do sertão, um ermo absoluto que a estrada
condescendia em contornar, como uma promessa de resgate cobrando um favor no
meio do deserto. E aquela massa de viajantes acalorados descia do ônibus com
pressa de chegar ao ar; esse ar seco do nordeste que, por intragável que fosse,
ainda vencia a bolha de abafamento daquela atmosfera enclausurada de quatro
rodas durante a hora do almoço.
Seu Josué passeava de um lado para o outro esticando as pernas enquanto os
demais se serviam de água na lanchonete caindo aos pedaços. Felicitava-se os
minutos de sossego sem o camarada e as conversas de ciência. No estacionamento,
além da embarcação negreira que vinha vencendo asfalto de Socorro-SP ao norte
do Brasil havia um único carro, em cuja porta aberta uma mulher de pé vinha
empoleirada, de bruços com o peso sobre o capô, analisando antenadamente um por
um aos pacientes que se estendiam em sua linha de visão como uma manada
migrando de miragem para miragem. Vestida conservadoramente, com saia cumprida,
de branco, fazia bem a imagem da família caipira. Curiosamente, seus olhos
trabalhadores pareceram descansar em Seu Josué, como se nele algum problema se
acalmasse. Pintado com a tinta atraente de uma solução, um pouco encabulado, o
senhor de seus quarenta e poucos anos se deixou assediar e até se fez de
vaidoso, redefinindo a regra de seu ritmo corporal ao capricho da passarela de
calçamento esfolado e rachado, entremeado por intervalos de terra.
Atrás, um berro de cachorro acossado. “... de novo, seu safado!”, gritou uma
voz íntima que, em contraste, vinha se projetando desde a esquina do galpão pela
garganta de um homem com uma perna levantada à altura da bunda de um cão
vira-lata, em um decreto que seu pé lhe fazia ao rabo. O bicho tinha a destreza
para soluçar em um pulo com o efeito da bicuda, sem deixar de agarrar no ar um
membro carnudo de frango assado que acabara de lhe escapar das mandíbulas com o
impacto, prova de sua culpa no saque à marmita do zangado. Era vida naquele
clima de necrotério escaldante! Seu Josué observara com divertimento a dinâmica
daquela relação, onde o cachorro abusado certamente também abusava do dono do
pé carimbado em seu traseiro. Provavelmente era uma dupla de amigos ranzinzas,
uma família desafiando os limites da própria paciência, para todo o sempre
enquanto durasse o reinado do sol e da poeira na única habitação de um deserto
sem fronteiras.
Do outro lado da margem da interpretação, a mulher, sinceramente descontente,
saiu do conforto inerte da sua posição de observadora para assumir a de atora
enérgica. Atravessou a distância que separava seu juízo da ação, chegando perto
do rapaz enquanto soltava pelo caminho as exclamações urgentes: “Que é isso?
Você sabia que está explorando esse animal?”, ao que o outro não soube responder
senão com um rosto que de tão ingênuo soava cínico. Achou mesmo que ela não
merecia resposta. Mas de seus olhos emanavam uma energia tão cheia de dúvida e
descrença, marejados de uma desconfiança tão sincera, que acusavam mesmo sem
propósito o ridículo que a pergunta representava para ele. No entanto, o
respeito pelo caráter da dona, mais velha e de aspecto reservado, vestida com
classe, pelo menos aos olhos de quem ela podia enganar impunemente no atual
ermo desamparado, preveniram o agressor de explodir em risos.
- Como é dona? – respondeu, com traços infantis no rosto de desentendido.
Mas a pergunta inofensiva ainda ofendeu à endereçada os brios da autoridade.
Assim dócil e curioso, o audacioso devolveu o questionamento sobre a
interrogadora. O cachorro, regozijado pela conquista, criava coragem para se
expor novamente ao alcance da bota do mecânico – que era a profissão denunciada
por seu macacão azul sujo de graxa. O cão inclinava o focinho levemente,
interessado no comércio de intimidações que se dava através daquela
indecifrável cadeia de grunhidos de seu “amigo” e a nova humana. Pressentiu que
estava seguro e abusou da confiança, com o rabo abanando e posicionado a duas
jardas mais próximo à dona do que ao homem. Ela respondeu:
- Não se faça de desentendido! Pensa que eu não vi você explorando esse animal?
Sabia que isso dá cadeia?
O mecânico ficou desconcertado, olhando em volta para ver se não havia
tropeçado em alguma criança, coçando a cabeça numa caçada de lembranças
enfurnadas, cedendo já a um pensamento de culpas que não tinha, mas que poderia
em todo caso ter aos olhos de alguém mais poderoso e sabido do que ele na
interpretação do certo e do errado.
- Não carece desses assuntos de polícia não senhora... – falou, com um toque de
envergonhado – o que foi que eu fiz?
- Estava maltratando esse cãozinho. Não tem vergonha? – a esta altura o
cãozinho já se posicionava quase inteiramente no campo da dona, bem consciente
de que aquela conjunção de ruídos havia triunfado. E o próprio animal já
esboçava o seu grunhido oportunista por trás das pernas da protetora.
- Olha dona, você não conhece mesmo essa peste... Se conhecesse...
Mas ela lhe interrompeu sem cerimônias. Deu-lhe a chance de desaparecer
enquanto ela virava as costas, pegava o pobre malandro quadrúpede vestido de
maltratado, e balbuciasse uma jorrada de palavras infantis ao cachorrinho, que
ao peludo assim martirizado pareciam piores do que latidos de um cachorro
rival. Por algum segredo do instinto, no entanto, o animal se conformou, como
sabendo que ali estava sua nova fonte incompreensível de alimentação nesse
mundo de cadeia alimentar distorcida, onde sobreviver e se alimentar depende de
muito mais do que da mera saúde dos dentes. Quanto cachorro doente e definhado,
de casa, não come melhor do que um robusto vira-lata cheio de imunidade?
Foi-se o ônibus...
O mecânico desertou jogando bravatas ao ar com os braços e com meias palavras
que evaporavam antes de formar uma frase, sugerindo que o azar de quem ficava
com o canino ainda lhe aumentava o prazer de se ver livre dele. Como Seu Josué
assistisse a tudo, perdia a noção do tempo e se abandonava às próprias
reflexões, sofrendo em solidariedade o destino do cachorrinho mimado
brutalmente em troca de abrigo. Trocou o pontapé por uma vida de barganhas
indignas. Mas lamentaria ainda mais o seu próprio destino se nesse momento
tivesse virado para trás e testemunhado seu ônibus fugindo pelo rabo da estrada
solitária, levando suas malas e a esperança de apressar a fuga da opressão
daquele calor furibundo. Pressentiu e virou, mas era tarde demais: já longe iam
os seus pertences pelos tentáculos sem fim do nordeste brasileiro, eles com
Adelmo, pouco se lixando para o dono que ficava para trás.
“Amaldiçoada mulher!” – pensou em um rompante da raiva, transferindo a ela uma
culpa que não queria para si; era muito peso para aturar. Voltou ao caixa do
restaurante:
- Oba! Acredita você que eu dormi enquanto ia o meu ônibus? Meu camarada nem
pra avisar... Só serve mesmo pra encher o saco com abobrinha!
- Ixi – respondeu o desconhecido por trás do balcão, onde também uma mocinha
mais nova peregrinava com pratos e talheres chocalhando em uma bandeja de
plástico – agora, só amanhã de manhã... Por aqui não passa muito carro não...
- Amanhã? – relinchou o descrente com exclamação. Mas não adiantava argumentar,
nem esquadrinhar a reserva de conhecimentos do outro com perguntas mais
criativas, porque ele nunca voltou atrás de sua primeira informação. Não
passava ônibus por ali, e nem na estrada, ele mesmo não podia fazer nada; que
se fosse por ele, desviava o caminho principal e fazia tudo que é transporte
vir por ali, que é como se vinha antigamente, “há muitos anos, na época em que
isso aqui se via sempre cheio”. E iam comentando sobre as duas estradas, essa,
a antiga, e a outra, mais nova e mais cheia de trânsito, embora a entrada
ficasse longe, quando apareceu ao lado a mulher com o cachorrinho no colo. O
bicho tinha uma cara de sofrido impagável, com o rabinho para baixo. Ela foi
logo se intrometendo, dando a mão:
- Olá, eu sou a Dona Fabíola do Carmo, você deve ser João Batista certo? O
jardineiro que contratei lá de Perquezinho da Serra?
A cara de Josué esbarrou com a do animal, aninhado nos braços protetores dela e
farejando no outro uma competição na liga dos impostores. Grunhiu baixinho.
“Que é isso, Bilu. Esse é o João Batista, vocês dois vão ser amigos”, admoestou
a dona, que já tinha um nome preparado para a nova aquisição.
- Sou eu mesmo, não existe outro... – respondeu o mentiroso. O jantar ia ganhar
de graça, e até uma cama para não passar noite em banco de rodoviária.
E enquanto se apresentava foi interrompido pela língua atarefada dela, que
conseguia numa única investida abordar centenas de assuntos dispersos.
Perguntou das bagagens, da vida, de seu tio, do último patrão, falou do marido
morto, dos negócios, tanta coisa escapou dos seus lábios que já não era tão
difícil ser João Batista quando só precisava ouvir e falar tão pouco.
- Minha bagagem ficou no ônibus, acredite você minha senhora...
- Ah, que desaforo... Essas empresas de ônibus e seus motoristas afobados, até
parece que tem algo mais importante para fazer que dirigir. Nós vamos recuperar
elas amanhã, não se preocupe. É fácil, basta um telefonema... De qualquer
forma, nós temos as coisas e roupas do outro jardineiro, e você pode ficar com
elas por hoje...
O carro foi embora com os dois novos passageiros acomodados: um humano e o
outro rabudo. Fabíola do Carmo não fechava a boca, ora alisava os pelos do
animal e o torturava a preço de gemidos histéricos, ora abordava o homem com um
tom mais sério e controlado. Contava como havia sido apresentada ao jardineiro
e suas técnicas heterodoxas: “só ouvi falar bem de você”. Dizia que ela também
era afeita às rupturas, às quebras de paradigmas. Que lia sobre magia, magia
boa, do bem... enfatizava: “só do bem”. Tinha uma relação pura com a natureza,
e conversava todos os dias com suas plantinhas. Tinha grandes expectativas para
a intervenção do homem. Esperou por ele toda a semana, e tinha certeza de que
ele gostaria da nova casa.
- Sabe como é difícil nesse clima manter a sobrevivência das plantas...
Chegaram e após mostrar a casa toda ao novo jardineiro, lhe ofereceu o jantar.
A casa era habitada por outras três crianças, que festejaram o novo cachorro
com um entusiasmo assombroso. Foi servida uma salada frondosa. “Você sabe que na
minha casa não entra carne”, disse ao quieto jardineiro de conveniência, que a
esta altura continuava apenas acenando com a cabeça e concordando com tudo.
- Mas você é um mistério Seu João Batista. Quer me matar de tanta expectativa?
Conte-me mais sobre o seu famoso método...
O quadrúpede embaixo da mesa rosnou mais alto. O pobre
seu Josué, cheio de pompa, abriu seu conhecimento:
- Ah, dona, o meu método é chamado “Adelmo-Figueira”. Adelmo-Figueira é um
autor eminente de Socorro, Lá de São Paulo, grande gênio, precursor da
jardinagem new wave, que consiste em uma perfeita harmonia entre os
elementos vegetais e os animais. Mas é uma surpresa, e te garanto que não vai
se arrepender de esperar mais um dia...
Decidiram que depois da janta era hora de dormir, e encaminhou o jardineiro
para seu quarto. Pela manhã a Dona acordou com o barulho insistente do cortador
de grama. Parecia mais estar embaixo de um autódromo. Desceu ainda de roupão e
encontrou o cachorro preso ao cortador de grama por uma corda, qual um cavalo
atrelado a uma carroça, levando a máquina sem pena da grama e das plantas que
se iam decapitando.
Na tarde do mesmo dia, horas mais tarde, a campainha tocou. O cachorro já estava a salvo, na soleira da porta, cabisbaixo ainda com o desaforo sofrido. Na porta Fabíola do Carmo, ainda escandalizada, distinguiu
um homem com chapéu de bruxo, roupa extravagante e um saco com o que parecia
ser uma classe de instrumentos de jardinagem.
- Quem é o senhor?
- Sou o jardineiro. Só consegui chegar hoje.
A mulher pôs a mão na cabeça. Esboçou um cacoete misterioso, que não se
sabe se dava sinal de que pensava ou apenas abismava. Disse na sequência:
- Mas não um discípulo do método Adelmo-Figueira né...?
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
... vandalismos do amor ilícito
... seguiu
naquela noite para casa sozinho, carente até mesmo da companhia da lua, preço
do pedágio de nuvens inflacionando a moeda lunar. Mastigava despeitos e
consumia alergias durante o trabalhoso aclive. Integrava uma nova cadeia de
preconceitos à sua identidade pessoal, novas repulsas e orgulhos. Mas se
tornando assim um pouco mais vacinado, mau e malicioso, queria sobretudo punir
o mundo pela sua injustiça. Desagravava uma egoísta sede de justiça ao invocar o cinismo. Sequestrava a razão ao alvejá-la de desconfianças maliciosas, prometendo que ela não teria defesa contra seus projéteis de ceticismo e esclarecimento armargurado. Quando foi a última vez que teve motivos para confiar em alguém?
Nem se lembrava. E assim seu espírito colhia a
cultura da experiência, quando a atenção da escalada de rotina foi roubada pelo
vulto branco que vibrou num assomo de pânico em cima do telhado vizinho à sua
casa. Era o Romeu gatuno, sobressaltado pelo aparecimento do menino.
Os olhos
do bicho engataram com os do homem, numa troca fluvial de mensagens indizíveis,
um mergulhando na alma do outro. Em um único impulso o gato voltou a si e
disparou com uma leveza que encrespava cachos de seda de inveja, calçando solas
de algodão e queimando o carvão sutil das calorias etéreas. Era como um fluído
em movimento. Aquela noite era dele mais que de qualquer homem e, em
Florianópolis, “hoje” – pensou Laio – havia pelo menos a presença de um genuíno boêmio, desafiando a simbologia
estrangeira, resgatando o valor da ideia por trás do distante estrangeirismo e
a aplicando a um caso que não pertence aos célebres bares de Paris: o caso do delinquente
animal brasileiro vandalizando as convenções do dia em sua carreira noturna. O
namorador fluía na escuridão como um líquido alcoólico, projetado para injetar
paixões embriagadas nas gatas felizes.
Mais
alguns passos em direção a casa e divisou outra aparição avultando veloz
junto aos caules que preenchiam o caminho entre a casa do vizinho e a sua.
Dirigia-se na mesma direção que ele, para cima, mas numa velocidade muito mais
acelerada. O rapaz continuou batalhando a subida lenta e aferrou-se enfim ao
portão, atravessando a última barreira entre ele e consolo do descanso, quando
encontrou velando ao lado de fora, na pequena área que preludiava a porta,
a gata, como uma esfinge absorta em regiões da imaginação. A gata gravitava
nas bolhas das representações. Fora Montaigne quem, observando um cavalo de
batalhas tremendo durante o sono como se estivesse em ação, concluíra que o
animal sonhava e, portanto, reservava uma vida interior onde tiros de canhão
não precisam de pólvora e o fio das lanças não precisam de amolador, onde, em uma
palavra, os detalhes materiais são descontados face à imaculada forma das imagens e afigurações. Esse
submundo simbólico misterioso visitado durante o sono é a prova de que os
animais não humanos também sofrem o castigo da gramática. E, inclusive, é a prova
de que inferem, uma vez que inferir não é mais que explorar as possibilidades e
alternativas de combinação autorizadas pela interdependência entre as formas, cujas combinações sólidas e
infalíveis nos tornam cativos de mundos semânticos, mitologias analíticas. Mas
isso é, sobretudo, a prova de que os desejos e vontades das bestas, além da
carga instintiva vulgar, também invocam o crédito para uma ambição maior, o
financiamento de uma clareza angelical, algo digno da transcendência das
preces: eles também querem a Verdade. Se isso parece metafísica vulgar aplicada
aos bichos, é porque não pode ser diferente. Seus desejos são mais que meros
desejos: são paixões como as nossas, oscilando entre o barato e o profundo. Era
essa elevação espiritual que se filtrava na expressão de transe da gata na
soleira da porta.
Laio
experimentou um segundo e meio de ressentimento. Apontou para a gata com olhos
de gancho. Ele sabia agora, sem dúvida, quem era o vulto de cores desbotadas e
dissolvidas nas cores do fundo que corria pelas árvores em direção à República.
Estava demais desconfiado, infeliz, envenenado, para que se deixasse enganar
pelo silêncio dissimulado de uma gata eufórica. A densa amargura vertida
recentemente sobre si lhe acoplou aos órgãos uma nova habilidade intuitiva, um
olho de lince para os segredos da felicidade ilícita. Era a habilidade dos
ressentidos; que é, pelo menos, um instrumento de faro realmente útil, uma vez
que dificilmente erra. E não errava: era mesmo a gata correndo como cinderela
antes da carruagem virar abóbora. Foi veloz o bastante para evitar que o menino
chegasse primeiro. Mas o que a acusou sem apelo, o seu sapatinho de cristal
esquecido, foi a vagueza pintada na expressão, a profundidade de abismos
secretos e paixões virulentas vivificadas no fundo do seu olho reverente.
Comparando esses suspiros da sua alma jovem com a imagem do boêmio branco
elegante e flexível nas telhas do vizinho, era inevitável induzir que ela
estivesse com ele. O resto das pistas eram somente confirmações adjacentes.
domingo, 4 de outubro de 2015
Sementes de intuição
A janela aberta do quarto deixava entrar
uma ideia ou outra, ressabiadas e tímidas como as brisas do mormaço. O painel
que se dilatava pela veneziana aberta com sorte pintava a passagem de uma
candidatura ao belo, embora em sua fugitiva natureza e independência. Não raro
a atenção se dirigia a um prédio, ou a uma rua do bairro comercial, onde
pessoas encenavam todos os dias mais um capítulo da pressa humana, o seu lépido
e ocioso passo de lugar qualquer para lugar nenhum. Mas iam e vinham como em
dança de ratos no laboratório, sugerindo ao pesquisador apenas simulacros de
experiências controladas, nada de espontâneo e livre, nem de levemente
despeitado e delinquente. Nenhuma fonte de inspiração.
Diante
do tribunal da vida, que é curta, é um luxo indesculpável recusar a ocasião de
uma viagem que cai do céu como uma mensagem gratuita da providência. Ignorar os
seus favores chega a ser uma arrogância. O que piora a reputação da ousadia é
que ela é uma perfeita infração da política dos modestos. Uma espécie de
superstição: pois esta é também um luxo, um capricho de quem acha que pode
dispensar a inteligência. Quando a janela do quarto é a única ventilação da
alma, nunca é demais advertir: algo está errado. Nada compara o efeito de uma
viagem para difundir sementes no jardim da experiência.
Tércio chegou, entrou e sentou-se,
esperando alguém que não lhe fosse estranho. Apenas por acaso a sua ruim
pontualidade não fora mais atrasada que a dos demais, que ousaram não entrar
senão antes que a hora exata os obrigasse. Haviam se acercado aos poucos e se
deixado à porta. Porém havia pretextos para estar dentro, mais do que para
estar fora: o frio do exterior carcomia a malha da pele sem nem aquela justa
piedade das traças, que dão aos livros pelo menos tempo suficiente para se
preservarem nas memórias de um leitor.
Mais
fácil era erodir-se em paulatino esquecimento pela exposição àquela extinção
glacial.
Mas
o povo ficava lá fora falando, falando, e lá dentro sozinho parecia
até mais inverno. Por um minuto, Tércio ponderou se tinha feito bem em lançar
mão das malas e colocar-se à disposição de uma viagem desconhecida mesmo depois
de seu único contato advertir-lhe a ausência. Não demorou, porém, a que
chegasse um rosto familiar. Cassiano era seu amigo quase tanto quanto Patrick,
ou seja, pouco, mas a sua presença o abrigava da pior solidão: a do estranho em
lugar de familiares. Já se pode agora deixar para trás esse primeiro minuto de
tensão dentro do ônibus. De agora em diante tinha casa: o amigo servir-lhe-ia
como as linhas de um papel para retificar sua caligrafia e torná-lo legível a
todos os outros. Era sua ponte de contato e seu ponto de apoio. Com esse
pequeno traço de ansiedade não precisava mais se preocupar.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
As barracudas acadêmicas
O orientador geral da turma com que Tércio
viera se destacava na área com suas incontáveis publicações, inumeráveis
participações em congressos, mais a sua experiência já meio maliciosa da
dinâmica das interações nestas festas. Continha aquela leviandade que distingue
tão bem o professor universitário moderno daqueles carrascos bem alimentados
dos templos medievais, e dos mal pagos pedagogos das escolas públicas.
Na segunda noite se encontraram
novamente todos os seus pupilos em uma democrática mesa de bar onde todos
tinham o mesmo direito à opinião, mas com pesos diferentes, naturalmente, que
onde fala o galo não pode provocar o mesmo efeito a palavra do pintinho. Assim
é o mundo: meio injusto, e sem remorso. Há pouco crédito em risco na objeção do
excluído, o pobre aluno que ainda não conquistou a proteção da instituição
acadêmica. Por outro lado havia muita coisa em jogo cada vez que se pronunciava
o orientador: era preciso lhe captar o sentido, entendê-lo, fazer-se íntimo,
rir com ele e mesmo daquilo que não tinha graça.
Na noite de quarta feira o assunto
versava sobre os peixes e algas vistos durante o dia, no mergulho de turismo
feito no passeio de barco. Tércio apenas por acaso estava com seus óculos de
natação na mochila, e ainda expunha sua surpresa com a fartura de beleza
pulverizada em matizes infinitos de cores e movimentos: a dinâmica da submersão
aquática, cada gesto cadenciado em um ritmo de sonho, de um lado para o outro,
vagarosos como a sutileza mitológica de passos de valsa no aquário da noite
estrelada. Pareciam imitar a flexibilidade de um rebolado extraterreno; como
bundas oscilando em um planeta com menor força gravitacional. Cada peixinho um
membro involuntário da coreografia. O entusiasmo dos encantamentos ainda
povoava o seu espírito, e como uma criança ele despejava suas impressões na
mesa, sob a fiscalização complacente do professor:
– Nossa, nunca vi tanta enchova
junto, e sem medo nenhum de mim, só faltou me deixarem passar a mão nelas
como se faz com um cachorro domesticado...
– Enchova não, Barracudas, Sphyraena
barracuda, volveu o mestrando – que conhecemos também por Diego – ligado à mesa
pela ponta. Disse isso relanceando os olhos para o professor.
– Tá, obrigado – continuou sem
temperar o fôlego – aquele coral lindo, e aquelas árvores lá embaixo, dançando
em esbeltos pares ao embalo das correntes marítimas... – foi interrompido neste
ponto, não sem enraizar na mesa uma impressão de estranheza que refletia o
efeito de indigestão gerado pelo conflito de regiões discursivas. Os
cientistas, acostumados ao freio do discurso acadêmico, não viam nessas
expressões de entusiasmo líricas senão a carreira desvairada de um palavreado
vácuo, uma promiscuidade confusa para escolher as palavras.
– Árvore não, uma alga, uma
Cianophyta, por favor, isso é uma mesa de fitólogos, foi como lhe interrompeu a
prolixidade Diego, e olhou em volta esperando a aprovação dos “fitólogos”, com
um sorriso maquiado no rosto de puxa saco; depois olhou para o professor,
disparando súplicas subentendidas ao venerando mestre, mas não foi
correspondido nem por uns nem pelo outro.
Tércio parou, ponderou, pensou em
voltar à sua viagem pela memória das árvores marinhas, mas percebeu que não
tinha mais caminho livre; o mestrando havia jogado caules, galhos e animais,
cada qual com o seu nome em latim, obstruindo o meio da pista em que corria a
sua ingênua eloquência. O seu silêncio durou muitos segundos de reflexão, mas
queria desaparecer, em um tom novo, darwinianamente adaptado. Pensou consigo:
“Realidade é o nome pomposo que
vocês dão para a dimensão artificial do seu laboratório. Todo esse
alfabeto de definições enciclopédicas não passa de um exercício de musculação
intelectual: quanto mais catalogados bichos e vegetais, mais fácil aguentar o
peso do discurso nos seus braços e adquirir a autoridade para falar e falar,
palestrar e palrar, pesando a verdade em uma balança intuitiva fabricada. Mas
também isso só vale nos limites do seu encerramento acadêmico... Que, de onde
eu venho: helicóptero é avião de rosca e lagartixa é jacarezinho de parede. O
que vocês chamam de errado, para mim, é a poesia ordinária da vida real, para a
qual lhes falta talento” – mas nada disso falou. Encerrou como um tumor no seu
âmago. Quem quer brigar precisa de pretexto. E se a caça de pretextos está
fraca: espera-se até a próxima estação!
Olhou para o professor que continuava com
um sorriso complacente, um traço que não lhe sabotava a reconhecida supremacia,
nem ofendia a ninguém. Levantou o copo em uma mensagem de abandono formulado em
brinde, e encabeçou de volta para a sua turma, onde o recolheram com pressa e o
receberam com as saudades de quem já não o via há muito tempo. “Afinal,
uma teoria da roda tem que ser melhor que a teoria do
quadrado para pôr um carro em movimento; e comer de garfo sempre é
mais fácil do que comer de pauzinhos, não importa o quão poéticos sejam os
orientais” – pensou ainda Tércio, retratando-se de si para si mesmo pela
covardia cancerígena.
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Os tesouros férteis de uma experiência artesanal
Já não faz pouco tempo que cheguei e o
tema de minhas impressões não mudou junto com o clima. Pois ele é o próprio
clima, que não muda.
A
cadeira que sobrava no meu quarto eu pus para fora, e embora prometendo-lhe resgate breve, debitei mais um valor junto com a conta abismal dos
juramentos não cumpridos, cedendo à regra da procrastinação. Lá fora ela toma a
água da chuva interminável. Muitas vezes pensei que aquilo ia tomar cheiro de
mofo e outras, respondi a mim mesmo dizendo que ia tirá-la de lá logo. Mas nunca fui. Hoje
percebi que quanto mais eu prorrogo, mais vai a cadeira se ambientando ao
dilúvio sorrateiro que se conspira no céu de Florianópolis. Fui assistindo ela tornar-se um artigo orgânico, as suas pernas
se desenvolvendo como raízes pantanosas, como o fóssil de um sambaqui imemorial
dando à paisagem a aparência de um cemitério de mobílias naufragadas. Enfim,
desisti de tirá-la de lá. Já é o novo lar de centenas de fungos que prosperam
na umidade. Como um navio que virou coral no fundo do mar. Foi absorvida pela
chuva interminável, que a nada poupa. Meu medo é sair na rua e ter meus pés
dilatados em ventosas de polvo.
Mas
é bom estar de volta à minha cidade, como um marinheiro com novas estórias.
Preparado também para ouvi-la com novas orelhas. As cidades têm personalidades,
disse alguém que provavelmente entrou em diálogo com elas. Ou teve uma
discussão, um desacordo; tanto faz. Quanto mais personalidade, mais brigona. Eu
também o diria, mas hesito em cometer mais um desgaste em um texto que já vai se cansando de tanto efeito. Apesar disso, confesso que o
falei, embora transferindo a responsabilidade para a boca de um alguém.
A
vantagem dos simulacros sobre as definições científicas é que aqueles têm peso,
tom, e até cheiro, enquanto estas são insípidas e neutras como a vida privada
de um banqueiro. Se os primeiros são instrutivos ou não é matéria de
controversa. Os cientistas vão sempre caluniá-los, acusá-los de enganadores. Eu
gosto mesmo é da linguagem gorda, criativa, que confunde, mas romanceia, e não
essa formalidade amarga de leis e princípios, que define, mas desilude. Por
isso repito: as cidades têm personalidades. Acredito que algo parecido já foi
dito em muitos lugares e por muitas pessoas; e não é à toa, se todas elas
apenas dependessem de ter dialogado com uma cidade para elaborar o enunciado.
Há vozes que nunca se calam nas esquinas e endereços. Ninguém fica sem assunto.
Basta, pois, ter ouvidos para suas sugestões. Há cidades convidativas e hostis,
senis e joviais, doentes e saudáveis, determinando as perspectivas que nela
podem nascer, os conflitos e armistícios que nela se podem assinar, as
convulsões artísticas provocadas pelas suas dores estomacais, seus espasmos
culturais. Há uma diversidade rica de possibilidades discursivas e de leis e
ideias presas nas malhas da polis.
E
a sensibilidade fica mais aberta, porosa, quando as habitamos na qualidade de
hóspedes. Quando podemos medir o modo como ela trata as visitas. Porém, é nesse
estado que estamos mais sujeitos a cometer más interpretações, esperando um
conforto pacífico e uma recepção pouco agitada, incapaz de sacudir o espírito.
O turismo geralmente tem esse efeito: comprar a hospitalidade de lugares
estranhos, anular as suas vozes e esterilizar aquela mesma estranheza. Há
pessoas que são eternamente turistas, pois vivem pagando a hospitalidade
alheia. E vencer completamente esse estado é muito difícil, pois é vencer um
inimigo poderoso: a inclinação a preservar as fronteiras de nossa zona de
conforto, nossa economia íntima, onde administramos nossas dívidas e cobranças.
É preciso ser amplo e abrangente na administração dos próprios preconceitos, para
curtir os lugares estranhos em vez de apenas estranhá-los.
Nas
colheitas de outros mundos, não haverá senão estéril refeição de vivências se o
viajante não souber ver toda a riqueza humana encerrada dentro das
possibilidades domésticas de sua própria experiência. A areia do deserto, o
gelo da montanha e os animais silvestres serão apenas redundâncias. Não sou do
partido contrário ao de Marco Polo e nem advogo contra a frase de Fernando
Pessoa (“viajar é preciso...”), que mesmo depois de desgastada em clichê não
perdeu a pimenta e nem deixou de estimular faíscas. Só lembro que o cego do
espírito não pode tirar vantagem da velocidade de um avião para compensar a
lerdeza tardia dos olhos. Nenhuma palavra será tirada de outras cidades se a
sua própria, e quiçá sua casa, não for uma estufa igualmente poderosa para
fermentar o álcool embriagante da vida. Não foi a pressa insensível de certos
europeus míopes que enterrou a cultura dos índios? Queriam caminhos mais
econômicos, os brutos de vanguarda, e inventaram o trânsito, foram precursores apenas
da marginal Pinheiros. Posso não dar o exemplo da minha própria doutrina, e
disso me recrimino. Mas se alguém tem consigo a cobiça das horas leves e calmas
dilatadas, não ligará para a diferença mesquinha de alguns séculos, nem invejará
a rapidez artificial da indústria de velocidades. E há imponderáveis eternidades
adormecidas no tesouro lerdo das horas artesanais.
Voltei
cheio de novos cenários, mas é com o conteúdo artesanal da minha própria
sensibilidade com que tenho que me preocupar.
Durante essa viagem passei por diversas cidades, mas não me sinto tão
modificado a ponto de ter aprendido algo a mais, ou escalado novas etapas do
monte das ideias. Há muito turismo invencível em mim, que me impede de navegar
abertamente pelas correntes e fluxos de perspectivas ofertados pelas cidades. E
só não menciono os museus e as cabines enferrujadas do passado, motorizadas a
dinheiro, aceleradas por pontos de vista estapafúrdios, e explodidas por
combustíveis de ganância. A experiência que se nutre dos bares e da rua mantém
a identidade romântica in corrompida, se alimenta da noite e do dia durante os
momentos em que uma trama típica dos contornos citadinos pode acontecer ou
repetir-se, reacendendo o espírito do lugar
na encenação dos seus personagens.
sábado, 27 de setembro de 2014
São mil janelas encaixadas em um conjunto festivo de torreões,
formando um imenso castelo medieval de lajes, enfeitado com as cores elencadas
nos varais de roupas, que em seu carnaval desfilam como oferendas ao sol da
tarde. O verão não tem prazo, o sol enfeita os corpos durante o ano inteiro num
esbanjamento de cor. Isso também determina o espírito, muda o humor. A pele
carioca concentra doses de riqueza solar. Nos sobrados do Botafogo e Catete perduram
antigas gafieiras, hoje convertidas em escolas. É a singular emanação de
uma euforia que reúne o efeito de muitas agitações, uma algaravia que nunca
passa, seja de manhã, de tarde ou de noite. Jovens com os pés grávidos de
ideias passam ali o dia inteiro, e vão até a madrugada, em um laboratório de criação
que faz às universidades inveja. Há tantas vozes e tumultos como cores.
Lembram antigos puxadores de escola de samba alugando as cordas vocais ao
serviço de feirantes. E a escadaria dos casarões e sobrados é trafegada por uma
heterogeneidade de carne e espírito humano, uma fauna que seduz os olhos,
porque uma coisa que nunca deixa de entreter o homem é o próprio homem, em
todas as suas expressões.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
O Mito dos cabarets paulistanos
Na descrição mais detalhada já feita por quem não estava absolutamente lá, direto da boca de um autêntico amigo meu – embaixador de um legítimo cunhado de um comprovado seu primo – ouvi ontem o interessante relato de um show pitoresco de cabaré. Distintivo pelo caráter de lenda urbana. Essa é a narrativa suja de um operário de um puteiro de São Paulo, desperdício de um dom raro e exemplo de uma misteriosa vocação genética, vivendo como um animal exótico fazendo dinheiro miúdo ao prostituir seu talento de visionário em alguma espelunca que o esconde da civilização. Como um grato explorado, está satisfeito: protege-se assim da insegurança de seus pares. Compreensível é que o abordem com medo. A humanidade nunca deixou de cobrar a existência do desusado e do pioneiro, embora – coisa injusta! – não aumente o imposto para os estúpidos e malandros que exploram as facilidades vulgares para se tornarem poderosos, ricos e privilegiados.
E assim, na calada de alguma colônia imunda de zonas paulistanas, a troco de risos grosseiros e ao julgo do olhar ignorante de clientes sem sutileza para entender uma piada, ele performa o seu número de mágica poluída, sem deixar de ser valorizado, entretanto, por nosso confiável anônimo; padroeiro de todas as estórias perdidas na marginalidade das sarjetas.
Conta a lenda que o fenômeno era um homem comum, careca, com olhos castanhos e nariz achatado, baixinho, magro e de compleição nordestina, a mais comum das figuras do cotidiano paulista, embora no olhar meditativo refletisse luzes de um orgulho incompreensível, um toque sutil de monge tibetano exilado, de homem não mundano, aspectos que poucos percebiam. Enrolado em uma toalha e de resto nu, a sua chegada invariavelmente ceifava murmúrios de impaciência seguidos de vaias hostis, porque tomava de repente o palco que minutos antes fora de criaturas do belo sexo, e ameaçava amargurar os olhos do público com a queda catastrófica da toalha bendita, véu abençoado separando os clientes de uma visão lamentável. E era então que a toalha caía! Todas as luzes miravam o que menos se queria ver - uma manobra enfática. Absorvidos pela escuridão nas periferias que rodeavam o astro, o público esboçava vozes de quem está sendo torturado e o murmúrio conjunto do recinto fazia lembrar os lamentos imemoriais de um jardim de almas penitentes. Ruídos de cadeiras caindo e pés de mesa rangendo; passos desesperados tentando achar o caminho da saída.
Ato contínuo, o silêncio gradualmente se expandia, o silêncio da surpresa, dos atônitos com o tamanho desproporcional que se desenrolara como uma jibóia treinada. Uma risada: “seu jumento!”, pulava de alguma boca, e a gargalhada ressoava em ecos, irrompendo o clima de perdição, lembrando um ambiente de orgias romanas ou de macacos brincando com a própria merda. Ao palco, com os braços flexionados sobre a cintura na postura prosaica do super-herói, o rosto do superdotado assumia uma expressão de foco, o queixo se movia para diante ligeiramente, o bico do lábio inferior se pronunciava, e os olhos dilatados dardejavam o vácuo à sua frente como se tentasse levantar as mesas com a força do pensamento. Quando, sem mexer os braços, a cintura ou os dedos, semelhante a uma mangueira içada por manivelas rangentes dos bastidores, seu órgão – perdoem-me; em algum momento teria de mencioná-lo sem eufemismos! – subia implacável e contínuo como um ser dotado de vontade, como a ponta de um raciocínio que persegue uma verdade, o céu apenas por limite.
Sei que a imagem é degradante, caros leitores, e não costumo convidá-los sempre à conversação neste blog, embora agora veja a necessidade de apaziguá-los. Aviso que não deixam de prever o valor do seu sacrifício de ler até o fim, entretanto, mitigados por saber da existência desse ser desleal que se esconde da ciência e da cultura, mas não dos relatos que viajam de boca em boca – os quais se devem à ação do proverbial espirito da cidade que o assistiu e transformou em mito. Eu mesmo, quem sou, para negar o espaço modesto de meu blog para repassar a informação?
Na posição em que o deixamos no palco, o impassível telepata fálico cerrou os olhos devagar como se acessasse a estrutura do mundo invisível, e numa apoteose de mágica incognoscível, o arauto do mistério assombrosamente concluiu sua amostra de poderes sobrenaturais eclodindo em um orgasmo de dois minutos. Dessa imagem eu lhes poupo a descrição mais minuciosa! A experiência aterradora provavelmente deixa catatônicos por dias os que chegaram a ver o colonizador salivando seu pródigo cofre de sementes, mensageiro de uma nova técnica tântrica. A sala mal iluminada de um beco qualquer o esconde da civilização. Não vai ganhar um contrato milionário, e melhor é que continue discreto, não se expondo à ambição dos invejosos. Ainda por cima, nasceu no hemisfério errado: seria a grande sensação de uma sociedade poligâmica. Sua mulher, uma simples senhora sem consciência da própria sorte, e ainda ingrata, jamais reclamará das obrigações noturnas, porém não deixará de tortura-lo quando chegar bêbado ou esquecer de baixar a tampa do vaso. Injusta distribuicao de méritos!
sábado, 17 de maio de 2014
Nelson Sargento, Lagoa, 07/10/2012
Lua do dia 07 de outubro de 2012: Uma noite como outras na Lagoa? Exceto
pela lenda do samba que pisou suas margens, aos passos miúdos da experiência,
carreta humana de um armazém do tempo que vai ficando para sempre mumificado
nos cadernos das crônicas da Mangueira; lá onde, em um desfile de mitos,
andaram juntos poetas que valem a oferta de uma constelação, e que agora só
podem mesmo ter se convertido em estrelas, habitando um céu que prorroga a
chegada do “Nelson remanescente”, que sobrou para contar a história aos netos
da cultura que ele ajudou a semear. O sargento desceu do carro na porta,
baixinho, andou encurvado, sem pressa, cumprimentou e distribuiu autógrafo a
quem pediu, e, desafiando quem achou que a madrugada ia vencê-lo, começou a
cantar só uma e meia, com uma voz modificada, mas ainda atinada, fecunda,
mensageira de gerações e profeta de influências do passado. Ritual de gestos
musicais: deu a mão a todos os músicos do palco com a parcimônia de um
cerimonioso pastor, cantou músicas suas e de seus próximos, Cartola,
Cavaquinho, bancando viagens pela memória do samba, transportando os ouvidos
mal alimentados do presente a um cofre de joias sonoras, tristes ou alegres,
autênticas. Foi ele quem disse: ‘Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve’.
Ora, mas emprestou a “Alvorada” desse sonho coletivo do Brasil, e todos nós
adormecemos juntos. Domingo alvoreceu uma primavera de aplausos atrás do morro
da praia mole, refletindo os ecos de uma época de gratidão.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Os ícones do Baila Floripa
Quatro
dias de dança, e uma gratificante dor nas costas de sequela. O Baila Floripa não recompensa o ladrão
com mais do que ele pode carregar. Quem volta com o corpo dolorido presume ter
algo em comum com alguns dos virtuosos que dançaram e se apresentaram, e que
puderam carregar mais do que calos e dores no seu furto ao espírito da festa. O
congresso, organizado pela administração da acads, presidida pela competente e
incansável Aline Menezes, é um canal de muitas energias. As diferenças de
estilo se desafiam, a variedade de experiências se confronta, e os casais mais
ousados se enfrentam no final, em uma expressão de competitividade fundamental
tanto para o florescimento da arte quanto da ciência. Mas a um desses comércios
de influência eu gostaria de dar ênfase, uma vez que é aquele em que tive o
prazer de participar: a ebulição inspiradora parida da interação entre os
alunos e os professores, e que tem o seu auge no final de cada aula, quando as
duas classes se oferecem mutuamente em uma generosa troca. Os gritos, assobios,
suspiros e suspenses dos pupilos são a semente de uma energia sugada e
reciclada pelos mestres, que devolvem respostas improvisadas pelo próprio
corpo, em um diálogo que envolve a música, o dançarino e os admiradores. Como
um comediante progride com o progresso dos risos da audiência, a dança se
alimenta dos uivos de prazer dos seus fãs. Naqueles últimos cinco minutos sincroniza-se
o tempo em uma expressão de arte real. O expectador e o artista negociam suas
necessidades na linha fina do instante. A narrativa da dança se torna um jogo
de reflexos entre o autor e o leitor, cada gesto nascendo livre e ao mesmo
tempo necessário, como se sua espontaneidade fluida viesse amadurecendo desde
uma raiz longínqua plantada em um passado remoto, para emergir no agora com a
força de uma ideia fresca. O Baila Floripa é feito pelos ícones. Além dos
talentos locais que cada vez mais confirmam a suspeita de um futuro brilhante,
há os de fora que através do youtube foram previamente canonizados, e a sua presença
infesta o ambiente com um ar de veneração. Mesmo que fora do universo da dança não
sejam conhecidos e admirados com a mesma intensidade, é fazer justiça dizer que
as suas performances agregam valor à personalidade cultural do Brasil. Assim
como jogadores de futebol, Garrincha, Pelé e Romário, alguns dos prodígios dançantes desse país
deveriam já estar incluídos em letras de música e ser cantados nas rodas de
samba, como figuras da mitologia popular, capazes de misturar as sílabas do
espírito brasileiro e escrever mensagens que apelam ao nosso coração, nos
despertando um senso de identidade.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Como aplicar a falácia do espantalho: reflexões sobre a má interpretação das falácias informais nas discussões diletantes da internet
Em uma época em que a internet
se tornou uma ilha exposta às enxaquecas de muitas ondas ideológicas, e abriga
acirradas discussões políticas, onde mesmo as pessoas mais tímidas encontraram
inspiração para se expôr e defender suas crenças, eu, que fiquei apenas mais
tímido, decidi escolher um lugar pretensamente mais neutro e olhar a discussão
de fora, alertando para alguns perigos que acompanham as expressões apaixonadas
de sentimentos íntimos. Quero fazer uma pequeno advertimento lógico, a respeito
das falácias informais, especialmente uma: a chamada falácia do espantalho.
Observo que se tornou um costume mais ou menos frequente pessoas invocarem essa
falácia como uma carta de emergência, projetada para ganhar qualquer discussão.
Na verdade, ela de fato é raiz de mal entendidos, e o grande pensador que em
algum momento a descobriu provavelmente teria a devolvido para a cachola se
suspeitasse como o público geral faria uso de seus serviços. Isso acontece
porque ela apela para um sentimento muito comum presente na maior parte dos debatedores,
quando esses superestimam a própria opinião. A ideia é que, sempre que alguém
discorda com ele, estaria cometendo a falácia do espantalho. Espantoso não?
Imaginem o exemplo: Uma alguém A apresenta um argumento logicamente estruturado
para refutar a conclusão de que o Brasil é um país corrupto. Um oponente
"B" pensa que o Brasil é um país corrupto e que como "A"
não considerou as premissas que ele (B) próprio acha relevantes, então (A) deve
ter simplificado o caminho até a conclusão, ou seja, usou uma versão
conveniente ou um espantalho do problema para adquirir respostas - ou
conclusões - fáceis. O mais fantástico é que B não acha apenas que
"A" estava errado: ele acha que "A" cometeu uma falácia. Segundo ele, "A" nunca chegou a desafiar o fato de que O
Brasil é um país corrupto, pois sequer apresentou um argumento válido. Triunfante, agora qualquer um que não problematizou
a questão como ele, ou que não adotou as mesmas premissas que ele, ou que
apresente argumentos fracos, irrelevantes, não inteligentes o bastante, comete
falácias. E assim, resumindo, quem discorda de "B" é sempre um
falacioso. É a instauração do caos argumentativo: todos podem desqualificar o
argumento do outro com base na superestima que ele tem sobre a própria opinião.
Psicologicamente, isso significa que "B" pensa desse modo: "se
alguém discordou de mim, é porque falhou em colocar o problema e abordar a
minha opinião pelo modo mais forte o possível, isto é, o modo como eu mesmo a
abordo". E qualquer opinião agora é a priori desqualificável.
Pois se "B" acusa "A" de simplificar convenientemente o
argumento alvo, "A" pode igualmente acusar "B" de
fortalecer convenientemente o argumento protegido. E como ambos podem acusar um ao
outro de falaciosos, as diferentes opiniões nunca se enfrentam e confrontam,
transformando a discussão em um verdadeiro circo sem propósito. Pela mágica da
loucura, ambos agora correm em círculos atrás do próprio rabo.O uso inopinado e constante dessa falácia para fazer acusações desse tipo tem sido uma manobra falaciosa com valor independente, que poderíamos batizar com seu próprio nome. Mas deixemos a parte da nomenclatura para quem tem mais energia. Importa a nós perceber que quando olhamos a sua estrutura, percebemos por que é tão fácil as discussões de internet não caminharem para lugar algum. Do ponto de vista psicológico, tal uso reflete a tendência conhecida das pessoas a pensar que aquele que discorda de si não entendeu seu argumento: pois para ele, bastaria que ele entendesse, para que automaticamente concordasse. Essa ingenuidade deriva de algo que poderíamos chamar de um vício de personalidade baseado em uma má compreensão da natureza formal da lógica. Propriamente falando, nenhum argumento pode ser falacioso ou logicamente desqualificado em vista do seu conteúdo - em outras palavras, todos estamos livres para escolher o nosso próprio recorte, nossas próprias premissas, nossas próprias suposições, nosso próprio conteúdo, e isso não pode nos desqualificar como falaciosos. A falácia do espantalho, por sua vez, quando adequadamente aplicada somente ocorre quando esses três passos ocorrem:
1. uma
premissa foi apresentada na discussão pelo sujeito Y e aceita para os fins
de argumentação pelo sujeito X
2. O sujeito X entende errado ou distorce a premissa
3. O sujeito X ataca a conclusão de Y através da versão distorcida da premissa aceita (cometendo a falácia do espantalho).
Se o passo 1 nunca ocorrer, isto é, se X não aceitar nenhuma premissa ou
suposição de Y, logo, o passo 2 e 3 tampouco pode ocorrer, pois ele não pode
distorcer uma premissa que, em primeiro lugar, ele nunca aceitou como parte da
argumentação. X tem o direito lógico de encadear a sua conclusão a partir de
suas próprias premissas - as únicas dívidas lógicas que ele terá serão
exclusivamente com elas. Ele não tem nenhuma responsabilidade lógica de
interpretar bem ou adequadamente uma premissa que ele nunca aceitou, pois sua
conclusão não depende dela. Na pior das hipóteses X pode estar errado e
sustentar uma premissa falsa, mas não haverá falácia, por mais que Y esperneie dizendo que não foi "corretamente compreendido".
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
A concepção cósmica-temporal-rítmica da musica de origem africana

Discursar sobre origem e a definição dos batuques é percorrer um campo cheio de concorrência, disputado por candidatos à malandragem,
avessos a qualquer pronunciamento de entendidos. Meu interesse não é
problematizar o patrimônio dos larápios. Além disso, as miscigenação de influências
que se cruzam para construir uma nova realidade cultural são muito complexas, e
provavelmente não são registradas por testemunho direto, porque quem viveu a
época não podia adivinhar que Tango e Maxixe, Bolero, etc, fossem se
consubstanciar em uma nova coisa. Tudo isso faz do estudo do historiador um
pesadelo. A tese de Muniz Sodré, no entanto, apesar de não satisfazer o gosto
pelas provas empíricas, apresenta uma definição do samba especialmente atraente.
O autor não se concentra em elementos estruturais da música ou aspectos
particulares da cultura, em relatos ou artigos de jornais, mas, em um golpe de
gênio, resgata um aspecto particular da “concepção cósmica-temporal-rítmica”
dos africanos como chave de interpretação. Assim ele explica o que há em comum em
todas as expressões do assim chamado samba – maxixado, de roda, etc – como uma
desestabilização do sistema tonal europeu das polcas, ritmicamente, através da
síncope. Mas isso, em vez de fixar a definição musical do samba, faz com que
essa última dependa intrinsecamente da dança: “de fato, tanto no jazz como no
samba, atua de modo muito especial a síncopa, incitando o ouvinte a preencher o
tempo vazio com a marcação temporal – palmas, meneios, balanço, dança” (Sodré,
M. 1979, Samba, o dono do corpo, p.24).
A genialidade dessa explicação está em
conseguir abranger o conceito de samba como uma interdependência entre a música
e a dança, deixando, além disso, espaço para especular sobre a ligação entre o fenômeno
cultural brasileiro e a tal “concepção cósmica-temporal dos africanos”, que
introduz as exigências de seu sotaque corporal no meio dos planos melódicos
europeus. Deixo aqui a sugestão de especulação, para os curiosos e inquietos.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
International Ballroom Samba VS Brazilian Samba: Why are brazilians so intolerant towards foreign expressions of Samba.

There
has been a longstanding controversy over the relationship between International
Ballroom Samba and Traditional
Brazilian Samba – I’m not only talking about carnival samba, but Brazilian
Ballroom Samba as well. The dispute is mainly due to the lack of visible
identity between the two, which is why most Brazilians do not recognize their
culture represented in the International Ballroom Dance community. But it
remains a mystery why Brazilians are so protective of their culture and do not
tolerate any different manifestations of their music and dance experience. Are
we Brazilians ignorant of the inevitable mixed nature of all art expressions?
Our culture is a product of miscegenation. Even samba, as a music and lifestyle,
is a great mixture of African, native south-American and European elements. So,
what is the problem if Europeans want to make their own version of samba? This
post was written to try to explain why is it so hard, even for the most
cosmopolitan Brazilian, to accept International Ballroom Samba as something
more than an artificial sport, with nothing related to samba, even in its less
authentic and mixed forms.
1. Pierre Zurcher and the european apropriation of south-american partner dances
1. Pierre Zurcher and the european apropriation of south-american partner dances
A good introduction is to mention a interest piece of history of Latin Ballroom: the tales of Pierre and Lavelle during the 40`s and 50`s. Doris Lavelle and Pierre Zurcher are the couple who naively or arrogantly tried to package the Brazilian and Cuban culture after a few trips and takes them to Europe. The result could not be less than grotesque, and the fact that its rules and definitions still has great influence on teachers script and judgments of championships is one remembrance of colonialist thought that should make us alert and suspicious. Juliet Macaims spoke about this issue with great eloquence:
"A dance practice is much more than a list of footsteps and rhythm charts. The culture and values of its practitioners are embedded in the postures, gestures and dynamics of the dance. Recontextualized in European ballroom among waltzes and foxtrots, Latin dances were adapted by European bodies to adhere to their own culture's ideals and values. Postures were straightened, rhythms were simplified, an steps were named and categorized" (p. 114)
"A dance practice is much more than a list of footsteps and rhythm charts. The culture and values of its practitioners are embedded in the postures, gestures and dynamics of the dance. Recontextualized in European ballroom among waltzes and foxtrots, Latin dances were adapted by European bodies to adhere to their own culture's ideals and values. Postures were straightened, rhythms were simplified, an steps were named and categorized" (p. 114)
This could be enough reason to justify any brazilian raging "this is not samba" in internet videos. If someone is interested in learning more, please read Juliet Macaims book: "Glamour addiction: inside american ballroom industry". In this blog, however, i will introduce the reader to other reasons as to why brazillians do not recognize samba in international ballroom sport. My aim is to introduce the public to a sketch of the rich brazillian culture, and to show how far they are from even try to represent it in international ballroom.
2. African or European origin?
2. African or European origin?
First of all, lets clear some very common misunderstandings. It is a typical Eurocentric reductionist account of Latin-american cultures to think that they come all from Africa. Thought, Africa is just one of the many influences of Samba, along with native-indigenous and European-diaspora cultures. There is many great aspects of African influence to be studied in Samba, but the important thing is that there is no Samba at all in Africa, and that Samba is a form of art and broad culture that was born completely in the Brazilian artistic environment. The same way as blues and rock n roll are north-american styles of music, and not African - despite the great African influence on it - Samba has never existed before it was originated in Bahia-Brazil. Even the Angolan culture that borrow the inspiration for its name has a different name: Semba.
Anyway, to say that do not answer the question: where does the south-american and north-american partner dances came from? Which origin is more influential in its blood? Another very common misunderstanding of proud Europeans is to think all partner dances have origins in European ballroom past. For sure, it does exist some fundamental elements that Europeans invented: the close embrace is maybe one of the most genius inventions in partner dances. But if we look closely to the body personality, the structure of steps, posture, hips, present in American dances, we can fast see that Africa is more present there than Europe. And i am not only talking about the body isolation movements. Africa is more present than Europe even in the partner work structure of the dance. I ask the readers to see this video from Angolan partner dances with me: https://www.youtube.com/watch?v=x7Fw9XbVBlI
The Argentine Tango "sacadas" or legs tossings are an adaptation of Angolan structures of partner dances that were present in their popular dances for decades, having a heavy presence in todays Kizomba. The posture, the way the leader throws his weight over the follower, the hip movements, the way the leader skates with his feet, is the basis of original Maxixe and brazilian samba. The footwork and aerials are the basis of North American swing dances, specially Lindy Hop. We cannot miss also several elements present in son cubano, as the way the leader is supported by the lady while he trows himself into the floor. Europeans tried to adapt this same structures way after. But, for sure, Africa is the main set of independent (from Europe) and original influences of American partner dances.
3. Brazilian samba meaning and history
So, now that we have this clear, we can say that samba is a name with many meanings. It is a style of music whose inspiration came from many different places in Brazil, which is already large enough to have very distinct cultural centers. It refers to a specific type of African-Brazilian tradition. Fundamentally, samba is open to new interpretations, new perspectives, it's a living thing, and it’s not something you can enclose in a dictionary definition. There is "samba de coco" in Pernambuco state, something very different than traditional Rio de Janeiro Samba. There are also legitimate experiments, like mixing hip-hop with Samba. Samba was born in Brazil, but nothing prevents it from traveling to new countries, to new cultural landscapes. But, for some reason, that has never really happened. Maybe it is our fault, maybe it is a tradition without cosmopolitan vocation. At this point, I don’t know how to explain that. What is true is that while Europeans and North Americans have their faithful versions of Salsa and Tango, they have never come close to a reliable version of Samba. Let's figure out why.
4. Reasons as to why Brazilians do not recognize International Samba
Anyway, to say that do not answer the question: where does the south-american and north-american partner dances came from? Which origin is more influential in its blood? Another very common misunderstanding of proud Europeans is to think all partner dances have origins in European ballroom past. For sure, it does exist some fundamental elements that Europeans invented: the close embrace is maybe one of the most genius inventions in partner dances. But if we look closely to the body personality, the structure of steps, posture, hips, present in American dances, we can fast see that Africa is more present there than Europe. And i am not only talking about the body isolation movements. Africa is more present than Europe even in the partner work structure of the dance. I ask the readers to see this video from Angolan partner dances with me: https://www.youtube.com/watch?v=x7Fw9XbVBlI
The Argentine Tango "sacadas" or legs tossings are an adaptation of Angolan structures of partner dances that were present in their popular dances for decades, having a heavy presence in todays Kizomba. The posture, the way the leader throws his weight over the follower, the hip movements, the way the leader skates with his feet, is the basis of original Maxixe and brazilian samba. The footwork and aerials are the basis of North American swing dances, specially Lindy Hop. We cannot miss also several elements present in son cubano, as the way the leader is supported by the lady while he trows himself into the floor. Europeans tried to adapt this same structures way after. But, for sure, Africa is the main set of independent (from Europe) and original influences of American partner dances.
3. Brazilian samba meaning and history
So, now that we have this clear, we can say that samba is a name with many meanings. It is a style of music whose inspiration came from many different places in Brazil, which is already large enough to have very distinct cultural centers. It refers to a specific type of African-Brazilian tradition. Fundamentally, samba is open to new interpretations, new perspectives, it's a living thing, and it’s not something you can enclose in a dictionary definition. There is "samba de coco" in Pernambuco state, something very different than traditional Rio de Janeiro Samba. There are also legitimate experiments, like mixing hip-hop with Samba. Samba was born in Brazil, but nothing prevents it from traveling to new countries, to new cultural landscapes. But, for some reason, that has never really happened. Maybe it is our fault, maybe it is a tradition without cosmopolitan vocation. At this point, I don’t know how to explain that. What is true is that while Europeans and North Americans have their faithful versions of Salsa and Tango, they have never come close to a reliable version of Samba. Let's figure out why.
4. Reasons as to why Brazilians do not recognize International Samba
The
first reason is the origin of the two dances. Theoretically, the structural
origin of both International Ballroom Samba and Brazilian Samba Dance is
Maxixe, a style that evolved in the 19th century through the combination of
African dance rhythms and body isolation movements with European partner dances
like the polka. The following video contains a replica of Maxixe dance:
"A French book published by Paul Boucher in 1928 included Maxixe instructions". This book has the same age as the first samba school, a period when samba dance was a little child, dependent on his Maxixe mother. So, europeans have a book to learn how to samba derived entirely from Maxixe, and since they never had the oportunity to see real samba in the last 80 years of samba culture, what they have today is a different animal, with little evolutionary link with the brazilian samba. The history of this dance and its popularity back in the days is amazing. Here there is a very good documentary about it:
Maxixe is an old
type of music that was a part of the development of Brazilian cultural
identity, but that has since almost completely disappeared, and it is
known today as a kind of "Choro" (https://en.wikipedia.org/wiki/Choro).
Most Brazilians have never heard of Maxixe, while samba is part of their
everyday routine. Maxixe was part of a cultural transition, while Samba is a
mature form of art. And most importantly, Samba looks really different than
Maxixe. For this reason, International Ballroom Samba was developed from
Maxixe, not from Samba. It is a European version of an extinct dance and
culture. That is the beginning of the explanation for the astonishment of
Brazilians when they see Europeans dancing “Samba”.
"A French book published by Paul Boucher in 1928 included Maxixe instructions". This book has the same age as the first samba school, a period when samba dance was a little child, dependent on his Maxixe mother. So, europeans have a book to learn how to samba derived entirely from Maxixe, and since they never had the oportunity to see real samba in the last 80 years of samba culture, what they have today is a different animal, with little evolutionary link with the brazilian samba. The history of this dance and its popularity back in the days is amazing. Here there is a very good documentary about it:
But
I don’t want go on this path. I don’t really feel disrespected. What is
relevant here is something else: Samba music is characterized by a very
singular approach to the off beats. The nature of the syncope in samba's beat
is something you cannot find in any other music in the world. That's what makes
the "specific samba swing. By this I mean not speed, energy or tightness,
but the fact that half of the notes in a bar always fall slightly off the beat,
in a very consistant pattern". Moreover, there is a link with the
african religious and the way they use to dance to worship their gods. It
is still possible to see, today, similarities between the ceremonies of the
Umbanda and Candomble and the way to dance samba:
That’s the second reason why Brazilians hesitate to recognize International B. Samba as Samba. First of all, they – Int. B. Dancers – are not dancing to Samba music, so it is impossible to read the offbeat approach of samba in their dance. Second, in the rare circumstances that they dance to real samba music, their bodies do not reflect a corporal interpretation of the off beats. They do not shake their body like the off beats demand, with "ginga". They simply do not dialogue with Samba music. It’s not news that Int. Ballroom Samba looks a lot like all the other European versions of Latin dances. And they are all too European: the dance scholars from Europe overvalue their classical influences. Everyone has the right to value what they think is more beautiful. But what’s the point of having a new version of a common European dance with a Brazilian name?
That’s the second reason why Brazilians hesitate to recognize International B. Samba as Samba. First of all, they – Int. B. Dancers – are not dancing to Samba music, so it is impossible to read the offbeat approach of samba in their dance. Second, in the rare circumstances that they dance to real samba music, their bodies do not reflect a corporal interpretation of the off beats. They do not shake their body like the off beats demand, with "ginga". They simply do not dialogue with Samba music. It’s not news that Int. Ballroom Samba looks a lot like all the other European versions of Latin dances. And they are all too European: the dance scholars from Europe overvalue their classical influences. Everyone has the right to value what they think is more beautiful. But what’s the point of having a new version of a common European dance with a Brazilian name?
The
third reason is the difference in personality and samba spirit. Brazilian samba
retains regional elements directly connected with the cultural experience of
Brazil, which has matured independently from the African and European premises
contained in its roots. There are more than one hundred years of samba culture
in Brazil, and it is still strong today, with new readings of samba appearing
every decade. It is linked with the history of the poor from the slums, where a
lot of great composers have come from. On the other hand, the International
Ballroom Samba, despite its undisputed technical appeal, does not contain any
elements homogeneous with the personality of Brazilian samba. It is a style of
dance adapted for large presentations that does not have any visible connection
with the mythologies, stories, personality nor the substance of Brazilian
music. For these reasons it is a professional dance sport, without a strong
cultural foundation. Technically speaking, there are few common elements
between them. These elements are summarized in generic elements that only an
expert could identify. To the common viewer, they are diametrically different
dances. The International Ballroom seems to have a stronger visible kinship
with other European interpretations of Latin dances such as salsa, rumba and
flamenco. The way they move their arms and the posture of the chest looks like
something European in its roots: maybe a Georgian dancer.
Now,
as demonstrated above, we have three different reasons as to why Brazilians are
so intolerant of samba manifestations in Europe and North America. First,
someone sold Maxixe as if it were Samba to Europeans. Second, International
Samba does not have any connections with the corporal interpretations of the
singular syncope style of the samba beat – and frequently they don’t even know
the difference between salsa and samba. Third, there's a lack of samba
personality in Int. Ballroom Samba. There aren't any visible culture
foundations that would identify it as a variation or a version of samba.
Actually, it just looks like another ordinary European dance.
Are
these enough reasons to justify Brazilian hate toward Europeans trying to dance
samba? Maybe not. But there are questions free of hate to answer
here. First, what do Europeans gain by reducing samba to a mixture of
ballet, flamenco, Georgian dance and polka, with tropical fruits on the
dancer's head? Is the point having a sport, a semantic and artificial type of
dance, fitted only for competitions? There is a whole market for it, right?
Money. Maybe i am missing the artistic value of the dance? Why an art have to
have any cultural foundation, anyway? But I do recognize its artistic value, I
found it beautiful, actually. The problem was never there. Europe already
expressed its great artistic dance skills in their own style of dancing, and
the misrepresentation of samba does not add anything to the great European
cultural treasure. Finally, that’s not only an artistic issue. But from political
and moral points of view, this terminology is not innocent. It’s a fact that a
lot of professors try to sell Int. Balroom Samba to naïve European and North
American people that are passionate about Brazilian culture. These people are
being fooled. They are in store for an unpleasant surprise when they finally
visit Rio de Janeiro.
There
are speculations about the reasons for this terminological confusion, since the
identity of names has baffled Brazilians. I found this exlanation: "In
1922 Donga, Pixinguinha and the other members of the band Oita Batutas took the
band's unique music to Paris and toured with the Maxixe dancer, Duque. There
they blended Jazz influences with their own unique sound. After their return
from Paris in 1923, composers including Donga, Pixinguinha, Sinhô (José Barbosa
da Silva), and Heitor dos Prazeres experimented with different instruments and
sounds and established the genre called Samba-Carioca. In 1933, Samba-Carioca
was introduced to the world, when Fred Astaire danced it in the movie, Flying
Down to Rio." (http://www.oocities.org/sd_au/samba/sambanotes2.html)"
It
is assumed that the need to win the European market has influenced greedy samba
producers from Brazil to create a version more suited to European criteria of
competition, selling an artificial version of their own culture. Others suppose
that it was samba's popularity that propelled Europeans to create their own
version, which had developed alone and increasingly separated from its
name. For whatever reason, and whatever interests are behind it, brazilian
culture and samba are not being represented faithfully out of Brazil. Maybe
this ignorance towards our country is our own fault. Our country is not a great
cultural polo, or we don’t know how to export our culture. There are break
dancers in China, Corea, Japan. There are salsa players in Colombia and
Europe. Why samba is still only a Brazilian thing?
The fights for the control of the dance
Whatever the reasons are behind the export of Maxixe to Europe, and whatever the reason for its name changing for samba (mid 40s), it is true that Europeans include "samba" in their system of competition and teaching for a long time, and it is reasonable to expect that they will not get it out of there now, either by our pressure or not. Since they are trapped because their dance is so radically different from the actual culture, a typical reaction of international samba dancers is to claim that they are the true samba dancers, and that Brazilians can not dance. This statement, in addition to the sin of offending the culture that they copy, has a lot to answer. The more pressing question is: if they are the real dancers, why not just name their dance with a European name, and be free, that way, from any connection with such a strange culture? Anyway, this attitude stems from the idea that a dance need not have any connection to the original culture. Seems like they think thar they could prepare the steps in a pure scientifically context. For this reason, the technical proud of ballroom dancers hide their creative stagnation and inability to create and develop their own styles.
Our opinion is that a dance is developed by constant exposure to the swing of a musical style. It is the frequency of exposure of the body to this song, and the collective sentiment of people copying each other at parties, that creates body patterns and specific steps. Obviously, these steps can be interpretations of movements from other countries, or ancient traditions. All available material enters the cultural pot and acquires its own personality. The dance halls, in Rio de Janeiro, were private workshops full of joys and sensations. The samba schools - mangueira, salgueiro, etc - are very strong cultural entities, and are linked to the soul of Rio from the cradle.
The Brazilian way of dancing may not have the same softness in the gestures you see in Bolshoi ballets, but their energy, creativity, rich outpouring of invocations, is unmatched. And here it is not dispute titles, but to be true to his own personality. Samba is about men and women, so it has elements of all mankind. But its regional soil can not be ignored, as a man who wants to reach maturity can not ignore its root. It shouldnt be limited by the ideal of "cleansing" imposed by foreign traditions. I think that a dance is transparent only to the extent that is faithfull to the perspective that it gives to the reading of the music, or the sound of the world. The fluency is just a side effect of this loyalty, that makes us admire a dinosaur step given by a dinosaur, and a heron step, given by a heron. Cleaniness is the transparency of movement to its moral origin, its loyality to its unique foundation: samba is clean when it have the face of samba.
The fights for the control of the dance
Whatever the reasons are behind the export of Maxixe to Europe, and whatever the reason for its name changing for samba (mid 40s), it is true that Europeans include "samba" in their system of competition and teaching for a long time, and it is reasonable to expect that they will not get it out of there now, either by our pressure or not. Since they are trapped because their dance is so radically different from the actual culture, a typical reaction of international samba dancers is to claim that they are the true samba dancers, and that Brazilians can not dance. This statement, in addition to the sin of offending the culture that they copy, has a lot to answer. The more pressing question is: if they are the real dancers, why not just name their dance with a European name, and be free, that way, from any connection with such a strange culture? Anyway, this attitude stems from the idea that a dance need not have any connection to the original culture. Seems like they think thar they could prepare the steps in a pure scientifically context. For this reason, the technical proud of ballroom dancers hide their creative stagnation and inability to create and develop their own styles.
Our opinion is that a dance is developed by constant exposure to the swing of a musical style. It is the frequency of exposure of the body to this song, and the collective sentiment of people copying each other at parties, that creates body patterns and specific steps. Obviously, these steps can be interpretations of movements from other countries, or ancient traditions. All available material enters the cultural pot and acquires its own personality. The dance halls, in Rio de Janeiro, were private workshops full of joys and sensations. The samba schools - mangueira, salgueiro, etc - are very strong cultural entities, and are linked to the soul of Rio from the cradle.
The Brazilian way of dancing may not have the same softness in the gestures you see in Bolshoi ballets, but their energy, creativity, rich outpouring of invocations, is unmatched. And here it is not dispute titles, but to be true to his own personality. Samba is about men and women, so it has elements of all mankind. But its regional soil can not be ignored, as a man who wants to reach maturity can not ignore its root. It shouldnt be limited by the ideal of "cleansing" imposed by foreign traditions. I think that a dance is transparent only to the extent that is faithfull to the perspective that it gives to the reading of the music, or the sound of the world. The fluency is just a side effect of this loyalty, that makes us admire a dinosaur step given by a dinosaur, and a heron step, given by a heron. Cleaniness is the transparency of movement to its moral origin, its loyality to its unique foundation: samba is clean when it have the face of samba.
List of
references:
Those videos shows the origins of samba in connection with brazil history: https://www.youtube.com/watch?v=9WOgH4gs0R8
https://www.youtube.com/watch?v=nPGcQM5nb8M
Those videos shows the origins of samba in connection with brazil history: https://www.youtube.com/watch?v=9WOgH4gs0R8
https://www.youtube.com/watch?v=nPGcQM5nb8M
The brazilian Ministry of Culture declared Samba (rhythm developed in Rio de Janeiro, AKA “Samba carioca”) as Brazil’s immaterial cultural patrimony. It was registered at the Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan):
2. UNESCO declared “Samba de Roda” (the samba developed in the brazilian state of Bahia) the world’s immaterial cultural partimony:
brasil brasileiro show the guardian review: http://www.theguardian.com/stage/2006/aug/03/dance
You can see in youtube the body reading of capoeira, as a matrix for samba movements. Just type: capoeira-samba. Capoeira players dancing samba are a reflect of the roots of the body expression of samba: the Ginga.
You can see in youtube the body reading of capoeira, as a matrix for samba movements. Just type: capoeira-samba. Capoeira players dancing samba are a reflect of the roots of the body expression of samba: the Ginga.
You can
learn about the “Malandro” mythology in Wikipedia typing
"malandragem".
As for the
music, listen to “Cartola”, “Nelson Cavaquinho”, for some old and beautiful
tracks. Listen to João Nogueira for a more modern samba approach. Listen to
Jorge Ben Jor for a more swing expression. Listen to Vinicius de Morais and Tom
Jobim for a Bossa Nova and Jazz approach of samba.
If you wanna
see samba de gafieira in its best form, search for “Leo Fortes e Robertinha
Baila Floripa 2013 – samba tradicional”. Second good option: look for
“Jimmy de Oliveira- samba de gafieira tradicional”. There is a link here: http://www.youtube.com/watch?v=rfFZJid5CPU
To know about samba de gafieira, there is a
Book called “Samba de Gafieira – a história da dança de salao no brasil” (Samba
de Gafieira – the history of Ballroom dance in Brasil)
Finally, to learn about samba's personality,
spirit, life style, and history, there is few ways to do so. You have to live with
Brazilians, and come to Brazil. Some references here are Brazil itself: visit
Lapa, Rio de Janeiro. Visit Salvador, Bahia. The majority of the great
chronicles of Brazil in the last century are all linked to samba. Samba is one
of the more strong cultural identities of Brazilians. Second option is to watch this french documentary from 1969, called Sarava: http://www.youtube.com/watch?v=nPGcQM5nb8M
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